História mais visível

11 DE MARÇO DE 2019 |

Com quase 200 anos de existência – foi fundado em 1838 – o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro guarda parte significativa da memória do país. Formado ao longo das décadas por coleções de figuras da vida privada e pública – como D. Pedro II, que foi patrono e membro influente do instituto –, o acervo reúne, além de documentos, livros, periódicos, mapas, desenhos e gravuras, mais de 20 mil fotografias. Um amplo retrato do Brasil que, entretanto, ainda não está visível on-line. Uma questão de tempo. Nos próximos dois anos, todo o arquivo fotográfico do IHGB – que, por enquanto, está apenas descrito no site – será digitalizado pelo Instituto Moreira Salles, numa parceria que permitirá a ambos disponibilizar, em suas plataformas de difusão de conteúdo, as imagens do precioso conjunto para pesquisadores e público em geral.

Há muito em comum entre os dois acervos, como lembra Sergio Burgi, coordenador de fotografia do IMS. Marc Ferrez, Augusto Malta, Augusto Stahl, Revert Henrique Klumb e Joaquim Insley Pacheco, por exemplo, nomes fundamentais da fotografia no século XIX e início do XX, estão presentes nos arquivos das duas instituições, estabelecendo um diálogo que será aprofundado e aprimorado. “O IHGB tem muitos álbuns de retratos que permitem olhar essa produção de forma mais ampliada. O retrato de estúdio do século XIX é algo que ainda precisa ser mais estudado e trabalhado”, diz Burgi. “Normalmente os retratos nunca são precisamente identificados e datados, mas no caso deles, como muitos dos álbuns vêm de coleções familiares, essa identificação é mais detalhada”.

Arno Wehling, presidente do IHGB – cujo acervo foi objeto do livro de luxo Brasiliana IHGB, editado pela Capivara em 2014 –, destaca o papel fundamental de um conjunto tão robusto de retratos na preservação da memória privada e social. “Eles são muito procurados, seja para fins genealógicos, seja para a pesquisa histórica. Neste particular são cada vez mais importantes como fontes historiográficas. Se considerarmos apenas as mais de três mil fotografias classificadas no IHGB como de pequeno porte, a maior parte é composta de retratos. É manancial riquíssimo, um filão para qualquer pesquisador”, afirma ele, lembrando que ainda há muito trabalho e estudo a serem feitos no acervo fotográfico da instituição. “Podemos lembrar a este respeito profissionais menos conhecidos ou menos explorados pelos investigadores, como por exemplo Insley Pacheco”.

General Osório. Rio de Janeiro, c. 1875. Fotografia de Joaquim Insley Pacheco / Acervo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB)

Pacheco, um dos fotógrafos importantes do círculo da família imperial, também é citado por Burgi como nome fundamental a ser pesquisado. O IMS guarda retratos significativos do artista – entre eles um dos mais conhecidos de Machado de Assis, atribuído durante muito tempo a Marc Ferrez –, porém a expectativa do coordenador é que se descubra dele imagens de outro tipo. “Ele foi igualmente um grande fotógrafo de paisagem. Temos no IMS um conjunto de imagens da Quinta da Boa Vista que talvez, comparando com outras de Pacheco que estão no IHGB, possamos atribuir a ele”, acredita Burgi.

A gigantesca produção de Augusto Malta, que entrou para a história como o fotógrafo oficial do Rio de Janeiro no alvorecer do século XX, é outro exemplo das possibilidades de uma leitura integrada entre os dois acervos, onde ele está bem representado – em alguns casos com imagens iguais, como a da impressionante bagunça organizada na mesa de trabalho do Barão do Rio Branco (1912). O diplomata, aliás, também aparece num imponente retrato triplo (c. 1902) na coleção de Malta no IHGB. Ali, o trabalho do fotógrafo que registrou uma cidade em monumental revolução urbana avança um pouco além do IMS nas décadas e nos temas. E revela cenas raras como a pobreza de moradores da Avenida Conceição, no Engenho de Dentro (1933), ou os sensíveis retratos dos pequenos órfãos da Casa dos Expostos (c. 1920).

Nos dois acervos também se destaca Augusto Stahl (1828-1877). Enquanto a produção do artista no IMS concentra-se mais nas paisagens de Recife e Rio de Janeiro, cidades onde o francês (nascido Théophile Auguste Stahl) viveu, a coleção do IHGB apresenta ainda retratos da família imperial, de membros da corte e da sociedade. Neste conjunto saltam aos olhos os primorosos retratos da baronesa e do conde de São Clemente (c.1865), ricamente coloridos e adornados (com detalhes em ouro) pelo estúdio de Stahl e seu sócio, o alemão Germano Wahnschaffe, agraciados com o título de Fotógrafos da Casa Imperial.

Maria José Rodrigues Fernandes Chaves, baronesa de São Clemente. Rio de Janeiro, c. 1865. Antonio Clemente Pinto, conde de São Clemente. Rio de Janeiro, c. 1865. Fotografia de Augusto Stahl / Acervo IHGB

 

Além de estudos aprofundados em torno de autores específicos, Sergio Burgi aponta outras possibilidades que a parceria com o IHGB pode render, como pesquisas que transcendem a questão da fotografia em si. “Se olharmos para a fotografia do século XIX sem o arcabouço da contextualização, podemos fazer leituras importantes do ponto de vista das imagens, mas eventualmente fracas do ponto de vista do entendimento de quem são aqueles indivíduos retratados, suas relações sociais etc”, avalia o coordenador. “Todo o conteúdo fotográfico produzido naquele período, principalmente o comissionado, está associado a compreensões históricas do momento. A interlocução com uma instituição importante nessa área, e com os pesquisadores associados a ela, pode abrir caminhos interessantes”.