Olhares sobre a Gávea

Mànya Millen

De área de lavouras de cana a reunião de palacetes e chácaras da nobreza, de cenário de grandes indústrias e vilas operárias a endereço residencial cada vez mais valorizado. Entre os dias 25 de julho e 26 de outubro de 2018, a exposição Gávea: território de diversidades, morada de contradições, contará ao público um pouco da rica história do bairro, apresentado como uma espécie de microcosmo do Rio de Janeiro, cidade espremida entre a exuberância da natureza e a tensão perene gerada pelo adensamento populacional e necessidade de expansão. A mostra é um trabalho realizado pelo Solar Grandjean de Montigny PUC-Rio, que abriga o evento, e pelo Instituto Moreira Salles, centros culturais com sedes vizinhas na Rua Marquês de São Vicente, na Gávea.

Sob a curadoria de Sergio Burgi, coordenador de Fotografia do IMS; de Ileana Pradilla, do núcleo de pesquisa em fotografia do IMS; e da professora Margarida de Souza Neves, diretora do Solar, a exposição reúne 60 fotografias dos acervos do IMS e do Núcleo de Memória da PUC-Rio, que vão compondo um retrato do bairro desde o século XIX até os dias atuais. Complementam a mostra fotografias do canadense Robert Polidori e vídeos do Projeto Memória Rocinha, desenvolvido pelo IMS em parceria com o Museu Sankofa Memória e História da Rocinha, a comunidade mais populosa do país, colada à Gávea.

Pedra da Gávea, vista da Pedra Bonita, c. 1890. Rio de Janeiro, RJ - Brasil. Foto de Marc Ferrez / Acervo IMS

 

“O adensamento da Zona Sul começa pela Gávea, não por Copacabana”, lembra Ileana. “O bonde chega primeiro aqui, no final do século XIX. Com ele vêm as fábricas, e com elas o incentivo de construir vilas operárias”. O recente passado industrial da região, que a partir dos anos 20 e 30 começou a receber empresas como o Cotonifício Gávea, que ocupava um quarteirão inteiro e tinha sua própria vila de trabalhadores, levou o bairro a ser conhecido como “Gávea Vermelha”, cenário de lutas proletárias.

Com esse perfil a Gávea recebeu, em 1942, o primeiro conjunto habitacional do programa Parques Proletários, lançado por Getúlio Vargas no ano anterior. O parque foi concebido como uma moradia provisória para abrigar, em grande parte, as famílias retiradas do Largo da Memória, favela situada entre a Lagoa e o Leblon. “O projeto tinha toda uma ideia de moralizar os costumes e ‘higienizar’ a forma de viver. No Parque Proletário era proibido entrar com bebidas, cuspir no chão, coisas assim”, conta Ileana. “Rapidamente ele também se favelizou, com a chegada de muitas famílias, porque o grande problema habitacional no Rio já existia. Várias pessoas da Rocinha também foram removidas para lá, e uma das condições para se morar no Parque era trabalhar na Zona Sul.”

Circuito da Gávea, c. 1950. Rio de Janeiro, RJ - Brasil. Foto de Carlos Moskovics / Acervo IMS

 

Embora a Gávea fosse um bairro proletário no início dos anos 40, ao final daquela década, impulsionado em parte pela fama crescente das corridas de “baratinhas” – como eram chamados os carros que participavam do charmoso Circuito da Gávea, visto na mostra em fotos de Carlos Moskovics, do acervo do IMS –, o endereço começou a ser cobiçado. E veio o movimento de expulsão das fábricas, que durou até os anos 70, quando o Parque Proletário foi totalmente removido do bairro. Outra foto da exposição, do acervo dos Diários Associados, também do IMS, registra um protesto, em 1962, de famílias contra o despejo. Nos cartazes, os “favelados da Marquês de São Vicente” pedem o apoio do governo para que não sejam jogados nas ruas.

“Naquela época as pessoas foram parar em lugares muito distantes. Famílias removidas da Rocinha para o Parque foram removidas novamente. Tem muita contradição”, observa Ileana. “A remoção das indústrias veio num processo de gentrificação do bairro. As fotos da remoção das vilas operárias são muito contundentes, e mostram como a sociedade ainda não resolveu esse problema da moradia, como vimos acontecer de novo durante as obras para as Olimpíadas no Rio. Há uma contínua tensão entre a necessidade do crescimento e, ao mesmo tempo, a de abrigar as pessoas que trabalham.”

Protesto dos moradores da Gávea contra as remoções, 1962. Rio de Janeiro, RJ - Brasil. Foto de autor desconhecido / Acervo IMS

 

Parte dos moradores do Parque Proletário voltou para a Rocinha, e muitos foram também para o Parque da Cidade e para o Minhocão, nome pelo qual ficou conhecido o Conjunto Residencial Marquês de São Vicente, projetado por outro expoente do modernismo, o arquiteto Afonso Eduardo Reidy. A história da Rocinha, aliás, ocupa uma das salas do Solar. Ali estão os vídeos produzidos pelo projeto Memória Rocinha, nos quais moradores da comunidade entrelaçam suas histórias à trajetória da comunidade, destacando as origens, os personagens do cotidiano, a vocação do imenso bairro, cujos problemas contrastam com a próspera vizinha Gávea.

Panorama da Rocinha, 2014. Rio de Janeiro, RJ - Brasil. Foto de Robert Polidori / Acervo IMS

 

Outra das salas é dedicada às casas que abrigam o Instituto Moreira Salles e o Solar Grandjean de Montigny, cujos pontos em comum começam justamente pela arquitetura privilegiada: enquanto o IMS é um ícone da modernidade, projetado no final dos anos 40 pelo arquiteto Olavo Redig de Campos para abrigar a residência da família de Walther Moreira Salles, o Solar, encravado no verde campus da PUC-Rio, é uma das joias do estilo neoclássico no Brasil, e leva o nome do arquiteto integrante da Missão Artística Francesa no país, que a construiu na década de 1820. Além disso, as duas instituições são guardiãs e difusoras de memória e cultura, refletidas em seus acervos e objetivos. Transformadas em centros culturais, ambas mantêm suas portas abertas à visitação pública e gratuita.

À esquerda, detalhe da residência de Walther Moreira Salles, atual IMS, c. 1954 (Marcel Gautherot / Acervo IMS). À direita, vista aérea do Solar Grandjean de Montigny, 2010 (Nilo Lima / Acervo Núcleo de Memória da PUC-Rio)

 

A exposição no Solar coincide com a abertura do XIV Congresso Internacional da Associação de Estudos Brasileiros (BRASA), que acontece a cada dois anos e em 2018 tem como sede a PUC-Rio. Aproximadamente mil brasilianistas de grandes universidades americanas, europeias e brasileiras participam desta edição do congresso. A mostra tem o apoio do BRASA e do CASA (Consortioum for Advanced Studies Abroad).

Gávea: território de diversidades, morada de contradições

Local: Solar Grandjean de Montigny/ PUC-Rio
Rua Marquês de São Vicente, 225
Período: de 25 de julho a 26 de outubro de 2018
Horário de visitação: de segunda a sábado, das 10h às 17h
Entrada gratuita