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Contraste

Senhora liberdade

16 de agosto de 2019 |

Helô é Helô. Quem a conhece sabe o que a tautologia quer dizer. Não há com quem compará-la, ela simplesmente foge das explicações, aproximações, mantendo-se, sem nenhum esforço, arredia a qualquer discurso que pretenda aprisioná-la. Ela é o que é. A liberdade é sua grande paixão, sua única paixão. Daí seu amor pela poesia, mesmo quando está envolvida com outras linguagens, com outros lances. A seriedade não conseguiu impor a ela nenhum padrão de comportamento intelectual pronto para uso. Helô – modernista convicta, romântica inveterada, marginal por temperamento, curiosa de raiz, carioca por opção, descuidada por charme, zelosa sem autoridade, ética sem negociação, inteira porque sim – é Helô. E é também Heloísa Buarque de Hollanda, nome cuja solidez deve-se à dedicação permanente, há décadas, ao ensino, à pesquisa, à editoração e a projetos interdisciplinares. Uma mesma e única personagem, encantadora, mas sobretudo encantada, porque é como se o tempo não a vencesse, porque ela está no tempo sem lutar contra ele, porque fez do tempo seu aliado. A senhora de 80 anos recém-completados nesse julho de 2019 pode parecer uma criança que se diverte, mas, na verdade, é uma adolescente muito compenetrada, a fim de saber o que está para acontecer. O que já aconteceu nunca lhe interessou senão como presença no agora. Helô é agora. Quem quiser outro tempo, outra heroína, outra novela, mude de canal. Aqui, temos uma entrevista, que eu e Eduardo Coelho – Paulo Roberto Pires deu uma passadinha por lá – fizemos com ela na sede carioca do IMS. Foi em 2014. Gravada em vídeo e agora editada em playlist por Laura Liuzzi, a conversa faz parte de um projeto chamado Visões da literatura, sem prazo para terminar, sem formato definido lá na ponta, plano em aberto, portanto, mas que tem como fio condutor depoimentos com críticos literários. Helô, naquele momento, acabara de lançar Escolhas, uma autobiografia intelectual (Rio de Janeiro, Língua Geral). Nesse primeiro semestre de 2019, lançou vários livros, antologias quentíssimas; mas quero destacar o imperdível Onde é que eu estou (Rio de Janeiro, Bazar do Tempo), que reúne, além de uma entrevista, vários ensaios. Enfim, quando tudo parece sombrio, estreito, claustrofóbico, Helô propõe áreas livres e jardins, arquitetura e paisagismo para andarmos livres, casas de morar, moradia para todos, poesia. Helô.

O poeta Eucanaã Ferraz em foto de Ana Carmo

Eucanaã Ferraz é poeta e consultor de literatura do Instituto Moreira Salles