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Balança, dois terços

07 de dezembro de 2018
A foto de 1951 com os cadetes em primeiro plano e os dois prédios ao fundo (Arquivo Diários Associados-RJ/Acervo IMS)

 

Aviação – cadetes da Aeronáutica em formatura numa solenidade cívica – é o que consta no verso da foto no arquivo dos Diários Associados incorporado ao acervo do IMS. O carimbo do arquivamento da imagem é de 2 de maio de 1951. Tudo bem. Mas que estranho aquilo lá atrás, não é o "Balança"? Mas sem a porção do meio? Sim: os meninos estão formados em frente ao Palácio Duque de Caxias, tendo às costas o Campo de Santana.

E quando pela ordem alfabética chegamos no arquivo ao tema Carnaval, temos a confirmação em duas fotos, uma do mesmo 1951 e a outra, de Jean Manzon, de 1952: o "Balança", que o Rio de Janeiro aprendeu a ver como uma coisa só, são na verdade três edifícios geminados, sendo que da inauguração em 1948 até 1954 só existiram os dois das pontas, o Prefeito Frontin e o 11 de Junho. E ambos com empenas internas, isto é, o flanco de dentro cego, à espera do irmão do meio, o Maipu, que sempre esteve no projeto. (Existe uma foto em que se vê a empena interna do 11 de Junho no vão central do bloco.)

O grande bloco, de 22 andares, ocupa por inteiro a pequena quadra formada pela avenida Presidente Vargas, as perpendiculares Gustavo Barroso e rua Santana, lá nos fundos, pela paralela Frederico Silva. No Prefeito Frontin – Presidente Vargas, 2007, mas com entrada pela Gustavo Barroso – eram originariamente 9 apartamentos de dois quartos por andar. No Maipu – rua Santana, 73 –, 10 quarto-e-sala por andar, e no 11 de Junho – com uma das faces olhando para Santa Teresa e entrada por Santana, 77 –, 8 por andar, sendo 2 de 2 quartos e 6 de 1 quarto. No total, cerca de 600 endereços, considerando-se que em várias unidades houve obras, ou derrubando divisórias para unir duas numa maior, ou dividindo uma para fazer dois conjugados.

A Presidente Vargas começou a ser aberta em 1941 e saiu demolindo tudo o que havia ao longo e entre as velhas ruas de São Pedro e do Sabão – que deliciosos alguns nomes de ruas do Rio antigo. Veio arrasando tudo até atingir o canal do que fora o Mangue de São Diogo, pouco depois da praça Onze de Junho, também apagada da cartografia municipal pela borracha do engenheiro. E seguiu margeando o canal pelos dois lados até a ponte dos Marinheiros, já quase atingindo a praça da Bandeira. Em três anos estava o estrago todo feito: adeus São Pedro dos Clérigos, monumento de rara beleza e importância, adeus Bom Jesus, adeus São Domingos, adeus restaurante G. Lobo, "contraído em Globo", ensina Pedro Nava, "de onde saiu e vulgarizou-se no Brasil esse prodígio de culinária que é a feijoada completa, [...] prato glorioso, untuoso, prato de luto e veludo [...]" Todos, ainda o Nava, agora "sepultados pela camada de asfalto da Presidente Vargas".

Para os paredões que se imaginava construir ao longo do novo eixo foi estabelecido o gabarito de 22 andares, para edifícios geminados de cabo a rabo com interrupções apenas nas transversais,com lojas e mezaninos recuados e apoiados em pilotis a modo de arcadas modernas, fazendo do recuo largas passagens de pedestres – critérios observados à risca também pelo "Balança". Ora,  lá atrás ninguém podia adivinhar que dezesseis anos mais tarde um político, cumprindo promessa de campanha, transferiria a Capital Federal para o Planalto Central, dando início ao esvaziamento funcional e econômico do Rio. E, assim, o ímpeto incorporador arrefeceu apenas principiado e os paredões só tiveram fôlego, do lado ímpar, até um edifício além da rua Uruguaiana, e do lado par até a altura da avenida Passos.

Desmentidos os planos, cada qual passou a fazer o que quis: por exemplo, o prédio do Banco Central e, do outro lado, o do Detran se intrometendo muito mais altos, o da biblioteca estadual, o do metrô e o do Rio-imagem muito mais baixos etc. Do lado par estão então uma delegacia de polícia, as escolas Rivadávia Correa e Paulo Freire, o Exército e a Central recuados. Passado o acesso ao Catumbi e Santa Bárbara, o prédio da antiga Telerj, atual campus Praça Onze da faculdade Estácio. O reloginho da companhia de gás parado há anos, denunciando o abandono da velha fábrica, e daí para a frente só mais abandono e decadência.

Importa é que do lado esquerdo de quem olha para o pico da Tijuca, com o fim dos prédios do gabarito e mais o vão do Campo de Santana, durante anos o "Balança" imperou sozinho, soberano na paisagem, isolado e transformado em marco de referência  da imagem urbana carioca, elemento no cenário de carnavais e desfiles militares, visível de qualquer ponto, das janelas dos trens, dos ônibus, dos lotações. Daí a estranheza comunicada pelas fotos sem o Maipu: como assim, céu e nuvens no meio do "Balança"?

 

 

Isto até levantarem o horror daquele prédio do 1733 da Presidente Vargas. Com janelas só para a Providência e para os fundos, as laterais cegas à espera de vizinhos que não vieram nem virão – do lado esquerdo, separado do quintal da casa de Deodoro por um estacionamento espremido, do direito, vizinho do atarracado Rio-imagem da Secretaria de Saúde do Estado. De vez em quando, anúncios agressivos vestem as vergonhas esquálidas daquela aberração, um tal de edifício Campo de Santana. Anarquizou de vez.

Balança-mas-não-cai foi um programa humorístico semanal  da Rádio Nacional, entre 1950 e 1967, "projeto e construção", anunciava, de Max Nunes e Haroldo Barbosa. Divertia a audiência com a convivência caótica nesses cortiços surgidos com a verticalização da cidade. O programa ainda deu origem a uma variação do ítulo, o termo “treme-treme”, para nomear esse tipo de "pombal", os mais famosos, o da praia de Botafogo, em cima do antigo cinema Ópera, e o 200 da Barata Ribeiro, em Copacabana, que mudou de número como aquele camarada que tirou o sofá da sala. E o nosso "Balança" bem que fez jus ao apelido que talvez em parte ainda mereça. A crônica ensina que houve ali o diabo, com mais frequência prostituição, tráfico e as violências de que soem se fazer acompanhar.

Primo-pobre residencial daqueles abonados de escritórios lá do começo da avenida, foi fincado solto e ali ficou, olhando para o Mangue e a estrada de ferro, a um pequeno passo da grande zona do meretrício  da Cidade Nova, o entorno das ruas Benedito Hipólito, Júlio do Carmo e Carmo Neto.

Nos últimos anos, a chegada do metrô, o Sambódromo, e a retomada das construções do lado ímpar da avenida depois do "Balança" reduziram consideravelmente a depressão da região, inclusive empurrando o "mangue" no acepção lenocínio para a vizinhança da praça da Bandeira. Instalou-se ali muito recentemente um prédio imenso, no terreno em que foi a Brahma da Marquês de Sapucaí, mas pouco antes o do 2555, cujo perfil faz um claro pendant arquitetônico, possivelmente intencional, com o do "Balança"; a Cedae, outros dois prédios, o arquivo da Cidade, a torre dos Correios, o "Piranhão" da prefeitura em frente ao metrô Cidade Nova e o “inteligente” Tele-porto, no 3131. As ruas se povoaram e se encheram de comércio e de lugares onde aquele formigueiro de funcionários tem que almoçar.

O lugar foi ficando mais seguro, e por isso mais caro, fatores que também afugentam a turma que vive de expedientes menos rendosos. O aluguel de um 2-quartos no Prefeito Frontin está na base de 1300 reais, em andar alto até 1600, condomínio a 450. No 4º andar, esteve um à venda por 270 mil e outro, no 13º, por 450 mil. Os do Maipu são mais em conta. No 11 de Junho há 2-quartos a 1200 reais e 1-quarto a 1000, sendo o condomínio um bocadinho mais alto, 540 reais.

Mas quem dera agora um Eduardo Coutinho que aqui nos desse outro adorável Edifício Master. Que mundo de histórias não houve, há e haverá por detrás daquelas mil janelas e vitrôs.

Cássio Loredano é caricaturista e consultor do IMS.

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