Novas histórias da Rocinha

Mànya Millen

Gigante, superpopulosa, diversa, e com uma história ainda repleta de muitas histórias para contar. É assim que a maior favela do Rio se mostra no site Memória Rocinha, projeto do Instituto Moreira Salles com o Museu Sankofa Memória e História da Rocinha. Desde março de 2017, na sua nova fase, vem reunindo narrativas produzidas a partir de oficinas de vídeo por celular, desenvolvidas pela coordenadoria de Educação do IMS, em parceria com o Centro Médico Albert Sabin da Rocinha.

Os primeiros depoimentos em vídeo foram orientados por fotografias pesquisadas no acervo do IMS. Ao lado das imagens da Rocinha e de seu entorno feitas em outros tempos por nomes como José Medeiros, Marc Ferrez e Augusto Malta, flagrantes atuais da região clicados pelos moradores e pela equipe do IMS uniram passado e presente e serviram como fio condutor das histórias. “Naquele momento a fotografia foi o dispositivo que disparou a memória, as histórias orais. A mediação foi feita pela imagem”, conta Ana Luiza Abreu, supervisora da área de Ação Social.

Agora, num desdobramento natural da primeira etapa, o Memória Rocinha recebe mais quatro histórias, que trazem recortes sugeridos diretamente pelos moradores. Os temas surgiram da troca de ideias entre os 25 participantes da oficina de vídeos em celular promovida pelo IMS, que convidou Luisa Godoy Pitanga, especialista em educação audiovisual popular e antropologia, para ministrar o curso. Participaram da oficina agentes de saúde comunitária, profissionais de outros segmentos e estudantes, em sua maioria moradores da Rocinha, mas alguns vindos também do Cantagalo, Santa Marta e Vila Parque da Cidade. 

“A ideia de convidar os agentes de saúde surgiu de uma antiga parceria com a diretora do Centro Médico Albert Sabin da Rocinha, Maria Helena Carvalho, também uma das diretoras do Museu Sankofa, que defende que uma boa saúde transita no tripé saúde, educação e cultura e, por isso, incentivou que seus funcionários participassem das oficinas de vídeo. Além disso, os agentes são possivelmente os melhores conhecedores da população local e sabem entrar em qualquer beco a qualquer hora”, observa Denise Grinspum, coordenadora de Educação do IMS.

Protagonistas de todo o processo, os participantes da oficina escolheram os temas, gravaram e discutiram a edição dos vídeos. “A demanda pelos vídeos e pela apresentação de novos personagens partiu deles. Foi um período longo de discussão, porque ninguém ali era da área de vídeo, poucos tinham familiaridade com uma câmera. Tinha gente dos 20 aos 60 anos. No início as pessoas mais velhas falavam ‘nunca mexi nisso, não sei fotografar, meu filho que mexe no celular para mim’. Observei que, em vários momentos, os mais jovens auxiliaram os mais velhos na relação com a tecnologia dos celulares”, conta Ana Luiza. “Foram três meses contínuos de trabalho. Isso garantiu que eles ficassem afinados”.

A última fase de gravação encerrou-se no início de setembro de 2017, pouco antes da guerra entre facções rivais de traficantes explodir na Rocinha, aterrorizando os moradores. Entretanto, a violência que infelizmente sobressai no cotidiano da comunidade permaneceu bem distante das narrativas, lembrando ao público que pelas ruas e ruelas circulam cidadãos que buscam e sonham o que qualquer cidadão quer e sonha. “Os moradores querem mostrar o que a favela tem de bom. É a favela que gera trabalho, trabalhadores, cultura, atrai turismo estrangeiro”, observa Ana.

Seu Antônio, personagem do curta "Uma roça na Rocinha", realizado durante as oficinas de vídeo pelo celular do projeto Memória Rocinha

Expandindo o conceito de memória, os curta-metragens levam ao público quatro assuntos distintos, considerados importantes pelos moradores. Em “A céu aberto: memória e história de favelas”, o que está em questão é a própria noção de museologia social, destacando não apenas o papel do Museu Sankofa na comunidade, como também o do Museu de Favela (MUF), fundado pelos moradores dos morros Pavão, Pavãozinho e Cantagalo, localizados entre os bairros de Ipanema, Copacabana e Lagoa.

“Uma roça na Rocinha” lembra, através da trajetória de dois imigrantes, Seu Antônio e Dona Maria, que a vocação rural que ajudou a batizar a região nas primeiras décadas do século passado ainda é cultivada em algumas áreas. Já “Carregadores” expõe o vai e vem intenso de uma mão de obra essencial na topografia da Rocinha. São os trabalhadores que levam as compras dos moradores pelas ruelas e becos inacessíveis a carros, caminhões e motocicletas. De tijolo e areia a sacolas de supermercado, incluindo eletrodomésticos pesados, tudo chega a seu lugar num carrinho de mão ou, na maior parte dos casos, nas próprias costas dos carregadores.

Gravação do curta "Turismo na Rocinha" durante as oficinas de vídeo pelo celular

Por fim, “Turismo na Rocinha” traz os depoimentos de quem vive dessa atividade, como o guia Erik Sousa, que procura apresentar aos visitantes diversas facetas da comunidade, misturando história e lazer, focando na cultura, nos contrastes e no desenvolvimento socioeconômico da região. “A gente tenta pegar o lado da diversão, mas ao mesmo tempo tenta fazer com que as pessoas tenham um pouco de consciência do que seja uma favela e de como funciona uma comunidade”, explica ele no vídeo.

Embora as gravações dos vídeos tenham sido distribuídas por equipes específicas, todos os integrantes das oficinas acabaram colaborando de alguma forma nas quatro produções, seja na captação de áudio, na direção ou na pesquisa. “A equipe era muito engajada”, afirma Ana Luiza.

Na hora da edição, o grupo contou com a colaboração de Laura Liuzzi, do núcleo de vídeo do IMS, que diz ter encontrado imagens surpreendentes, algumas pela qualidade, outras pelos enquadramentos originais. “O material era muito diverso. Para quem nunca tinha trabalhado com vídeo antes, foi uma ótima surpresa”, diz Laura, que trabalhou ao lado dos realizadores durante todo o processo de edição.

Nas conversas travadas ao longo do processo, ela foi sabendo pelas equipes o que deu certo, o que não deu, e os erros que acabaram virando acertos. Para Laura, o imprevisto, ou o que tomou outro caminho acabou gerando um material mais interessante. “Acho que os realizadores concordariam comigo nesse ponto. Um exemplo é o Boca, personagem do filme ‘Carregadores’. Ninguém o conhecia. Ele foi convidado a participar porque outro carregador furou e, para mim, ele é um dos melhores entrevistados dos vídeos”.

Denise Grinspum lembra que sete aulas ocorreram no IMS e que a grande maioria dos participantes da oficina nunca havia pisado na casa da Gávea. Como Xaolim, um líder comunitário da Rocinha. “Ele comentou comigo que o instituto está na sua rota diária para voltar para casa, e há décadas passava na porta achando que aquele lugar ‘não era para ele’. Não podia imaginar que era um lugar tão acessível”, conta a coordenadora. “Foi uma alegria vê-lo outro dia na aula de passinho que fizemos em torno da exposição Corpo a corpo. Ele está se tornando um visitante habitual. E quem sabe a cara dos visitantes mude com as nossas ações educativas continuadas”.

Um dos personagens do curta "Carregadores", realizado pelo projeto Memória Rocinha
  • Mànya Millen é jornalista e integra a coordenadoria de internet do IMS.