Harun Farocki: quem é responsável?


Texto das curadoras

Antje Ehmann e Heloisa Espada

Esta exposição reúne duas dimensões centrais e complementares das obras de Harun Farocki (1944-2014): a percepção de que não existem imagens inocentes; e a pesquisa obsessiva sobre o mundo do trabalho e suas consequências na organização da sociedade. A mostra foi concebida para ser apresentada em duas etapas. Num primeiro momento, o IMS Rio apresentou obras que abordam o uso de imagens variadas – pictogramas, cenas de monitoramento de trânsito, animações de jogos eletrônicos ou o retrato na capa de um tabloide – em sistemas de observação e controle. Nelas, Farocki descortina, por exemplo, as relações entre a indústria cultural e a indústria de guerra. Na segunda etapa da exposição, no IMS Paulista, seu olhar severo e ao mesmo tempo poético reflete sobre como as formas de produção moldam os modos de vida. O tema do trabalho é escrutinado a partir de diferentes pontos de vista, a partir de sua representação em mais de um século de cinema ou numa pintura. As obras revelam um extremo respeito por todas as formas de sobrevivência, ao mesmo tempo que denunciam a dimensão absurda dos gestos repetidos e das formas de exploração do trabalho em diferentes lugares do mundo.

Harun Farocki na filmagem de "Sauerbruch Hutton Arquitetos", 2012 © Matthias Rajmann

Harun Farocki é um nome central no processo que levou diversos cineastas a migrar para as salas de exposição na segunda metade do século XX. Com uma trajetória que se iniciou no campo do cinema ativista, no fim dos anos 1960, ele se voltou para o universo das videoinstalações a partir da década de 1990. Híbrido de ensaio e documentário, seu trabalho é marcado pela influência de cineastas como Jean-Luc Godard, Jean-Marie Straub e Danièle Huillet e pelos escritos de Bertolt Brecht. Farocki se autodefinia como um antifascista incurável. Ao se debruçar sobre os usos das mais diferentes imagens, muitas vezes explorando as fronteiras pouco nítidas entre ficção e realidade, sua obra é surpreendente e relevante nos dias de hoje.


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