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Queixada made in Pernambuco

15 de fevereiro de 2019
Na busca por registros históricos do noticiário, as hemerotecas digitais são ferramentas de precisão. No caso das imagens prejudicadas pelos velhos sistemas de impressão dos periódicos, só a conservação de acervos fotográficos originais garante qualidade ao material pesquisado em jornais de época. Em nova imersão nos arquivos dos Diários Associados sob a guarda do IMS, Cássio Loredano revela um Ademir Queixada, craque do Vasco e da seleção brasileira de 1950, que nenhuma hemeroteca conserva com tamanha nitidez.

Duas frases:

Primeira, de Ivan Soter, rubro-negro, autor da monumental Enciclopédia da Seleção (edições Folha Seca, 2014): “Eu só tinha medo do Ademir.” Justificava-se: o ‘Queixada’, apelido óbvio do prognata pernambucano, era um inferno para as defesas, quando partia em ‘rush’ rumo ao gol, com a bola dominada e chutando repentinamente sem reduzir a velocidade e, surpresa, com qualquer dos pés.

Segunda, de Gentil Cardoso, o ‘moço preto’, treinador do Fluminense: “Dêem-me Ademir e lhes darei o campeonato.” Deu. Ademir saiu do Vasco, foi campeão pelo tricolor em 1946 e voltou a São Januário para compor com Barbosa, Augusto, Eli, Danilo, Jorge, Jair e Chico o lendário Expresso da vitória, base absoluta da Seleção para a copa de 1950. Torneio do qual, aliás, o artilheiro foi o ‘Queixada’, com 9 gols.

 

Seleção pernambucana de 1941 (Arquivo Diários Associados-RJ/Acervo IMS)

 

Seleção pernambucana de 1941 (Arquivo Diários Associados-RJ/Acervo IMS)

 

Ei-lo aqui aos 19 anos, ainda jogador do Sport Recife, em duas fotos com a seleção pernambucana de 1941. Na imagem ornamentada com flores, ele é o quinto de pé da esquerda para a direita. A do time formado, com Ademir na meia-direita, apareceu na edição de 28 de novembro daquele ano do O Jornal carioca. E então que sorte esta ampliação ter sobrevivido no arquivo dos Diários Associados agora incorporado ao acervo do IMS. Porque o grão grosseiro da retícula do clichê e a reprodução muito manchada na página do jornal impedem o reconhecimento de qualquer fisionomia. E nem a busca pelo nome  poderia localizar o jovem craque naquele time: por erro da redação ou da oficina, na escalação saiu ‘Adeuir’.

 

O Jornal, 28 de novembro de 1941 (Hemeroteca da Biblioteca Nacional)

 

Num amistoso Sport 5 x 4 Vasco, em que Ademir fez 4 gols, os cruz-maltinos sentiram como era melhor tê-lo do lado de cá e o trouxeram. Inaugura-se ali a série de transferências entre o grêmio da colônia portuguesa no Recife e o do Rio – Vavá, Almir e Juninho os que mais história fizeram.

Dez anos depois daquele torneio de seleções estaduais, aparece, numa página do Diário da Noite de 9 de outubro de 1951, de novo Ademir, agora já craque consagrado, dos maiores de todos os tempos e, assumo o risco de afirmar, o maior da história do Vasco. E aqui, de novo irreconhecível na reprodução empastada do jornal, somente identificável na ampliação guardada na pasta 'Clube dos Vassourinhas' do arquivo fotográfico dos Associados.

 

Diário da Noite, 9 de outubro de 1951 (Hemeroteca da Biblioteca Nacional)

 

A matéria inclusive nem é sobre ele, seu nome nem aparece. Só o do Vasco, de passagem. Era notícia anunciando o fim iminente que ameaçava a existência do lendário bloco de frevo do Recife. Para ilustrar a reportagem publicada em outubro, o arquivista foi buscar uma imagem do Carnaval daquele ano, registro até ali inédito da passagem do Vassourinhas pelo Rio oito meses antes, quando diz o texto que tinham mesmo se exibido para Getúlio no Maracanã – e no Vasco, informa a legenda da foto. Explica-se, assim, a presença do 'Queixada' entre os passistas, que tinham ido a São Januário levar um abraço ao ídolo, seu conterrâneo mais famoso.

A ameaça de extinção do bloco de frevo felizmente não se concretizou. E lá está ainda hoje, em proezas físicas inimagináveis, aquela gente elástica e flexível com suas sombrinhas descarnadas, outrora fatais, transformando em dança e graça o que antes foi aquecimento, ao som de bandas marciais, para embates campais entre os Aquiles e Heitores recifenses.

Arte, velocidade, negaça, repente que Ademir trouxe de lá para encher de medo o rapazola Ivan Soter lá em cima, nas maravilhosas curvas de cimento do finado Maracanã.

Cássio Loredano é caricaturista e consultor do IMS.

Com pesquisa de Andrea Wanderley

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