Richard Serra: desenhos na casa da Gávea


Sala a sala

Planta da exposição Richard Serra: desenhos na casa da Gávea no IMS Rio

Sala 1

As obras expostas nesta sala poderiam ser confundidas com pinturas, mas, para Richard Serra, elas resultam de experimentações no sentido de ampliar as maneiras de se desenhar.

Vista da exposição Richard Serra: desenhos na casa da Gávea no IMS Rio, 2014. Foto de Cristiano Mascaro

Double Rift #4 (2011) faz parte de uma série de desenhos de grande porte, diante dos quais a percepção se torna uma experiência não apenas visual, mas também corporal. Para elaborá-los, o artista derrete grandes quantidades de bastão oleoso criando uma pasta espessa que é em seguida aplicada sobre o papel com a ajuda de espátulas. Duas fendas brancas trazem a materialidade do papel para a superfície do desenho. Irregulares, elas desorientam o sentido de ortogonalidade, de modo semelhante ao efeito causado pelas esculturas de grande porte realizadas por Richard Serra a partir dos anos 1990, conhecidas como Torqued Ellipses.

Double Rift #4, 2011. Obra de Richard Serra. Foto de Robert McKeever

Cheever (2009) é também produzida a partir de bastões oleosos derretidos. O artista despeja o material sobre o papel estendido no chão, dentro dos limites determinados por um molde de madeira em forma de círculo. Ele então coloca uma tela fina sobre o material e pisa nela com os pés, de modo que podemos ver as marcas da tela na superfície do desenho. Parte do material respinga para fora do molde tingindo as bordas do papel. A matéria acumulada no centro faz com que a obra se torne um corpo pesado, em tensão com o suporte de papel, que parece estar no limite de sua capacidade de sustentá-la.

Cheever, 2009. Obra de Richard Serra. Foto de Robert McKeever

O mesmo método é utilizado nos desenhos Huddie Leadbelly (1997) e Willy Dixon (1997), dispostos no corredor que leva às salas 2 e 3. A sala 1, originalmente um espaço para refeições, e esse primeiro corredor que se abre para o pátio interno são os espaços mais iluminados da casa. Neles, a luz natural enfatiza a materialidade e o peso dos desenhos, em contraste com a leveza das paredes de vidro.

À esquerda, Huddie Leadbelly, 1997. Bastão oleoso sobre papel. 156,2 x 139 cm. Coleção do artista. Foto de Tom Powell © Richard Serra / À direita, Willy Dixon, 1997. Bastão oleoso sobre papel. 127,6 x 139,7 cm. Coleção do artista. Foto de Tom Powell © Richard Serra
Vista da exposição Richard Serra: desenhos na casa da Gávea no IMS Rio, 2014. Foto de Cristiano Mascaro

Sala 2 - Gabinete

Para Richard Serra, o olho é como um músculo que precisa ser exercitado cotidianamente. Os cadernos expostos nessa sala, a antiga biblioteca da casa, são seus diários visuais, mostram desenhos feitos em viagens, o story board de um filme, esboços de esculturas ou traçados a partir de obras já realizadas. Eles atestam formas de pensar e de perceber o mundo; registram relações espaciais, volumes, estruturas e a ação da gravidade sobre diferentes corpos.

Torqued Ellipses, Guggenheim Bilbao, Spain, 2005. Bastão oleoso sobre papel. 23,5 x 31,1 cm. Coleção do artista. Foto de Robert McKeever © Richard Serra
Tilted Arc, 1988. Bastão oleoso sobre papel. 60,9 x 45,7 cm. Coleção do artista. Foto de Robert McKeever © Richard Serra
Vista da exposição Richard Serra: desenhos na casa da Gávea no IMS Rio, 2014. Foto de Cristiano Mascaro

Sala 3

Rift #1 (2011) e Double Rift #6 (2013) estão expostos um em frente ao outro. Seu aspecto corporal e seu peso visual contrastam com a leveza e a luminosidade deste que é o ambiente mais amplo da casa da Gávea, a antiga sala de estar. A parede de vidro que dá para o pátio permite que se veja daqui a obra Double Rift #4 (2011), da mesma série, mostrada na sala 1.

Rift #1, 2011. Bastão oleoso sobre papel artesanal. 290 x 420 cm (com moldura). Coleção do artista. Foto de Robert McKeever ©Richard Serra
Double Rift #6, 2013. Bastão oleoso sobre três folhas de papel duplo laminado Hiromi. 214 x 610 x 9,5 cm (com moldura). Coleção do artista. Foto de Robert McKeever © Richard Serra

 

Na parede interna oposta à vidraça está o conjunto de desenhos Drawings after Circuit (1972), realizado a partir do deslocamento do artista em torno da escultura Circuit (1972), uma de suas primeiras obras site specific, realizada na Documenta 5, em Kassel, Alemanha. 

Eu os fiz andando pela periferia da sala e olhando para as aberturas entre as quatro placas da escultura. À medida que você andava pela sala, as linhas verticais dos desenhos se abriam e se fechavam e se repetiam, diagramando assim o caminho. (Richard Serra)

Vista da exposição Richard Serra: desenhos na casa da Gávea no IMS Rio, 2014. Foto de Cristiano Mascaro

As linhas verticais em diferentes posições que formam os desenhos sugerem um corpo se deslocando no espaço. Elas dialogam com as colunas e esquadrias da casa da Gávea e remetem ao trânsito fluido dos visitantes no interior do museu.

Sobretudo nas salas 1 e 3, as paredes de vidro integram totalmente a arquitetura de Olavo Redig Campos e os jardins de Roberto Burle Marx à exposição.


Sala 3 - Anexo

Solid #1 (2007) e Solid #5 foram feitos a partir do mergulho de uma das faces da folha de papel artesanal quadrada num recipiente com grandes quantidades de bastão oleoso derretido. Estamos diante de um corpo sólido e pesado. A superfície espessa e rugosa do desenho corresponde ao material que escorreu sobre o papel.

À esquerda: Solid # 1, 2007. Coleção do artista. À direita: Solid # 5, 2007. Coleção particular. Ambos: Bastão oleoso sobre papel artesanal. 101,6 x 101,6 cm. Fotos de Robert McKeever © Richard Serra
Vista da exposição Richard Serra: desenhos na casa da Gávea no IMS Rio, 2014. Foto de Cristiano Mascaro

A sorrow beyond dreams (1995) mostra um maciço e estável retângulo preto deitado na base de uma superfície quadrada. Gravidade, densidade e solidez. Seu peso visual corresponde ao acúmulo de matéria que o constitui, dando a impressão de que o retângulo empurra com força todo o desenho para baixo.

A Sorrow Beyond Dreams, 1993. Bastão oleoso sobre papel duplo laminado Hiromi. 193 x 193 cm. Coleção do artista. Foto de Robert McKeever © Richard Serra

Corredor

Vista da exposição Richard Serra: desenhos na casa da Gávea no IMS Rio, 2014. Foto de Cristiano Mascaro

Os oito desenhos da série Weights (2008) dizem respeito à fisicalidade dos materiais que os constituem e à percepção visual e física dos corpos. Os retângulos pretos que cobrem o papel branco têm diferentes tamanhos, como se indicassem diferentes níveis de matéria num recipiente. Essas diferenças pressupõem um corpo em movimento, fazendo com que a ideia de fluxo e transitoriedade venha à tona mais uma vez na exposição. Por outro lado, o denso papel artesanal também se faz presente como matéria e peso, desestabilizando a hierarquia estanque entre figura e fundo.

Partes selecionadas de Weights, 2008. Bastão oleoso sobre papel artesanal. Oito partes: 77,4 x 55,8 cm e 55,8 x 77,4 cm. Coleção do artista. Foto de Robert McKeever © Richard Serra

Sala 4

Vista da exposição Richard Serra: desenhos na casa da Gávea no IMS Rio, 2014. Foto de Cristiano Mascaro

A série Courtauld Transparencies (2012) enfatiza o caráter experiemental e processual dos desenhos de Richard Serra. Ela é composta por 12 desenhos feitos nas duas faces de uma folha de acetato transparente chamada Mylar. Para realizá-los, o artista trabalhou com três folhas. Duas delas tiveram uma das faces cobertas inteiramente com giz litográfico preto. Em seguida, ele colocou a terceira folha vazia entre as outras duas, fazendo uma espécie de sanduíche, sendo que as faces cobertas de giz litográfico ficaram em contato o Mylar vazio do centro. O artista então passou a pressionar o “sanduíche” no lado de fora com um instrumento de metal, fazendo com que partes da matéria preta fossem transferidas para a folha do centro. A obra é constituída pelo Mylar que estava no meio, uma espécie de monotipia de dupla face, um desenho cego em que o artista não tem controle sobre os resultados.

Courtauld Transparency #9 e #11, 2013. Giz litográfico sobre acetato. 76,2 x 61 cm. Coleção do artista. Foto de Robert McKeever © Richard Serra

As obras mostram uma matéria pesada e densa suspensa nas duas faces do suporte transparente. A parte de trás parece desfocada, o que enfatiza o caráter tridimensional da matéria. Desta maneira, o artista dialoga com os esforços de diferentes movimentos modernos como o cubismo e outras vertentes construtivas, ao descartar as ideias de figura e fundo, de frente e verso, redefinindo as formas de se fazer e de se ver um desenho.

A ênfase no processo está relacionada com a valorização dos meios sobre os resultados, da experiência concreta e do presente sobre a expectativa de futuro.


Sala 5

Reversals (2013) é a série mais recente presente na exposição. Os desenhos são constituídos por duas folhas de igual tamanho, dispostas uma sobre a outra de maneira contígua. As folhas são divididas em duas partes, de forma igual, sendo que um dos retângulos de cada folha é coberto com lápis litográfico preto. As folhas se tornam uma o reverso da outra, pois nelas a parte preta de uma é branca na outra e vice-versa. A proporção da divisão é única em cada dupla. A posição das partes não segue uma lógica ou regra.

Reversals #8, #15, #21 e #23, 2013. Giz litográfico sobre duas folhas de papel artesanal. 132,7 x 46,4 cm e 158,1 x 48,3 cm. Coleção do artista. Foto de Robert McKeever © Richard Serra

Para Richard Serra, o principal desafio do desenho, em todos os tempos, é fazer com que o fundo do papel participe da imagem. Em Reversals, a parte do desenho não coberta de preto põe em foco, mais uma vez, a materialidade e a textura do papel artesanal. Desta forma, o artista pretende trazer o fundo para o primeiro plano, dando a ele a mesma importância que a figura. Vistos em sequência, os desenhos apresentam um ritmo lacunar e intermitente; trazem à tona mais uma vez as ideias de trânsito e processo.

Vista da exposição Richard Serra: desenhos na casa da Gávea no IMS Rio, 2014. Foto de Cristiano Mascaro

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