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Escrever com a imagem e ver com a palavra

Fotografia e literatura na obra de Maureen Bisilliat


Apresentação

Miguel del Castillo

A obra de Maureen Bisilliat, fotógrafa nascida na Inglaterra em 1931, mas naturalizada brasileira, abarca um amplo espectro de temas do Brasil. Com um olhar estrangeiro no melhor dos sentidos – isto é, aquele que, por não ser natural do lugar, procura entendê-lo e respeitá-lo ao máximo –, ela fotografou o dia a dia dos índios do Xingu, os personagens e as paisagens dos sertões de Minas e do Nordeste, as festas e os rituais religiosos e folclóricos do país. Imbuída de uma curiosidade que conserva intacta ainda hoje, aos 88 anos, chegou a ter uma galeria de arte popular, chamada O Bode, e foi convidada por Darcy Ribeiro a montar (com seu marido Jacques Bisilliat e Antonio Marcos Silva) o acervo do Pavilhão da Criatividade no Memorial da América Latina, onde continuou atuando como curadora até 2011. E é uma leitora extremamente eclética e perspicaz. Desde 2003, sua obra completa está incorporada ao acervo do Instituto Moreira Salles.

Sua devoção à materialidade do mundo se revela também nos muitos livros que publicou, bem como na importância que dá ao processo de editá-los, escrevê-los, desenhá-los e imprimi-los, sempre valorizando os profissionais envolvidos em cada etapa. Esta exposição – versão bastante ampliada de uma mostra que ocorreu em 2018 na Biblioteca de Fotografia do IMS Paulista – destaca os projetos em que Maureen busca um diálogo com grandes escritores da literatura brasileira. Tudo começou quando recebeu de presente um exemplar de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. A fotógrafa encarou a leitura do livro como um desafio a ser vencido, pois, na época, embora falasse espanhol, morava havia apenas seis anos no Brasil. Encantada com o romance, quis conhecer e fotografar esse sertão que tanto fascínio exercera no escritor.

A partir daí, seguiu um caminho que a levaria a produzir diversos livros fotográficos, ou, mais especificamente, livros fototextuais, além de ensaios e exposições, em que combina imagens suas – já existentes ou produzidas especialmente para a ocasião – a trechos da obra de um escritor. Assim, Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Mário de Andrade, Adélia Prado, Jorge Amado e Jorge de Lima tornaram-se objetos dessas “equivalências fotográficas”, termo que ela usa para se referir à conversa de suas imagens com a literatura. São escritores que, cada um a seu modo, oferecem visões incontornáveis da alma brasileira. Como Maureen.

Este conjunto reflete uma vida em que a literatura é presença constante, tanto no pensamento como na ação fotográfica. A artista parece discordar do clichê de que uma imagem vale mais do que mil palavras quando afirma que suas fotografias “só ficam completas com o texto”. Assim, ocorre um duplo nascimento cada vez que esses projetos aqui reunidos tomam forma: de uma imagem que é ressignificada pelo texto, e de um texto que recebe nova vida graças à imagem. Isso porque o texto já estava na mente dela enquanto fazia ou selecionava as fotos. Embora possamos especular e propor interpretações e classificações, não há um conceito teórico estrito a nortear a interseção entre literatura e fotografia feita por Maureen Bisilliat. Ela traz a questão para um plano mais pessoal, do afeto e da memória. E, como uma história muito bem contada, atinge a todos nós.


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