A literatura no IMS

Elvia Bezerra
Coordenadora de literatura

A chegada do arquivo do jornalista e escritor Otto Lara Resende, em 1994, representou o embrião do que é hoje o Departamento de Literatura do IMS. Ao arquivo inaugural somaram-se outros, que oferecem um retalho privilegiado das letras brasileiras, se considerarmos os conjuntos de uma escritora da estatura de Clarice Lispector e de um poeta como Carlos Drummond de Andrade.

Clarice, que tinha por hábito destruir versões de seus livros, mas preservou os originais manuscritos – os únicos de que se tem notícia – dos romances A hora da estrela e Um sopro de vida, contribui para a singularidade do acervo de Literatura. A seu lado, outra joia: a correspondência familiar de Drummond, reveladora de um mundo discreto e afetivo até há pouco desconhecido.

Desse modo não se diminui a importância de originais de romances de Erico Verissimo, ilustrados com desenhos das personagens feitos por ele mesmo, o que torna esse arquivo especialmente curioso. Tampouco se restringe o valor dos muitos cadernos de Paulo Mendes Campos, em que o poeta e escritor anotou resumos de leituras, rascunhou composições e registrou ideias. O conjunto documental de Mendes Campos recompõe, com o de Otto Lara Resende, muito do pensamento intelectual e político das décadas de 1950 a 1980.

As dedicatórias nos livros de Carlos Drummond de Andrade jogam luzes sobre as relações modernistas. Além de obras dos principais representantes do ideário deflagrado na semana de arte moderna, em 1922, sua biblioteca vale como testemunho das ligações de toda uma geração revolucionária. De outra natureza, mas não menos importantes, são as bibliotecas dos poetas Ana Cristina Cesar e Roberto Piva, fartas em periódicos de uma imprensa alternativa que atuou fortemente na década de 1970.

A par do tratamento técnico arquivístico, o trabalho em acervo composto de biblioteca de cerca de 30 mil itens e arquivo de aproximadamente 130 mil pode ser palpitante, sobretudo quando se leva em conta a trajetória dos documentos: nem sempre o zelo familiar é o responsável único pela preservação de papéis. A devoção de um amigo, de um leitor, ou mesmo o simples acaso podem salvar boa parte da memória literária de um país, hoje sob a guarda do IMS.

Por tudo isso, mas, sobretudo, pelo compromisso de tratar do acervo e divulgá-lo, além de favorecer a pesquisa, o Departamento de Literatura promove exposições, edita livros com material do acervo, inédito ou não, contribui com estudos para edições mais bem cuidadas de seus autores, além de editar sites como os de Clarice Lispector e o Correio IMS, que reúne cartas notáveis de representantes de diversos segmentos da cultura brasileira.

Entre as iniciativas do Departamento, podem-se mencionar cursos e palestras, um Clube de Leitura em que sócios se reúnem regularmente, além da criação de duas datas fixas, incluídas no calendário cultural do país, para homenagear dois autores nos dias de seus aniversários: Carlos Drummond de Andrade, no Dia D, em 31 de outubro, e Clarice Lispector no Hora de Clarice, em 10 de dezembro.

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