Sobre Otto Stupakoff

Na apresentação do livro Sequências, editado pelo IMS em 2009, a partir da exposição homônima, o fotógrafo Bob Wolfenson afirma que “Otto, como poucos, personificou a figura do fotógrafo charmoso, sedutor e aventureiro, prefigurado, mais de uma década antes, por Michelangelo Antonioni em seu seminal filme Blow-up”. De fato, Stupakoff foi personagem destacado de uma época de ouro da fotografia de moda e do retrato, nos anos 1960 e 1970, convivendo lado a lado com nomes estelares como Richard Avedon, Irving Penn – a quem, na juventude, pediu emprego de auxiliar e ouviu que isso seria impossível, porque “já era um fotógrafo” – e Diane Arbus. Nesse mundo glamuroso e competitivo, cultivou um estilo inconfundível, que ele chamava de “brasileiro” e que sempre deixava em primeiro plano a espontaneidade e a sensualidade das modelos, em vez da roupa em si. Stupakoff acreditava que “a fotografia de moda é a única que propicia ao fotógrafo a oportunidade de se expressar tanto quanto uma ilustração, um trabalho editorial, uma reportagem…”.

Começou a fotografar na infância, com uma câmera que ganhou de presente do pai em 1943. Interessado inicialmente em cinema, chegou a dirigir quando adolescente um curta-metragem em 8 mm. Contudo, desanimado com as escassas perspectivas de profissionalização da atividade no Brasil, já havia optado pela fotografia quando, aos 17 anos, ingressou na Art Center School, hoje Art Center College of Design, em Los Angeles, Califórnia, onde estudou de 1953 a 1955. Nesse período, graças a uma característica pessoal à qual ele próprio se referia com bom humor – a de ser um incorrigível “penetra”, abordando pessoas famosas sem cerimônia alguma –, ficou amigo de Carmen Miranda e visitou na pequena cidade californiana de Carmel o fotógrafo Edward Weston, nome lendário da fotografia americana, que naquele momento já sofria de mal de Parkinson.

Tal traço de sua personalidade foi o mesmo que o levou a – após retornar ao Brasil e projetar pessoalmente seu estúdio em Porto Alegre, onde vivia seu pai – procurar Oscar Niemeyer para lhe mostrar fotos da obra. Esse material foi publicado na prestigiosa revista Módulo, dirigida pelo arquiteto, sob o título “Fotógrafo profissional, arquiteto amador”. Do contato entre os dois surgiu ainda um convite de Niemeyer para que o jovem fotógrafo documentasse suas obras em Minas Gerais e, mais tarde, em Brasília. O primeiro estúdio de Stupakoff deixava claras suas intenções profissionais: era voltado para a fotografia em preto e branco de grande formato, estilo cultivado pelos grandes nomes da fotografia americana dos anos 1930 e 1940.

Radicado no Rio de Janeiro em 1956, Stupakoff fez seus primeiros trabalhos para agências de publicidade e para a gravadora Odeon, que, sob a direção de André Midani, encomendou-lhe capas de discos de músicos como Dorival Caymmi e Luiz Bonfá. De volta a São Paulo no ano seguinte, deu prosseguimento à sua carreira em publicidade, ensaiou os primeiros passos no mundo da fotografia de moda para a revista Claudia, da editora Abril, e manteve um relacionamento intenso com a cena artística local, principalmente com seu amigo Wesley Duke Lee. Seu estúdio-hangar na rua Frei Caneca transformou-se em ponto de encontro de artistas e intelectuais, o que combinava com sua crença de que é “de vital importância para um fotógrafo não pensar tanto em fotografia, mas buscar referências na literatura, na pintura, no desenho, na música”. Em 1965, com seu portfólio debaixo do braço, Stupakoff trocou São Paulo por Nova York e conseguiu imediatamente um contrato para trabalhar na Harper’s Bazaar ao lado de, entre outros, Richard Avedon.

Data desse período, segundo ele, o desenvolvimento de um estilo pessoal, para o qual dizia ter colaborado intensamente a designer carioca Bea Feitler, então diretora da revista, considerada por ele “a melhor diretora de arte que já existiu no mundo”. Montou seu estúdio no edifício do Carnegie Hall, no mesmo andar em que outros fotógrafos de renome, como Art Kane – de quem se tornaria grande amigo –, haviam se estabelecido. Em 1973, transferiu-se para Paris, onde fotografou para a Vogue francesa, Elle, Marie Claire e Stern, entre outras publicações. De volta ao Brasil, em 1977, decepcionou-se com a relutância de revistas e agências de publicidade em lhe encomendar trabalhos, o que o levou a radicar-se mais uma vez em Nova York a partir de 1981 e só retornar definitivamente a São Paulo em 2005, quando foi homenageado com a mostra Moda sem fronteiras, realizada durante o evento de moda São Paulo Fashion Week.

Os retratos deixados por Otto Stupakoff incluem os de personalidades internacionais como Richard Nixon, Yves Saint-Laurent, Coco Chanel, Grace Kelly e sua filha Stéphanie, Jack Nicholson, Robert Redford, Bette Davis, Sharon Tate, Sophia Loren, Truman Capote, Harold Pinter, Tom Stoppard e Michael Jordan. Entre as celebridades brasileiras, seus retratos mais famosos são os de Pelé, Jorge Amado, Pierre Verger, Tom Jobim, Heitor dos Prazeres, Dorival Caymmi e Xuxa – este, um típico exemplo do estilo Otto, mostrando a então modelo sentada num vaso sanitário do Copacabana Palace.

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