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Sobre Madalena Schwartz

Em todas essas vertentes, o apuro técnico obtido por Madalena, uma mestre do claro-escuro, é ainda mais impressionante quando se sabe que ela descobriu tardiamente sua vocação. Radicada com a família desde 1934 em Buenos Aires, fugindo da Alemanha nazista, só chegou ao Brasil em 1960 e apenas seis anos depois, já com a idade de 45 anos, começou a estudar fotografia no Foto Cine Clube Bandeirante, em São Paulo – cidade que adotou pelo resto da vida. Madalena ganhava a vida à frente da Lavanderia Irupê, na região central de São Paulo. Quando um de seus filhos adquire uma máquina fotográfica, acaba por despertar o interesse da mãe. O centro inicial de sua carreira é o retrato. “Minha mãe não resistia a um rosto interessante”, diz o filho Jorge Schwartz, organizador do livro Crisálidas e cuja iniciativa trouxe ao IMS o acervo da fotógrafa. “Quase toda sua paixão de fotógrafa voltou-se para o retrato, um gênero que dizia muito às suas inquietações e curiosidades mais pessoais”. O trabalho na lavanderia estabeleceu conexões com vizinhos célebres ou desconhecidos, gente que morava nas cercanias da praça Roosevelt, da avenida São Luís, da rua Martins Fontes – regiões que, entre os anos 1960 e 1970 eram ponto de encontro de artistas, intelectuais e boêmios. Madalena também atendia às necessidades dos grupos de teatro que atuavam por ali e precisavam registrar seus trabalhos.

No início da década de 1970, impulsionada por prêmios nacionais e uma medalha de ouro numa exposição em Cingapura, Madalena se profissionalizou como fotógrafa. Sem abrir mão da tinturaria de sua propriedade, cuja renda amenizava os altos e baixos da profissão, publicou nas revistas Iris, Planeta, Claudia e Status, entre outras. Em 1974, o Masp (Museu de Arte de São Paulo) abrigou a primeira das muitas exposições individuais que faria no Brasil e no exterior. Entre 1979 e 1991, trabalhou para a Rede Globo de Televisão e colaborou assiduamente com a Editora Abril. Em 1983, recebeu o prêmio de fotografia da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

Algumas de suas imagens mais conhecidas são retratos de artistas plásticos, músicos e intelectuais brasileiros, entre eles Sérgio Buarque de Holanda (com seu filho Chico), Darcy Ribeiro, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Clementina de Jesus, Hermeto Pascoal, Walmor Chagas, Paulo Autran, Wesley Duke Lee e Manabu Mabe. São fotografias marcantes. A artista plástica Maria Bonomi, que posou para Madalena, declarou: “Ela capta a partitura interior de cada um. Cada coisa é sugada e exposta em papel fotográfico”.

O conjunto de fotos de travestis e transformistas, com destaque para os atores do grupo Dzi Croquettes, ganha relevo na obra de Madalena Schwartz tanto pela ousadia temática quanto pela sensibilidade da execução. Tais retratos estão reunidos no livro Crisálidas, lançado em 2012. As imagens do livro, todas em preto e branco, foram feitas tanto nos teatros quanto no estúdio improvisado no edifício Copan, onde ficava o apartamento de Madalena, no 30.º andar. Ali, ela estendia uma lona e capturava as fortes expressões de seus modelos. Antes de Crisálidas, saiu a monografia Personae, publicada em 1997 pela Funarte e pela Companhia das Letras, com retratos de atores, artistas e escritores. A ensaísta e professora Gilda de Mello e Souza (1919-2005), uma das retratadas, definiu assim o estilo de Madalena Schwartz: “Ela se entrega emocionada à força persuasiva de uma expressão e, aproximando-se do modelo, deixa que o rosto invada sozinho o espaço”.

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