"A dor que senti não sei descrever"

Mànya Millen
 
 
A voz firme e clara ecoa na sala, ampliando a força das palavras que descrevem, em detalhes, os flagelos sofridos naquele 2 de abril de 1964, pouco tempo depois de iniciado o golpe militar no país. As palavras pertencem ao pernambucano Gregório Bezerra (1900-1983), líder político preso, torturado e arrastado pelas ruas de Recife pelos militares, e podem ser ouvidas na exposição Conflitos: fotografia e violência política no Brasil 1889-1964, em cartaz até dia 25 de fevereiro no IMS Rio. O depoimento de Bezerra, que devotou toda sua vida à luta política, tornando-se uma das principais figuras do Partido Comunista Brasileiro e símbolo de resistência à ditadura, é um resumo poderoso do que a mostra, sob a curadoria de Heloisa Espada, apresenta ao público já em seu título.

A longa trajetória de confrontos, muitos deles sangrentos, envolvendo a população e o Estado no Brasil, é contada a partir da fotografia de um prisioneiro prestes a ser degolado durante a Revolta Federalista, em 1893, poucos anos depois da Proclamação da República – ela mesmo nascida de um golpe. E termina com as imagens dos acontecimentos que culminaram na tomada do poder pelos militares em 1964, na sala onde se ouve o breve, mas impressionante áudio, extraído do documentário histórico 76 anos, Gregório Bezerra, comunista, do sueco Lars Säfström e do brasileiro Luiz Alberto Sanz.

Difícil não se perturbar com a narração das torturas. Da “coiçada de fuzil no estômago” aos golpes do cano de ferro na cabeça, dos pés mergulhados em ácido de bateria de carro (“A dor que senti não sei descrever”, conta ele) ao quase degolamento provocado pelas três cordas amarradas em seu pescoço, pelas quais era arrastado, “num desfile macabro”, pelo bairro de Casa Forte, na capital pernambucana. A entrevista foi feita em 1977 em Estocolmo, na Suécia, onde vivia um grupo de exilados brasileiros, entre eles Sanz, jornalista, cineasta, roteirista, educador e um ativo militante político durante décadasdirigente do PCB – ao qual filiou-se em 1930, e desligou-se em 1980 –, estava refugiado na então União Soviética, e foi a Estocolmo para uma celebração de aniversário do Partido Comunista. “Ele tinha uma capacidade incrível de contar a história sempre da mesma maneira, lembrando de tudo”, conta Sanz, que conhecera o líder comunista em 1962, durante a campanha de Miguel Arraes ao governo do estado. “Um dos responsáveis pela campanha de rua era o Gregório. Ele entrava no jipe, recolhia e devolvia a gente em casa todos os dias. Era o primeiro a acordar, o último a dormir, criei um grande respeito por ele. Gregório era uma rocha, psicológica e fisicamente falando”.


Clique abaixo para ouvir o depoimento de Gregório Bezerra:


Nascido no agreste pernambucano, filho de lavradores pobres, e analfabeto até os 25 anos, Bezerra começou sua militância política muito jovem. Sua primeira prisão aconteceu em 1917, ano da Revolução Russa, quando ele, então operário da construção civil, foi às ruas de Recife participar de passeatas em apoio às greves que pipocavam pelo país. Sua longa trajetória é pontuada por lutas importantes, entre elas a da organização dos sindicatos rurais e pela reforma agrária. Em 1946, pelo PCB, tornou-se o deputado federal mais votado daquele ano no país. A última prisão de Bezerra seria justamente a de 1964, e no total ele passou 23 de seus 83 anos no cárcere.

Ele também chegou a ser preso por participar de rebeliões dentro do próprio Exército, onde se alistou em julho de 1922, e chegou ao posto de sargento, antes de virar um opositor aguerrido do regime militar. No trecho do depoimento que o público ouve na exposição, Bezerra lembra que, diante da convocação de linchamento público feita pelo coronel Darci Villocq nas ruas de Recife, foi encorajado pela atitude dos civis e dos oficiais do Centro de Preparação dos Oficiais da Reserva (CPOR) da capital pernambucana, no qual chegou a ser instrutor em meados da década de 30. “Não só (eles) não aderiram como senti, pela fisionomia de alguns deles, a revolta contra aquela atitude que manchava as tradições do Exército nacional”.

Condenado a 19 anos de prisão e com os direitos políticos cassados por uma década, Bezerra acabou libertado em 6 de setembro de 1969, junto com outros 14 presos políticos, usados como moeda de troca para a devolução do embaixador americano no Brasil, Charles Elbrick, sequestrado dois dias antes por jovens militantes de esquerda. Bezerra seguiu para o exílio no México, depois para Cuba, e a seguir para a União Soviética. Só voltaria a pisar em terras brasileiras em 1979, com a anistia.

Do dia da gravação do depoimento, Sanz se lembra principalmente da clareza e da serenidade com a qual Bezerra recordou sua militância. “Me veio uma grande emoção ao reencontrá-lo”. O documentário foi lançado no ano seguinte, em 1978, numa universidade em Estocolmo, com a presença do pernambucano. “Perguntamos a ele, no final da entrevista, como via o futuro. Ele encerra o filme falando sobre isso. Para Gregório, a reconstrução da democracia não seria obra apenas dos comunistas, mas de todos os democratas, que precisariam se unir para fazer isso”.

Gregório Bezerra preso no Quartel de Casa Forte, Recife, março de 1964 (Acervo Iconographia)