Chichico Alkmim, fotógrafo


De volta a Minas

Eucanaã Ferraz, curador da exposição

Carlos Drummond de Andrade escreveu em um de seus poemas que “Minas é fundo”. Pode-se dizer, então, que Chichico Alkmim foi ao fundo. Quando nos deparamos com suas fotografias, de imediato reconhecemos a presença espessa das Minas Gerais, a repercussão de sua história na história desse estranho complexo a que damos o nome de Brasil. Basta ver para reconhecer, sim, porque a fotografia tem o poder de trazer o mais profundo – o fundo – à tona, graças a, contraditoriamente, seu limite: o de reter apenas o que está na superfície. Vemos tão somente peles, texturas, dobras, aparências. Nos tecidos e na modelagem das roupas, nas pinturas cenográficas, nas cortinas, nos móveis, no brilho das jóias, na aspereza do chão, em tudo pode-se ver mais do que o que está visível, pode-se sentir o mundo-Minas: suas montanhas, suas paisagens pedregosas, seus rios fartos, suas lagoas, a natureza simultaneamente rica e inóspita, seus horizontes tortuosos, a inquietação diante de ameaças reais ou imaginárias, a escravidão dos negros, o garimpo, o calor, o frio, o temor a Deus, a crueldade, o cansaço, as festas, as famílias, a música. Nem mil e um vidros de loção conseguiriam abafar “o insuportável mau cheiro da memória” (outra vez, Drummond). E nem quereríamos que fosse de outro modo, porque desejamos o vestígio, o sinal, a narração, os nomes, tudo aquilo que nos devolve a nós mesmos, ainda que nossa face não seja a mais desejada, nem a mais fácil, ou feliz, ou bela.

As fotografias de Chichico Alkmim nos dão a estranha sensação de que algo que nos pertence está revelado ali; experimentamos a estranha sensação de reencontro com algo que parecia perdido. E é sem nenhuma dificuldade que reconhecemos aquilo com que topamos: nós mesmos. Mas seria preciso, de imediato, ou, ainda antes, perguntar: quem somos nós. Diante da pergunta-enigma, seria possível responder pelo menos com a constatação de que nas fotografias de Chichico nós somos os mineiros. Mas, curiosamente, a resposta logo se afiguraria exagerada, já que Chichico não fotografava o vasto território das Minas Gerais, mas apenas Diamantina e uns seus arredores. E, ainda, muitos de seus retratados eram naturais de outros estados, alguns eram estrangeiros ou filhos de estrangeiros. O fotógrafo não tinha a ambição de fazer qualquer inventário e simplesmente fotografava aqueles que lhe procuravam. No entanto, a sensação permanece: parece haver no conjunto de seu trabalho uma imagem surpreendente, uma espécie de espelho – não o realista, mas o metafórico – que dá a chance de nos vermos fora de nós como algo com que nos assemelhamos; sem que deixemos de ser o que somos, passamos a ser também aquilo que vemos.

Autobonde. O fotógrafo Assis Horta e dois de seus irmãos aparecem na parte traseira do veículo. Fotografia de Chichico Alkmim, Diamantina, MG, 1924 / Acervo IMS

Assim, quando a exposição Chichico Alkmim, fotógrafo esteve na sede carioca do Instituto Moreira Salles, impressionava o modo emocionado como os visitantes se reconheciam ou reconheciam alguém muito próximo. Alguns fotografados pareciam mesmo estar entre o público. Toda aquela gente de papel era nossa parente, amiga, vizinha. Todos eram um de nós. Quando a exposição foi para o IMS Paulista, imaginei o quanto as imagens de Chichico falariam aos paulistas, tão aparentados de paisagens como aquelas, distantes do litoral, conquistadas por tropeiros, comerciantes, fazendeiros, escravos, estrangeiros. A resposta foi, mais uma vez, excepcional. O fotógrafo de Diamantina conquistou São Paulo. E, imagino, não seria diferente se a exposição viajasse para a Bahia, Pernambuco ou Goiás.

Nas fotografias de Chichico, há homens e mulheres de olhos claros e pele muito branca; e negros e negras que parecem distantes de qualquer miscigenação; mas há também, largamente, os vários amálgamas entre aqueles extremos. Mas, iluminados por uma mesma luz, todos parecem simplesmente brasileiros. E há o casario de gosto português, tão mineiro e tão parecido de norte a sul do país; e as igrejas, delicadíssimas, levíssimas, de madeira, tão diferentes das de Ouro Preto; o calçamento pedregoso; o céu prodigioso; os cavalos; os cachorros; os cafés; a fé. Pergunto-me, então, se os mineiros descobrirão sutilezas mineiríssimas que passaram despercebidas para cariocas e paulistas (simplifico, pois sei que, obviamente, nas mostras do Rio de Janeiro e de São Paulo o público não se limitava aos que nasceram ali), agora que a mostra Chichico Alkmim, fotógrafo chega ao IMS de Poços de Caldas.

Mas gosto da ideia de que as diferenças estão suspensas naquelas fotografias, que todos nos encontramos diante de um mundo que nos sobrevém como uma síntese alegórica à maneira de Oswald de Andrade; ou resultante de uma utopia civilizacional ao gosto de Mário de Andrade; gosto de pensar que a obra de Chichico Alkmim se desenrolou antes, durante e depois da Semana de Arte Moderna de 1922, e se isso simplesmente não alterou o rumo do trabalho do fotógrafo diamantinense, nossos olhos, hoje, não podem ver suas imagens sem considerar tudo que já viram; gosto de lembrar que Chichico esteve muito perto de Carlos Drummond de Andrade e de Guimarães Rosa; gosto de lembrar que viveu na mesma cidade da lendária Xica da Silva – Francisco e Francisca; terra de Juscelino Kubitschek, sim; terra de Helena Morley; gosto de pensar em Chichico Alkmim como homem de Diamantina, como mineiro, e gozo da mais alta felicidade ao ver sua obra como uma luminosa narrativa sobre um Brasil acima das fronteiras, no fundo de nós.


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