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Monstro elegante

30 de novembro de 2020

Um dos fundadores d'O Pasquim, jornal carioca célebre por sua oposição à ditadura militar brasileira nos anos 1970, o ilustrador e cartunista Claudius Ceccon acaba de doar seu acervo para o Instituto Moreira Salles. A coleção abarca sua obra gráfica, com 2.461 desenhos, praticamente todos criados para publicação na imprensa, além de cartas e documentos do período em que trabalhou com o educador Paulo Freire. Com a chegada do acervo à reserva técnica do IMS Rio, os desenhos serão higienizados e catalogados pelo setor de Iconografia do Instituto, que reúne desenhos, gravuras e arquivos pessoais de artistas gráficos que compõem um panorama sobre a história da imagem impressa no Brasil. 

Nascido em 1937 no Rio Grande do Sul, Claudius se mudou com a família para o Rio de Janeiro aos quatro anos de idade. Começou cedo na carreira, em 1957, aos 19 anos, publicando caricaturas no Jornal do Brasil. Sempre "discreto e elegante", como define Julia Kovensky, coordenadora de Iconografia do IMS, contribuiu ao longo da vida com os principais veículos brasileiros, como os jornais Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo e a revista Pif Paf, dentre outros. Nos anos 1970 trabalhou em projetos de alfabetização em países africanos de língua portuguesa. Com Paulo Freire, o cineasta Eduardo Coutinho, a escritora Ana Maria Machado e outros, fundou em 1986 o Centro de Criação da Imagem Popular (Cecip), do qual é diretor executivo.

Nani Rubin, da coordenadoria de internet do IMS, conversou com o cartunista para desvendar sua trajetória e descobrir como Claudius se sente na companhia de outros monstros sagrados das artes gráficas brasileiras, como Millôr Fernandes e J. Carlos

 

(Claudius Ceccon/Acervo IMS)

 

"Apesar de tudo, confesso que sou otimista"

Entrevista a Nani Rubin

 

Você é uma pessoa com uma atuação múltipla: é arquiteto, urbanista, educador, ativista político, jornalista. Mas, cronologicamente, a atividade como cartunista, chargista e ilustrador foi uma das primeiras (ou a primeira mesmo?) a aparecer nessa longa lista. Quando, e em que circunstâncias, você se iniciou nesse ofício? Desenhar, quando eu era criança, era uma diversão familiar. Eu e meus dois irmãos mais velhos muitas vezes desenhávamos, por pura diversão, depois do jantar. Só quando entrei para a escola é que percebi que desenhar parecia ser algo especial. Steinberg disse que a diferença com seus contemporâneos era que ele nunca tinha parado de desenhar. Ele tem um texto onde diz que há uma ligação entre o pensamento e a mão que empunha o lápis. O arquiteto americano Michael Graves, professor em Princeton, lamenta que seus alunos estejam perdendo o ato de desenhar, por usar o computador. Ele concorda com Steinberg, quando diz que o desenho (de arquitetura, neste caso) expressa a interação entre nossa mente, nosso olhar e nossa mão. O computador empobrece essa ligação. A surpresa de uma linha que varia de intensidade, do papel que a absorve, que a interrompe, que cria borrões ou mistura as cores, criando efeitos inesperados, tudo isso é parte do prazer de desenhar. Le Corbusier tem uma definição de arquitetura que vai desde o design gráfico, o design de produtos, o próprio projeto arquitetônico e abrange o urbanismo. Para ele, tudo se expressa no desenho, no esboço, no que pode, pouco a pouco, antecipar o que pode vir a ser. Eu incluiria o desenho de humor nessa história.

Mas, para responder à sua pergunta, em 1957 no segundo ano de Arquitetura, eu trabalhava a meio-tempo na diagramação da revista O Cruzeiro. Ali conheci Amilcar de Castro, que estava começando a revolução gráfica do Jornal do Brasil. Ficamos amigos, tomávamos o mesmo ônibus de volta para casa. Numa dessas viagens, ele me disse que estava conseguindo, pouco a pouco, liberar a primeira página do jornal, só de anúncios na época. Conseguiu colocar dois títulos e queria colocar um cartum, uma ousadia impensável. Pensou em Ziraldo e Fortuna, mas não conseguira falar com eles. “Por que você não lança um cara novo?”, perguntei. Ele achou uma boa ideia e me perguntou se eu conhecia alguém. “Conheço: eu.”

Foi assim que começou minha relação com o JB e, mais tarde, com a Manchete, onde passei a ocupar semanalmente a última página por cerca de uns 14 anos e fazer o que se chama de “Circuito Elizabeth Arden” dos principais jornais brasileiros, a Folha de S. Paulo, o Estado de S. Paulo e O Globo. E ainda participar das aventuras d'O Pif Paf e do Pasquim. Continuo a desenhar, criando capas e charges editoriais no Le Monde Diplomatique Brasil e ilustrando publicações do Cecip.

 

Humoristas costumam dizer que certos governos criam situações tão inverossímeis que fica difícil competir com determinados políticos, por exemplo, por já trazerem a piada pronta. Em sua carreira, quando foi mais fácil produzir cartuns e charges? Que situações te deram material mais fácil de trabalhar? E como é atualmente? O papel do humor, em qualquer circunstância, é desnudar o poder, mostrar o que há por trás de personagens que se julgam acima do comum dos mortais, revelar os interesses e as mentiras de seu discurso, expor os pés de barro de suas estátuas, o ridículo de sua empáfia. Freud, no seu livro sobre humor (O chiste e sua relação com o inconsciente) diz que o humor é a arma do oprimido contra o opressor. O humor é nossa arma mais letal. Ao longo da minha atuação como chargista vi exemplos de todo tipo de governos, com episódios beirando o ridículo. Mas, com toda a certeza, o atual governo federal é imbatível nas suas trapalhadas e nas suas declarações absolutamente constrangedoras.

 

(Claudius Ceccon/Acervo IMS)

 

Você considera que há um limite para provocar graça? Há temas "proibidos"? Ou tudo é passível de ser comentado através dos traços? Quem faz humor fica logo sabendo que nem todo mundo tem senso de humor. Senso de humor não se aprende no colégio, nem em papo de bar. A divisão dos seres humanos não está na cor da pele, na conta do banco ou nos PhDs que você adquiriu. A grande divisão é entre os que têm senso de humor e os que não o têm. E estes, quase sempre, estão em posições de poder. O que é possível dizer na França é absolutamente proibido, por exemplo, na Arábia Saudita. Nós temos uma constituição, graças a Deus, que apesar de frequentemente espezinhada e maltratada, diz que é livre a manifestação de pensamento. Mas os que fazem as leis e quem as executa – “Aos amigos, tudo! Aos inimigos, a lei!”, dizia Benedito Valadares – não acham a menor graça  em ter seus podres expostos à chacota pública. Como nos conta Umberto Eco, em seu romance O nome da rosa, para o monge assassino, o maior inimigo da fé é o riso. E, para a defesa da fé contra o humor, os fanáticos de todo tipo acham que até a morte é justificável.

 

Em mais de seis décadas você pôde acompanhar vários momentos do Brasil e do mundo. Sua obra comenta um longo período do país, inclusive os anos de ditadura militar e de vigência do AI-5. Apesar de estarmos vivenciando o ressurgimento da extrema direita e nos defrontarmos o tempo todo com posições obscurantistas, como a negação da ciência, você considera que o Brasil de hoje é melhor do que o de lá de trás?  Apesar de tudo, confesso que sou otimista. Nas eleições de 2018 o Brasil levou um nocaute inesperado. Descobrimos que na luva do vencedor estava escondido um soco inglês: as fake news (kit gay, mamadeira de piroca, liberação da droga, dissolução da família tradicional), a campanha antipetista da Lava Jato, e o fato de que Bolsonaro, amparado por um atestado médico, espertamente fugiu do debate na televisão, onde seria revelada sua indigência mental. Tenho amigos e parentes que votaram nele como mal menor, para não votar no PT. Como este é o governo mais trapalhão e incompetente de nossa história, acredito que as pessoas estão pouco a pouco voltando a si. Nestas últimas eleições, o peso do apoio de Bolsonaro foi um fator decisivo para a derrota de seus candidatos. Creio que dentro de algum tempo vamos poder escolher melhor.

 

A charge, o cartum, costumam ser efêmeros como o produto em que foram publicados. O público consegue ter acesso a um conjunto do trabalho do autor numa exposição (como Claudius: Quixote do Humor,  no Sesc Santo Amaro, em SP, em 2014), ou através de livros, caso de Claudius (Editora Sesi-SP, 2015), que inclusive ganhou o prestigioso prêmio Jabuti na categoria ilustração. Qual a sensação de saber que, uma vez catalogada, sua obra de tantos anos ficará acessível a pesquisadores e ao público em geral? Qual a importância disso para você?  Ao fazer uma primeira seleção dos trabalhos que agora fazem parte do acervo do IMS, me dei conta de que eles expressam uma parte da história deste país. Há charges que permanecem incrivelmente atuais. Algumas, infelizmente, atuais. O que fiz foi traduzir em imagens o tempo que estou vivendo. Saber que aquilo que sempre me moveu, no que agora pode ser considerado um projeto de vida, e que vai permanecer, graças ao IMS, me emociona muito.

 

(Claudius Ceccon/Acervo IMS)

 

A gente olha pro Brasil de 2020 e vê questões encaminhadas lá atrás entrando novamente em debate, com virulência, como se nada tivesse avançado. Como o fato de Paulo Freire, com quem você atuou em projetos de educação nos anos 1970 e com quem escreveu um livro, ser demonizado por um segmento da sociedade. Não aprendemos nada? Ou, sendo um pouco otimista, o fato de Paulo Freire entrar em pauta tem, por si, um lado bom, o de promover o debate sobre educação no país e lançar luz sobre o seu nome?  Em São Paulo, dirigido pelo professor Gadotti, há o Instituto Paulo Freire, que preserva documentos importantíssimos de sua trajetória. Ele é um dos intelectuais mais citados nas bibliografias das universidades americanas. Sua obra é referência em todo o mundo, mas aqui, o interesse por Paulo Freire  parecia diminuir. Mas eis que ele foi lembrado por essa turma que o considera cabeça de ponte do que eles chamam de marxismo cultural. Graças a isso, Paulo Freire voltou a ser discutido e muita gente descobriu que ele é atualíssimo, está mais vivo do que nunca. Sua “educação como prática da liberdade”, título de um dos seus livros mais famosos, mostra por que ele continua a ser indispensável. No próximo ano comemora-se, mundialmente, seu centenário. Ele continuará a influenciar o debate sobre nossa educação. É interessante que sua visão inspira tudo o que se discute a partir da revolução digital nas escolas. A Finlândia fez há mais de dez anos uma revolução educacional, num processo que a levou a ocupar os primeiros lugares no PISA. Substituiu o individualismo competitivo pelo trabalho em equipe, a aceitação de regras rígidas pela discussão crítica, a decoreba pela pesquisa e pela descoberta da beleza pela aquisição do conhecimento. Uma das pedagogas de nossa equipe foi convidada a falar do trabalho do Cecip e de Paulo Freire a colegas da Finlândia, numa série de seminários que levantaram aspectos interessantes. As ideias não têm fronteiras.

 

Você, em 1986, foi um dos criadores do Cecip – Centro de Criação de Imagem Popular, com Eduardo Coutinho, Ana Maria Machado e outros. Qual foi o papel do Cecip naquele momento de redemocratização? E qual a importância hoje? A ditadura havia sido recém dada por terminada. Vivíamos um clima que levou à eleição da Assembleia Constituinte e as novas regras do jogo democrático começavam a ser discutidas. Pensamos que nosso papel deveria ser a produção de informações que ajudassem a sociedade civil a conhecer seus direitos e colocar à sua disposição instrumentos para defendê-los e ampliá-los. Queríamos contribuir para enraizar definitivamente nas regras democráticas a nova constituição, a Constituição Cidadã, como disse Ulysses Guimarães. Além da experiência de Paulo Freire, um dos fundadores do Cecip, houve outras, de escuta e comunicação com o povo. O documentário Cabra marcado para morrer, do Eduardo Coutinho, foi uma delas, uma inspiração constante ao que o Cecip fez desde então. E sua pergunta é válida: qual é a importância de uma organização da sociedade civil no Brasil de hoje? O Centro de Criação de Imagem Popular continua realizando experiências inovadoras em educação e comunicação. Trabalhamos com pessoas qualificadas, do meio profissional e da academia e temos a liberdade de experimentar em projetos que dificilmente seriam empreendidos pelos dois ambientes. Ao mostrarem seu potencial em ganhar escala, podem transformar-se em políticas públicas para o benefício de muitos. O Cecip vem trabalhando com os novos meios digitais há algum tempo. Nesses tempos de pandemia, continuamos a realizar cursos de educação a distância dirigidos a gestores municipais. Usando nossa experiência, mostramos que eles podem ouvir as reivindicações e as sugestões de crianças a respeito dos espaços em que vivem. Elas têm um olhar despido de preconceitos. Considerar suas sugestões e procurar transformá-las em novas normas para o trânsito, para as áreas de lazer, para a mobilidade em calçadas e para a presença do verde, apontam para transformações urbanas que tornam as cidades melhores para todos os seus habitantes.

 

No acervo do IMS, sua obra vai se juntar à de dois outros grandes nomes das artes gráficas no Brasil: Millôr Fernandes e J. Carlos. Pode comentar essa companhia? Tive a oportunidade de visitar as exposições que o IMS organizou com os acervos desses dois gênios. Foram simplesmente deslumbrantes pelo cuidado e profissionalismo como foram organizadas. Estar na companhia de J.Carlos e do Millôr é uma honra, um privilégio, que eu vejo com muita humildade. Para ser franco, juntar-me a esses dois monstros talentosos também é um pouco assustador...

 

(Claudius Ceccon/Acervo IMS)

 

  • Nani Rubin, jornalista, e Daniel Pellizzari, editor, integram a coordenadoria de internet do IMS.

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