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Mànya Millen

Um lugar que não existe no agora, mas que pode se tornar uma realidade no futuro. Esta é uma das interpretações de utopia, palavra que anda desgastada no vocabulário dos cariocas desencantados com a quantidade de vezes em que viram projetos para a cidade sumirem pelo caminho. Outra visão da mesma palavra no momento, porém, mostra que a utopia já é uma realidade no meio do caminho, embora não sejam caminhos tão conhecidos de todos os moradores da metrópole. Esta é a visão da artista plástica Rosângela Rennó, que ocupa a Galeria Marc Ferrez do IMS Rio, a partir do dia 16 de dezembro, com a exposição #RioUtópico: um projeto em construção. Num imenso projeto colaborativo que se estenderá durante a mostra, ela constrói um retrato urbano e humano do Rio de Janeiro a partir do mapeamento fotográfico espontâneo de localidades de nomes evocativos como Pedacinho do Céu (Cordovil), Vila Esperança (Acari), Morro dos Prazeres (Santa Teresa), Final Feliz (Anchieta), Jardim Paraíso (Taquara), Parque Alegria (Caju), Morro do Amor (Lins de Vasconcelos) ou Cidade de Deus, expandindo os limites de compreensão da cidade para além dos cartões-postais mais óbvios do Centro e da Zona Sul.

A exposição, que tem curadoria de Thyago Nogueira, editor da revista ZUM e coordenador de fotografia contemporânea do Instituto Moreira Salles, e de Valentina Tong (assistente), abre com aproximadamente 250 imagens atuais e antigas, desde a década de 1960 até hoje, enviadas por colaboradores e por jovens moradores das regiões retratadas. Elas vêm sendo selecionadas há meses, desde o momento em que Rosângela foi convidada para apresentar um projeto, observou o grande mapa do Rio, e escolheu ali aproximadamente 50 lugares como ponto de partida. “O nome Rio Utópico é para provocar. Onde está a utopia? Ela pode ser simplesmente uma ficção inatingível”, conta a artista, que conversa com o público no dia da abertura, às 17h.“Esse é, claro, um dos Rios utópicos possíveis, o meu Rio utópico, construído a partir dessas localidades. Outras pessoas podem ter visões distintas, e espero que saia daí algum debate”.

Bueiro em Parque União, na Maré, uma das fotografias do coletivo Amarévê na mostra #RioUtópico

A ideia começou a nascer em 2016, numa oficina realizada por Rosângela e pelo IMS com a Agência Redes para a Juventude, de Marcus Faustini. Inicialmente estes jovens saíram a campo para fotografar as localidades selecionadas pela artista, e pesquisar a história desses lugares. Porém, diante dos entraves de circulação enfrentados em algumas áreas, inverteu-se o processo. “Se era tão difícil para eles trazerem essas fotos, porque não pedir aos moradores desses lugares para enviarem as próprias fotos? Então fizemos essa grande convocatória”, lembra Rosângela, que admite nunca ter trabalhado num projeto colaborativo tão amplo. “A fotografia digital abre essa possibilidade, amplia o nível de comunicação. Hoje você não manda só texto, manda voz, texto, imagem, tudo junto. Prescindir dessa potência de comunicação das redes para a construção da mostra seria lamentável. Era um convite óbvio para usar. E o Rio utópico acabou sendo mesmo uma grande construção. É interessante porque a utopia será sempre uma construção, em qualquer cidade”.

Para que o visitante mergulhe na experiência, um imenso mapa do Rio foi decalcado no chão da galeria, destacando as localidades selecionadas. Nas paredes, os conjuntos de fotos guiarão os olhares sobre cada uma delas. E o que aparece nas imagens? Muitas delas revelam, mais que o simples registro de Becos do Amor ou Travessas da Alegria, por exemplo, um entendimento da utopia como conceito, ou seja, uma visão de lugar idílico, nem sempre retrato fiel da realidade.“Percebemos que algumas pessoas querem mostrar um lado legal, bonito e bom de se ver do lugar onde moram, que pode não ser necessariamente assim”, conta a artista. “E muitas outras mandaram fotos bucólicas de suas ruas, que nem tinham tinham nomes utópicos, então não entraram porque fugia da proposta. Mas incentivamos cada um deles a participar procurando por perto algum cantinho que tivesse um nome especial”.

As convocatórias para que os moradores enviem suas fotos continuam durante a exposição, que termina dia 8 de abril. Elas podem ser enviadas para o e-mail [email protected], para o WhatsApp (21) 98659-0502 e usando a hashtag #rioutopico no Instagram. As imagens serão expostas na galeria até o final da mostra, que já recebeu registros de singelas placas de rua, de estabelecimentos comerciais, parques e recantos de lazer, nas quais as pessoas vão revelando seu pedaço utópico da cidade. Há também imagens de reuniões familiares e flagrantes de sorrisos de moradores.“Estas vistas, personagens e fotos de família oferecem um mapa sentimental da cidade, que valoriza a perspectiva do indivíduo e mostra como a representação da convivência urbana também é uma forma de se aproximar da utopia”, descreve Thyago Nogueira no texto de apresentação da mostra.

A artista Rosângela Rennó durante a montagem de #RioUtópico, em cartaz na galeria Marc Ferrez no IMS Rio

Formada em Arquitetura e Artes Plásticas em Minas, e Doutora em Artes pela USP, Rosângela tem marcado sua sólida trajetória com questões pertinentes ao uso da imagem, em séries nas quais trabalha diversos tipos de interferência sobre fotografias.“Para mim, menos importante que fotografar, e por isso mesmo não fotografo, é entender o ciclo e os circuitos das imagens. Qual é o ciclo de vida de uma fotografia? Ela nasce, cumpre uma certa missão social ou simbólica, e morre. Todas essas imagens que se faz com o celular hoje são destinadas a uma morte súbita, quase”, pondera ela. “O que eu quero pensar é: se o ciclo da imagem é tão curto, quem sabe consigo prolongar um pouquinho, dar uma outra função simbólica para essa foto, no momento em que ela está num novo contexto, como nesse grande mapa aqui? No fundo esse trabalho é uma ampliação do que sempre fiz”.

Rosângela frisa que não espera qualidade profissional nas fotografias enviadas, esse não é o objetivo. Para ela, inclusive, todos são fotógrafos, estejam atrás da lente de um celular ou de uma câmera.“Sempre gostei de trabalhar com fotografia que não nasceu para ser arte, prefiro as que nascem com outras funções, que são contaminadas por alguma outra coisa”, aponta a artista, que se apropria de imagens de arquivos particulares ou privados, de fotografias 3x4 às feitas para jornais, e principalmente a fotografia vernacular, amadora, para criar séries como Nuptias, em cartaz atualmente na Galeria Vermelho, em São Paulo, baseada em fotos de casamento de várias épocas, e que também celebra e incorpora trabalhos anteriores de Rosângela.

Para a artista, o conjunto apresentado em #Rioutópico, ao mesmo tempo em que conversa com o acervo do Instituto Moreira Salles, pródigo em imagens fotográficas e iconográficas sobre a cidade, também provocará o estranhamento de um Rio “não visto”. “O mais interessante desse projeto é pensar na construção de uma cidade e oferecer o máximo de dicas, ferramentas, o máximo possível de entradas para que a pessoa possa interagir, questionar, se interessar. Espero que isso aconteça”.


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