Fotografia e literatura

Nos livros de Maureen Bisilliat

Apresentação de Miguel del Castillo

Curador da Biblioteca de Fotografia

Aprecio imagens aliadas à escrita, frases escolhidas definindo melodicamente a linha da orquestração. Em livros como os de Diane Arbus, de Nan Goldin, há essa orquestração: ritmos, silêncios, acordes, vazios. A palavra, escolhida da produção literária ou pinçada do testemunho biográfico, vem da fala íntima da pessoa, destilada. Seria quase como escrever com a imagem e ver com a palavra.
Maureen Bisilliat

A obra de Maureen Bisilliat, fotógrafa nascida na Inglaterra em 1931, mas naturalizada brasileira, abarca um amplo espectro de temas do Brasil. Com um olhar estrangeiro no melhor dos sentidos – isto é, aquele que, por não ser natural do lugar, procura entendê-lo e respeitá-lo ao máximo –, ela fotografou o dia a dia dos índios do Xingu, os personagens e as paisagens dos sertões de Minas e do Nordeste, as festas e os rituais religiosos e folclóricos do país. Imbuída de uma curiosidade que conserva intacta ainda hoje, aos 87 anos, chegou a ter uma galeria de arte popular, chamada O Bode, e foi convidada por Darcy Ribeiro a montar o acervo do Pavilhão da Criatividade no Memorial da América Latina, instituição na qual continuaria atuando como curadora. E é uma leitora extremamente perspicaz. Em 2003, sua obra fotográfica foi incorporada ao acervo do Instituto Moreira Salles.

Sua devoção à materialidade do mundo se revela também nos muitos livros que publicou, bem como na importância que dá ao processo de editá-los, escrevê-los, desenhá-los e imprimi-los, sempre valorizando os profissionais envolvidos em cada etapa. Esta exposição destaca as publicações em que Bisilliat busca um diálogo com grandes escritores da literatura brasileira. Tal projeto, que na verdade nunca foi planejado, mas surgiu espontaneamente de seus anseios e leituras, começou quando recebeu de presente um exemplar de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. A fotógrafa encarou a leitura do livro como um desafio a ser vencido, pois, na época, embora falasse espanhol (seu pai era um diplomata argentino), morava há apenas seis anos no Brasil. Encantada com o romance, quis conhecer e fotografar esse sertão que tanto fascínio exercera no escritor.

A partir daí, seguiu um caminho que a levaria a produzir diversos livros fotográficos, ou, mais especificamente, livros de fototexto, nos quais seleciona trechos da obra de um escritor e os combina a um ensaio visual já existente ou produzido especialmente para a publicação. Assim, Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Adélia Prado e Jorge Amado tornaram-se objetos dessas “equivalências fotográficas”, termo que ela usa para se referir à conversa de suas imagens com a literatura. São escritores que, cada um a seu modo, oferecem visões incontornáveis da alma brasileira. Como Maureen.

A fotógrafa parece discordar do clichê de que uma imagem vale mais do que mil palavras, quando afirma que suas fotografias “só ficam completas com o texto”. Assim, ocorre um duplo nascimento quando cada livro desses é publicado: de uma imagem que caminha junto com o texto, e de um texto que recebe nova vida pela imagem. Isso é possível porque o texto já estava na mente dela enquanto fazia ou selecionava as fotos – pois vem das leituras que fez, e que a tornam quem ela é. Não há, portanto, um conceito teórico a nortear a interseção entre literatura e fotografia operada por Bisilliat. Ela traz a questão para um plano mais pessoal, do afeto e da memória. E, como uma história muito bem contada, atinge todos nós.

O conteúdo integral dos livros expostos pode ser visualizado nos terminais de consulta da biblioteca.


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