Sobre Hildegard Rosenthal

Em suas fotos da cidade que se desenvolve, aparecem o Mercado Central, o estádio do Pacaembu, a Biblioteca Municipal, o túnel sob o parque Trianon e o então novo viaduto do Chá. Também conseguiu fotos raras de artistas, como Lasar Segall trabalhando – ele não gostava de ser fotografado em seu estúdio –, o escritor Jorge Amado, o humorista Aparício Torelly (Barão de Itararé) e o desenhista Belmonte. Suas imagens procuravam capturar o artista no momento da criação, o que tem a ver com o espírito de reportagem que a fotógrafa sempre carregou.

Nascida por acaso em Zurique, na Suíça, onde seus pais se encontravam de passagem, mas registrada em Frankfurt, Hildegard Baum (seu nome de solteira) viveu na grande cidade alemã até o início da idade adulta. Formada em pedagogia, teve, porém, uma revelação precoce de seu talento como fotógrafa em 1929, ao vencer o concurso promovido pelo jornal Neue Freie (atual Die Press) com o retrato de um menino – prenúncio de sua eterna atração pelo tema da infância. Depois de uma temporada em Paris, voltou à Alemanha e estudou fotografia com Paul Wolff, especialista na câmera Leica, além de técnicas de laboratório no Instituto Gaedel. O curso marcou a carreira de Hildegard. “O cavalo de batalha dele era a luz”, disse ela. “Era um homem muito importante. Eu sempre me espantei com o fato de aqui ninguém o conhecer”.

Hildegard não era judia, mas seu namorado, Walter Rosenthal, sim. Isso os levou a, em 1937, trocar a Alemanha pelo Brasil, onde se casaram. Após poucos meses trabalhando numa empresa chamada Kosmos Foto, como orientadora de serviços laboratoriais, a fotógrafa foi contratada por uma pequena e recém-criada agência de notícias, a Press Information, passando a publicar suas imagens em órgãos da imprensa nacional e estrangeira.

Após encerrar sua carreira como fotojornalista, em 1948, Hildegard Rosenthal passou a fotografar apenas por prazer e elegeu as crianças como tema. Meninas japonesas fotografadas no bairro da Liberdade, engraxates e pequenos jornaleiros se destacam em suas fotos. Em 1959, depois da morte do marido, Hildegard assumiu a direção da empresa da família.

Sua obra permaneceu em relativa obscuridade até 1974, quando o historiador da arte Walter Zanini organizou sua primeira exposição individual no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. No ano seguinte, a exposição Memória paulista inaugurava o Museu da Imagem e do Som na cidade. Em 1977, Hildegard ganhou o prêmio de melhor fotógrafa na XIV Bienal Internacional de São Paulo. “É indiscutível que Hildegard Rosenthal inaugura um estilo de fotorreportagem no país”, escreveu o historiador da fotografia Boris Kossoy no catálogo da exposição Cenas urbanas, organizada pelo IMS.

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