Letizia Battaglia: Palermo


Apresentação de Paolo Falcone

Curador da exposição

A câmera faz tão parte da minha vida quanto falar, comer ou fazer sexo.
Nan Goldin

Letizia Battaglia começou a fotografar em 1971, em Milão, enquanto escrevia como freelance para vários veículos, entre eles o escandaloso Le Ore e o intelectualíssimo ABC. Também colaborou com o periódico L’Ora di Palermo. Em 1974, L’Ora propôs que ela retornasse a Palermo, onde havia nascido e vivido na adolescência, tornando-se responsável pela área de fotografia.

Na Palermo daqueles anos, um pacto entre política e máfia controlava a cidade. Foram os anos do chamado “Saque de Palermo”, que viu a cidade ser desfigurada por um sistema político-empresarial ligado à Cosa Nostra. L’Ora era o único a denunciar o sistema degradado e corrupto. De 1978 a 1992, se desencadeou um dos piores e mais sanguinários conflitos do pós-guerra pelo controle do território, que teve seu ápice na guerra da máfia de 1981 a 1983, que semeou centenas de cadáveres por ano. Apenas no início dos anos 1980, Palermo viu nascer a força-tarefa antimáfia, criada pelo juiz Rocco Chinnici, logo depois assassinado. E só a partir de 1984, com a colaboração de Tommaso Buscetta, foi possível desvendar aquele mecanismo complexo.

Mais tarde, Letizia iniciou um percurso na política militante. Passou a integrar o Partido Verde, movimento ambientalista que tentava frear a selvagem especulação imobiliária em Palermo. Em 1986, entrou no Conselho Municipal da cidade.

1992 foi um ano dramático na história da cidade. Em 12 de março, Salvo Lima, político ligado à máfia, foi assassinado. A Cosa Nostra se sentiu abandonada. Em 23 de maio, uma carga de explosivos matou o juiz Giovanni Falcone, chefe das operações antimáfia, sua mulher, Francesca Morvillo, e três homens da escolta. Em 19 de julho, um Fiat 126 carregada de dinamite matou o juiz Paolo Borsellino, outra figura central das investigações, e mais cinco agentes de sua escolta.

Montagem da exposição Letizia Battaglia: Palermo no IMS Rio. A foto em destaque mostra o juiz Giovanni Falcone

Em resposta aos massacres mafiosos, Letizia, então deputada regional, criou as Edizioni della Battaglia, editora independente com o objetivo de dar voz à luta e ao respeito pelos direitos civis em sua terra e ao redor do mundo. Fundou também a revista Mezzocielo, periódico criado exclusivamente por mulheres. Em dezembro de 2017, inaugurou outro importante projeto, o Centro Internazionale di Fotografia ai Cantieri Culturali alla Zisa, que levou a Palermo exposições de grandes fotógrafos e de jovens talentos.

Letizia fotografa com uma grande-angular. Para poder narrar com as imagens, é preciso estar exatamente onde a cena ocorre. Está sempre na linha de frente, em estreito contato com o elemento ou o assunto a ser representado. Além de documentar a guerra da máfia, retratou muitas mulheres e crianças nos bairros, arrabaldes e ruelas de uma cidade que ainda conservava as ruínas da Segunda Guerra Mundial. Imagens fortes e poéticas, que descrevem com amor uma trágica condição social.

As exposições no Brasil derivam da grande mostra realizada no ZAC (Zisa Zona Arti Contemporanee), em Palermo. A mostra foi concebida, desde o início, rompendo os esquemas e ignorando as cronologias e os temas da vasta produção de Letizia Battaglia, com o objetivo de compor uma obra polifônica, uma floresta fotográfica o mais completa possível. Um corpus ainda a ser decodificado e recomposto, mas no qual foram postas importantes balizas com o fim de escrever e definir de modo orgânico um trabalho de mais de 40 anos.


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