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Cemitério do Araçá

12 de abril de 2017

A série Primeira Vista traz textos de ficção inéditos, escritos a partir de fotografias selecionadas no acervo do Instituto Moreira Salles. O autor escreve sem ter informação nenhuma sobre a imagem, contando apenas com o estímulo visual. Neste mês de abril, Noemi Jaffe foi convidada a escrever sobre uma foto de Claude Lévi-Strauss.

Cemitério do Araçá. São Paulo, SP, circa 1937. Claude Lévi-Strauss / Acervo IMS

 

Não me sinto muito confortável em exposições de fotografias. Invariavelmente penso que não tenho o direito de estar lá, roubando, tardiamente, cenas cujas vidas não conheci e que, provavelmente, nem os próprios sujeitos souberam ter vivido, pois foram flagrados à revelia. Trata-se de um sequestro duplo: enquanto a cena acontecia, quem vivia o momento não tinha consciência de estar sendo congelado quimicamente. E, muito depois, alguém do futuro está a contemplar, numa sala bonita, limpa e moderna, aquela visão roubada e está a considerá-la como um gesto, uma composição, independente da pessoa.

Com esta foto, sinto-me ainda pior. São vivos saindo de um cemitério, onde foram visitar os mortos. Acontece que estes vivos já estão eles mesmos, agora, mortos. Vejo pelas roupas, pelos olhares, pela gomalina no cabelo, por certa atmosfera que não posso descrever, mas que reconheço, que se trata de algo em torno da década de 40. 70 anos atrás, portanto. Estes vivos são agora ossos, os mesmo por quem, nesta foto, contemplam austeros a continuação inevitável da vida que terão de seguir ao deixarem o cemitério.

Olhem para o homem da esquerda: um moço lindo, que se assemelha a uma estátua de cera. Tem o olhar grave, apropriado para o momento. Vestiu-se como mandava o figurino, assistiu ao ritual e agora volta para a rua. Os olhos apertados podem denotar proteção contra o sol, uma tristeza composta e polida, preocupação com o que deverá fazer no resto do dia, elucubrações sobre o sem sentido da vida. Seu olhar não se dirige a lugar algum; típico olhar para quase dentro, sem foco, que permite interpretá-lo como um malandro bem vestido, um existencialista cansado, um almofadinha apático, um proto-Alain Delon.

A senhora do meio olha para baixo e, essa sim, pode-se dizer que está mesmo triste. Conhecia o morto. Era sua empregada, prima distante, conhecida? O vestido fechado, a baixa estatura, algo que ela segura nas mãos, mas principalmente o olhar e a postura corporal, fazem pensar em dor e, simultaneamente, alguma subordinação. Contrição deve ser a palavra certa. Em relação aos dois homens que a ladeiam, ela parece postar-se à espera de que eles decidam para onde vão, para que ela possa prosseguir.

Já o homem à direita é mais decidido que os outros dois a comporem o triângulo frontal. Sabe para onde vai, cumpriu sua obrigação matinal e contempla, sério, a continuação do dia. Já deve ter visto o ponto onde tomará o ônibus ou o carro estacionado. Os três não se conhecem. Cruzaram-se casualmente na saída do cemitério, onde foram inadvertidamente flagrados pelo fotógrafo à espreita que, ao revelar a fotografia, assombrou-se com a sorte da combinação triangularíssima, em que o trio parece saído de um quadro religioso. Uma Maria e dois anjos da guarda celeste; Maria e dois oficiais romanos; Maria, José e João.

Mas aqui estou eu, setenta anos mais tarde, a escrever sobre estas pessoas que não conheci, que não se conheciam entre si, que não conheciam o fotógrafo, que eu não sei quem é, porque a proposta é de escrever sobre uma foto que me foi prescrita, no escuro.

Morte por todos os lados. Falar sobre fotos é sempre, de alguma forma, falar sobre a morte. A morte que nos aguarda, a que já passou, a dos que esperavam pela vida mas que a morte ceifou, a dos instantes que passam e que as fotos teimam em reter; contemplar fotos de quem não conhecemos é ver-se à espera de que o mesmo seja feito também com nossas fotos no futuro, talvez vendidas em banquinhas de feiras de velharias. E poderemos ser interpretados como insensíveis, heroicos, tristes, quando na verdade só estávamos coçando-nos por uma mordida de pernilongo. Nossa vida comprimida em película e ainda sem a vantagem de algum processo químico que ao menos contenha uma promessa de processo, de demora vital.

Entretanto, ao escrever sobre esses três desconhecidos, ao sequestrar-lhes um momento que nem eles sabem terem vivido, termino este texto por subitamente amá-los, e ainda mais pelo absurdo de ignorá-los completamente. Amo esse triângulo ignorado porque amo o humano que eles revelam e que, pela foto, me foi revelado. Amo imaginar quem eles seriam, o que estariam sentindo, para onde iriam. No final, amo roubar-lhes a breve existência e, ainda mais, que a minha também seja roubada no futuro por alguém que, desavisadamente, pode, ao ver uma foto minha, pensar que eu me chamava Claudia, era professora de educação física e estava indo para o mercado comprar cebolas.

Aos mortos, a vida, que prossegue do lado de fora do cemitério. Aos vivos, que olham as fotos, a morte, que permanece lá dentro e que já levou estes que saíam para a vida.

A fotografia é a vida congelada, morta. Mas é também a morte por um instante impedida, vida. Cada um que se vire com elas.

Noemi Jaffe é escritora, professora e crítica literária, autora de, entre outros, Írisz: as orquídeas (2015) e A verdadeira história do alfabeto (2012), vencedor do prêmio Brasília de Literatura de 2014. Colabora com os jornais Folha de S. Paulo e Valor Econômico e atua como jurada e curadora de concursos literáriosMantém o blog Quando nada está acontecendo, coordena um grupo particular de escritores e oferece cursos de escrita criativa em diversas instituições.

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