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Este texto foi adaptado para este site e integra o livro Haruo Ohara – Fotografias, organizado pelo próprio ensaísta e editado pelo Instituto Moreira Salles.

A obra de Haruo Ohara, alinhada com a fotografia moderna e humanista de meados do século XX, contribui para mostrar que alguns dos antagonismos atávicos da cultura brasileira, como aquele que contrapõe o campo e a cidade como símbolos do arcaico e do moderno, herança de nosso período colonial extrativista e escravocrata, não resiste ao surgimento de uma nova personagem histórica na passagem do século XIX para o XX: o imigrante europeu ou asiático, que renova cultural e economicamente o país a partir do campo e que, no caso específico de Haruo Ohara, encarna tanto o homem da terra quanto o homem da cultura. Ao lado do trabalho diário na lavoura, Haruo cultivou a delicadeza dos infindáveis registros fotográficos possíveis da luz, delineando formas abstratas a partir de volumes e texturas dos objetos e da natureza presentes em seu ambiente e entorno. Produziu também marcantes imagens documentais e humanistas de sua família, de sua região e do mundo do trabalho associado à abertura da nova fronteira agrícola no norte do Paraná pelos imigrantes japoneses e de outras nacionalidades que para lá acorreram.

 

Maria, 1949. Chácara Arara, Londrina – PR. Foto de Haruo Ohara / acervo IMS.

 

A fotografia em preto-e-branco, como técnica e forma de expressão artística, é uma linguagem que exige de quem a pratica o domínio preciso da luz no momento do registro da cena e grande domínio técnico e sensibilidade nos trabalhos de laboratório de revelação e ampliação final da imagem.

Fotógrafos que, em meados do século XX, desenvolveram-se nessa linguagem construíram um universo marcante de referências culturais e estéticas, influenciando nosso olhar contemporâneo sobre o presente e o passado recente. No Brasil, nomes como Marcel Gautherot, José Medeiros, Thomaz Farkas e Hans Gunter Flieg; e, no exterior, Minor White, Edward Weston, Walker Evans e Ansel Adams, entre outros, formam uma linhagem que deixou sua marca autoral, estabelecida pessoalmente ou sob sua supervisão direta, nos dois momentos principais do processo fotográfico preto-e-branco: o da tomada da fotografia e o de posterior tradução da imagem capturada na câmera em imagem sobre papel que represente em preto-e-branco e tons de cinza o momento, a luz e as formas visualizadas originalmente.

Se a maior parte dos nomes citados é de fotógrafos que, ao longo de suas carreiras, atuaram nos principais centros urbanos no Brasil e no exterior, em meio a referências culturais e estéticas contemporâneas a eles, o trabalho de Haruo, ainda que mais isolado por ter se realizado na nova fronteira agrícola do sul do Brasil, é realizado também dentro de um quadro de referências fotográficas e artísticas – associadas a sua participação ativa nos fotocineclubes da região de Londrina e no Foto Cine Clube Bandeirantes de São Paulo, local de atuação de outros importantes nomes da fotografia brasileira, como German Lorca, Geraldo de Barros e Chico Albuquerque.

Da mesma maneira que os frutos da terra, as fotografias em preto-e-branco produzidas por Haruo entre os anos 1940 e 1970 e reunidas nesta mostra também exigiram seu próprio tempo de processamento e maturação. A emoção do fotógrafo em ver sua intuição e pré-visualização de uma determinada cena lentamente materializando-se, no papel fotográfico processado na penumbra do laboratório, certamente foi semelhante à emoção do lavrador Haruo, que, na luz atenuada do amanhecer ou entardecer, contemplava o esforço de seu trabalho desabrochando em flor e fruto em seus campos cultivados. Tanto é assim que Haruo sempre transcreveu em seus diários, álbuns fotográficos e cartas os seguintes dizeres: “Hoje você vê a flor. Agradeça a semente de ontem.”

Não apenas a urbanização crescente do país como também a mudança da base tecnológica da fotografia em direção à fotografa digital tornam tais processos pouco compreensíveis às novas gerações. Dentro de um quadro de intensa urbanização e industrialização em escala mundial, como o de hoje, a crescente velocidade e artificialidade dos ciclos econômicos e tecnológicos pretende-se impor como a “ordem natural” dos mercados e da vida moderna e contemporânea.

O trabalho de Haruo aponta, entretanto, para o fato de que, mesmo nesse momento de forte transformação e aceleração tecnológica, talvez apenas o tempo real de maturação das flores, frutos e filhos fortemente representados em sua obra seja também o tempo real e necessário para a criação artística. E essa insistente sinalização para o verdadeiro ciclo da vida e da terra, com seus ritmos ancestrais, é o seu principal legado.