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Arquivo Peter Scheier


Textos da exposição

A exposição é resultado de um mergulho no arquivo de aproximadamente 35 mil imagens do fotógrafo alemão Peter Scheier (1908-1979), realizadas entre as décadas de 1940 e 1970, pertencentes ao Instituto Moreira Salles. A mostra, sob a curadoria de Heloisa Espada, destaca a passagem de Scheier pela revista O Cruzeiro, nos anos 1940, seus registros sobre o nascimento de instituições como o Museu de Arte de São Paulo e a Bienal de São Paulo, nos anos 1950, bem como sua colaboração com arquitetos como Rino Levi e Lina Bo Bardi.

Apresentação

O Cruzeiro

O trabalho na revista O Cruzeiro, entre 1945 e 1951, foi decisivo na formação profissional de Peter Scheier. Durante esse período, ele trabalhou junto ao fotojornalista francês Jean Manzon, o responsável pela reforma editorial que abriu amplo espaço para a fotografia na revista a partir de 1943. Ao imigrar para o Rio de Janeiro, em 1940, com ótima formação técnica, Manzon trouxe consigo a experiência como fotojornalista nas revistas francesas Paris-Soir, Match e Vu. Sobretudo a Match era famosa pela abordagem sensacionalista, por meio de cenas inusitadas e impactantes, quase sempre montadas pelos próprios fotógrafos, muitas vezes ultrapassando os limites entre ficção e notícia.

A partir de 1943, O Cruzeiro aderiu ao modelo de revistas ilustradas internacionais, com destaque para a fotorreportagem, a exemplo do que era feito na Match, na Vu e na norte-americana Life. Nesse ambiente, Scheier assimilou uma linguagem fotográfica de teor narrativo, bem como um repertório de soluções formais modernas, como closes, diagonais, ângulos de cima e de baixo. Assim como Manzon, Scheier trabalhava com retratos encenados e usava a luz do flash de forma dramática, muitas vezes criando uma retórica visual teatralizada.

No pós-guerra, O Cruzeiro se tornou a revista mais lida do país, chegando a uma tiragem semanal de 630 mil exemplares. O sucesso coincidiu com o período de formação da cultura de massa no Brasil, a industrialização do jornalismo e sua crescente dependência financeira da publicidade. A revista desbravou o território nacional e colocou em pauta realidades até então desconhecidas. No entanto, embora fosse consumida por todas as classes sociais, O Cruzeiro tinha a classe média urbana e branca como o “padrão de normalidade”, e tudo que se diferenciava desse modelo era tratado como “desvio”. Isso resultou em reportagens sensacionalistas que trataram indígenas, afrodescendentes, portadores de deficiências e o sincretismo cultural e religioso de forma pejorativa e preconceituosa.

Reportagem "As belas viraram feras". Fotos de Peter Scheier, texto de Arlindo Silva. Revista O Cruzeiro, ano XXII, n. 50, 30-9-1950, pp. 90-93 / Acervo IMS

Bienal

Em 1951, Peter Scheier fotografou a montagem e as cerimônias de inauguração da I Bienal de São Paulo, que, na época, trazia no nome o Museu de Arte Moderna (MAM-SP), organizador do evento. Apresentada num pavilhão provisório construído na esplanada do Trianon, no terreno hoje ocupado pelo Masp, a exposição reuniu um conjunto de obras modernas internacionais, uma quantidade até então inédita no país.

As fotos de Scheier são um documento precioso sobre a cultura museográfica da época, sobre as obras expostas e os personagens envolvidos no evento. Aos olhos de hoje, pensando nas regras de conservação contemporâneas, algumas cenas parecem curiosas, como as que mostram artistas e diretores de museus fumando junto a obras de arte ou tocando-as sem luvas. Scheier registrou a interação de personalidades internacionais com artistas brasileiros, alguns já consagrados, outros jovens que trabalharam na montagem, como Marcelo Grassmann, Ademir Martins e Carmelo Cruz.

Ao fotografar a I Bienal, Scheier utilizou estratégias retóricas comuns ao fotojornalismo praticado pela revista O Cruzeiro. Suas fotos contrapõem a força braçal dos trabalhadores com a sofisticação das obras de arte, criando um discurso de contraste entre um Brasil arcaico e o país que se modernizava. Do ponto de vista formal, ele investiu na sobreposição de planos, criando relações entre elementos distintos.

À esquerda, pinturas de Yves Tanguy, Divisibilidade indefinida (1942); Os transparentes (1951); Lentamente para o Norte (1951). À direita: escultura de Alexander Calder, Ogunquit (1946). Ao centro: René D'Harnoncourt, diretor do MoMA, Dorothy C. Miller (de costas), curadora do MoMA, e mulher não identificada. I Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo, 1951. Esplanada do Trianon, Avenida Paulista, São Paulo. Foto de Peter Scheier / Acervo IMS

Brasília

Em 1958, Peter Scheier viajou a Brasília para fotografar o primeiro casamento ocorrido na cidade. Na ocasião, também registrou a futura capital em obras, atentando para as características da arquitetura e para o perfil dos trabalhadores envolvidos na construção. Dois anos depois, ele viajou a Brasília de Kombi com a família para fotografar a inauguração e o dia a dia da nova capital. O resultado foi divulgado internacionalmente pela agência norte-americana Pix Incorporated e, em conjunto com as fotos realizadas na viagem de 1958, foi publicado no livro Brasília vive!. Lançado pela Livraria Kosmos Editora, o objetivo da publicação foi mostrar que a nova capital já não era um lugar inóspito no interior do país.

Desde o início dos anos 1940, Scheier fotografou obras de arquitetos modernos baseados em São Paulo, como Lina Bo Bardi, Gregori Warchavchik, Rino Levi e Oswaldo Bratke. No eixo monumental de Brasília, ele investiu numa visão intermediada pelas amplas fachadas de vidro das obras de Oscar Niemeyer, explorando a integração entre o interior e o espaço público proposta por aquela arquitetura. Nas fotos do eixo residencial, o elemento humano é protagonista. Scheier mostra crianças indo para a escola em meio aos prédios em construção, pessoas nos supermercados e passeando pelas ruas de comércio. Em consonância com o discurso desenvolvimentista da época, a Brasília de Scheier representa a promessa de modernidade e de tempos melhores para o país.

Arredores de escola em Superquadra, Brasília, 1960. Foto de Peter Scheier/ Acervo IMS

Israel

Em 1959, Scheier passou quase um mês em Israel. Viajou a convite do governo israelense, como parte das iniciativas oficiais de divulgação do país, que havia completado 10 anos. As fotos realizadas na viagem originaram uma série de oito reportagens intituladas “Um fotógrafo brasileiro em Israel”, com textos do próprio Scheier, publicadas no jornal Diário de São Paulo.

As imagens e os textos em primeira pessoa retratam um país vivaz, onde tradições milenares convivem com modernidade e tecnologia de ponta. Scheier registrou diversos aspectos da vida no interior de Israel, sem abordar, no entanto, os conflitos de fronteira e as guerras com países da Liga Árabe, deflagradas em 1948 e que levaram ao êxodo de milhares de palestinos. Sua narrativa, repleta de digressões pessoais, enfoca, sobretudo, o empreendimento humano necessário à construção do novo país: a chegada de imigrantes vindos de todos os cantos do mundo, o reencontro de parentes separados pela Segunda Guerra, as novas gerações, a vida no deserto, aspectos da convivência pacífica entre árabes e judeus, grandes obras de engenharia, investimentos em arte e cultura. O país retratado por Scheier é a promessa de um Israel onde vigoraria tolerância entre os povos e desenvolvimento social.

As fotos foram reunidas em 1959 na exposição Assim vive Israel, na Congregação Israelita Paulista (CIP), em São Paulo, e na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio de Janeiro.

Tel-Aviv, Israel, 1959. Foto de Peter Scheier / Acervo IMS