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Sobre Chico Albuquerque

Pioneiro da publicidade brasileira na década de 1940, exímio retratista de personalidades, chefe de equipe que montou o departamento de fotografia da Editora Abril na virada dos anos 1960-1970, ensaísta apaixonado pelos temas típicos de sua terra natal, o Ceará. Todas essas vertentes do trabalho de Chico Albuquerque resultaram num acervo de cerca de 70 mil imagens que, desde julho de 2006, está preservado na Reserva Técnica Fotográfica do Instituto Moreira Salles por meio de convênio com o Museu da Imagem e do Som de São Paulo.

Nascido numa família de fotógrafos, o jovem Francisco começou sua carreira no cinema, aos 15 anos, como auxiliar do pai, Adhemar Albuquerque, também cinegrafista amador. Foi produzindo retratos no estúdio fundado por este em Fortaleza, o Aba Film, que se iniciou profissionalmente na fotografia.

 

Aos 25 anos, participou, como fotógrafo de cena, das lendárias filmagens em locações cearenses de It’s All True, o documentário inacabado de Orson Welles, que havia se instalado momentaneamente em Fortaleza.

Com Welles, Albuquerque afirmou ter compreendido a necessidade de desenvolver uma noção estética para se fotografar corretamente. O documentário foi rodado na praia do Mucuripe, na capital do Ceará, o mesmo cenário de seu primeiro grande ensaio do fotógrafo, realizado dez anos mais tarde.

A rigorosa composição dos quadros, que Albuquerque considerava uma lição do cineasta americano, o acompanharia por toda a carreira, traduzindo-se em sua busca de controle total da imagem, sobretudo em estúdio, mas também sob luz natural – característica que fazia dele, segundo o amigo e colega Thomas Farkas, um profissional “muito perfeccionista”. Para encontrar seu caminho, o jovem Albuquerque organizou o próprio portfólio e viajou para o Rio de Janeiro em duas ocasiões, entre 1934 e 1946. Queria aprofundar os conhecimentos e melhorar a técnica.

A próxima parada foi São Paulo, em 1947, onde rapidamente tornou-se conhecido nos meios artísticos graças à sua associação com o Foto Cine Clube Bandeirante. Boletim Foto Cine Clube Bandeirantepublicou a primeira capa assinada por Chico Albuquerque na edição n. 15, de julho de 1947. Era o retrato 'Marujo americano'. Na página 12 do Boletim havia um comentário sobre a mostra do fotógrafo que se realizava na Livraria Jaraguá, ponto de encontro de artistas e intelectuais da cidade.

Albuquerque abriu um estúdio próprio e o transformou num dos mais bem equipados da cidade. Em 1949, realizou, assinada pela agência J. W. Thompson, aquela que é considerada a primeira campanha publicitária brasileira ilustrada com fotografia, para a Johnson & Johnson. Entre as décadas de 1950 e 1970, trabalhou intensamente com propaganda e campanhas comissionadas, atendendo clientes de setores como indústria automobilística, moda, alimentos e arquitetura.

Paralelamente, construiu uma sólida reputação de retratista, fotografando em poses rigorosamente dirigidas – quase sempre em estúdio e sem nenhum adereço de cena – membros da alta sociedade paulistana, artistas e celebridades. Diante de sua lente, passaram personalidades tão díspares quanto Victor Brecheret, Ronald Golias, Jânio Quadros e Hilda Hilst. Paralelamente à atividade comercial, participou ativamente de debates teóricos do Fotoclubismo, que acontecia principalmente em torno do Foto Cine Clube Bandeirante.

Uma terceira vertente de seu trabalho, esta mais autoral, centrava-se em temas cearenses. Em 1952, Albuquerque voltou a Fortaleza para realizar um de seus ensaios mais célebres, Mucuripe, fotografando, num preto e branco de forte inclinação épica, a paisagem e a vida dos jangadeiros. Tema semelhante seria abordado por ele mais de 30 anos depois, agora em cores, no ensaio Jericoacoara. Também coloridas são as fotografias da série Frutas, de 1978, verdadeiras naturezas-mortas em sua ambição pictórica, que o artista plástico Aldemir Martins considerava “as melhores fotografias de frutas brasileiras que existem”. Albuquerque voltou a viver em Fortaleza em 1975. Em 1981, foi convidado a assumir, como consultor, a coordenação de um grupo de 12 repórteres fotográficos de O Povo. Ele começou reformulando o laboratório, espaço fundamental para o desenvolvimento profissional dos novos fotógrafos. O grupo se transformaria na primeira equipe de trabalho do jornal.

Albuquerque trabalhou até sua morte, em dezembro de 2000. Sobre ele, escreveu o fotógrafo Ed Viggiani, um dos repórteres fotográficos formados por ele em O Povo: “Para ele não havia luz ruim, apenas falta de inspiração”. Em 2003, na cidade de Fortaleza, foi fundado o Instituto Cultural Chico Albuquerque, uma justa homenagem ao grande mestre.

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