A música no IMS

Beatriz Paes Leme
Coordenadora de música

Acervos musicais podem ter diversas origens, sendo as mais comuns a prática musical propriamente dita, em uma ou mais das múltiplas funções que abrange (compositor, arranjador, instrumentista, cantor etc.), e o colecionismo, geralmente associado à pesquisa, formal ou informal, nas áreas de interesse do colecionador.
Inaugurada no início dos anos 2000, a Reserva Técnica Musical do IMS tem hoje sob sua guarda 20 acervos que contemplam essas duas vertentes: na primeira situam-se, por exemplo, os dos compositores Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Pixinguinha (também arranjador e instrumentista), Hekel Tavares, André Filho e Baden Powell, os dos instrumentistas (e também colecionadores) Aloysio de Alencar Pinto e Antonio D’Auria, o da cantora Elizeth Cardoso e o do radialista Walter Silva; e na segunda estão os dos pesquisadores José Ramos Tinhorão, Ermelinda A. Paz e Edinha Diniz, os dos colecionadores Humberto Franceschi e Miguel Ângelo Nirez, e os dos jornalistas Maria Luiza Kfouri e João Máximo.

Uma característica comum a esses conjuntos – e também o maior desafio em se lidar com eles – é a grande diversidade de suportes. Mas os materiais mais preciosos são indiscutivelmente aqueles que possibilitam o contato com o fato musical propriamente dito: as partituras e as gravações.

Os conjuntos mais relevantes de partituras, compostos majoritariamente por manuscritos autógrafos, encontram-se nos acervos Chiquinha Gonzaga e Pixinguinha. O primeiro é uma coleção que a própria maestrina teve o cuidado de reunir por toda a vida e que, com a ajuda de seu companheiro, João Batista Lage, manteve-se bem conservada e organizada; e o segundo traz cerca de 300 arranjos orquestrais escritos por Pixinguinha para o programa O Pessoal da Velha Guarda, comandado por Almirante entre 1947 e 1952 na Rádio Tupi, além de uma coleção de choros do séc. XIX, provavelmente herdada de seu pai, o flautista amador Alfredo Vianna.

Outros acervos também apresentam partituras: o de José Ramos Tinhorão chega à impressionante marca dos 29.567 títulos, um tesouro para pesquisadores do repertório brasileiro dos séculos XIX e XX, e o de Elizeth Cardoso reúne alguns arranjos escritos especialmente para a cantora por nomes como Léo Peracchi e Lindolfo Gaya.

Quanto à música gravada, nosso foco de interesse são os discos brasileiros em 78 rotações, gravados a partir de 1901 até meados dos anos 1950. As principais coleções são as de Humberto Franceschi, José Ramos Tinhorão, Miguel Ângelo Nirez e Aloysio de Alencar Pinto, e há também as pequenas doações que recebemos e que já somam mais de 7.000 discos.

Outros suportes, como as fitas magnéticas de rolo e cassete, contêm material não comercial – como gravações de ensaios, apresentações e programas de rádio – que representam um tesouro à parte. Elas estão presentes principalmente nos acervos Antonio D’Auria (rodas de choro que aconteciam na casa do violonista), Elizeth Cardoso (ensaios e shows da cantora), Walter Silva (programas de rádio comandados por ele, incluindo alguns ensaios que aconteciam antes dos programas entrarem no ar) e José Ramos Tinhorão (entrevistas do jornalista com grandes nomes da música brasileira, registros de eventos e variadas manifestações musicais).

Mas há farto material para além dos suportes puramente musicais – e torna-se impossível não citar mais uma vez o acervo Tinhorão. Nele, além de uma biblioteca com mais de 14.000 títulos, que incluem coleções completas de revistas e diversas obras raras, há cerca de 8.000 fotografias, uma hemeroteca que reúne 15.000 recortes de jornais e revistas além de centenas de documentos, tudo isso focado na grande paixão do pesquisador, a cultura popular urbana. Trata-se de um conjunto de valor inestimável para a pesquisa musical e musicológica, que pretendemos disponibilizar cada vez mais, valendo-nos dos novos recursos tecnológicos.

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