Idioma EN
Contraste

Limercy Forlin


Textos produzidos para a primeira temporada da exposição Retratos de Limercy Forlin: um recorte na história de Poços de Caldas, em cartaz no IMS Poços de 15/5/2021 a 6/3/2022.


Arquivo Limercy Forlin, interrogação de uma comunidade

João Fernandes, diretor artístico
e Marcelo Araujo, diretor-geral

Instituto Moreira Salles

Limercy Forlin foi um fotógrafo comercial que trabalhou em Poços de Caldas, mas o seu nome significa muito mais do que isso. Durante décadas, a sua atividade laboriosa foi registrada em envelopes cuidadosamente organizados por sua esposa, dona Zizi Navarro Vieira, não só com as imagens mas também os nomes, os endereços, os aniversários e as datas das idas ao estúdio de milhares de cidadãs e cidadãos de Poços, construindo um arquivo precioso de mais de 400 mil retratos. Esse arquivo nos interroga hoje sobre quem eram essas pessoas, o que aconteceu nas suas vidas, como viviam e como protagonizavam anonimamente essa cidade encantadora, com uma história tão peculiar.

Esse arquivo de identidades nos projeta hoje sobre a própria “identidade”, palavra que na sua etimologia (formada a partir da expressão latina “idem et idem”: “o mesmo e o mesmo”) nos remete também para a alteridade, para os interstícios onde a igualdade e as diferenças se movem, porque nunca o mesmo se repete, ainda que pareça se repetir, nessas fronteiras movediças entre eu e o outro que se cruzam dentro de cada um e de cada um em relação aos outros.

Doado generosamente pela família ao Instituto Moreira Salles (IMS), uma parte desse arquivo é agora apresentada pela primeira vez, numa exposição com cuidadoso recorte curatorial de Teodoro Stein Carvalho Dias e a organização da dedicada equipe do IMS na cidade mineira. Esta exposição relembra o trabalho de Limercy Forlin e dá visibilidade à presença do seu arquivo nos acervos do IMS, mas ela também demonstra o muito que há para fazer e pesquisar a partir desse arquivo: reunir todos os dados possíveis de serem reunidos a partir dele, cruzar esses dados com os censos da cidade, do estado e do país, conhecer e analisar com o auxílio de vários olhares e de várias disciplinas o que podem significar as estatísticas de gênero, de raça, de idade, de profissão, de renda, de área geográfica de residência, são, por exemplo, atuais incógnitas que urge esclarecer. Pensar a própria fotografia a partir da sua prática vernacular por um estúdio fotográfico comercial numa cidade do interior do país abre caminhos fascinantes de reflexão e de trabalho.

Esta exposição é sem dúvida um primeiro passo, que nos permite também detectar essas necessidades. Cada um dos retratos que nela encontramos contribui para a identificação da pessoa retratada, mas também nos desafia no presente enquanto comunidade, num mundo por redefinir e reconstruir depois de uma pandemia que o interroga também nesse sentido.

No momento de apresentação da exposição Retratos de Limercy Forlin, um recorte na história da cidade, o Instituto Moreira Salles não pode deixar de expressar o seu reconhecimento e gratidão à família do fotógrafo, pela sua generosidade e disponibilidade sem fim; a Teodoro Stein Carvalho Dias, pela dedicação, pelo tempo, pelo trabalho e por todo o cuidado evidenciados na sua curadoria; a Stelio Marras, pelo seu texto precioso; e às equipes do IMS, que, nas suas diferentes sedes, de Poços de Caldas a São Paulo e ao Rio de Janeiro, tornaram esta exposição possível.

Teremos muito para descobrir nos laços que a partir de agora também nos poderão relacionar com esses retratados(as), assim como com todos(as) que ainda nos aguardam no arquivo de Limercy Forlin. As suas identidades também fazem parte da nossa identidade. E assim nos ajudam a compreender o que temos de comum e diferente entre nós, nos nossos diferentes tempos, lugares e circunstâncias, contribuição inestimável para nos pensarmos, confrontarmos e reconhecermos como comunidade em todos os dilemas que nos desafiam e situam nessa permanente intersecção de memórias das quais resulta nosso presente.


Retratos de Limercy Forlin, um recorte na história de Poços de Caldas

Teodoro Stein Carvalho Dias

 

Em 2016, quando o Estúdio Fotográfico Limercy encerrou suas atividades em Poços de Caldas, os herdeiros do fotógrafo Limercy Forlin (1921-1986) doaram ao Instituto Moreira Salles uma grande coleção de negativos, composta principalmente por fotografias para documentos que haviam sido arquivados no estúdio entre os anos de 1958 e 2002. Estima-se que a coleção reúna 400 mil unidades, entre negativos em preto e branco de 50 mm e cromos de 50 e 35 mm.

Uma coleção como essa só teria sentido se fosse acompanhada por um sistema de organização que possibilitasse a identificação e a localização do material arquivado: num pequeno envelope de papel de seda, eram anotados a data de aniversário, o nome e o endereço do cliente. Esse envelope recebia um primeiro negativo e era arquivado em gavetas, subdivididas e organizadas pelo mês e dia do aniversário do retratado, e também em ordem alfabética no conjunto de cada dia. Quando o cliente voltava ao estúdio para uma nova fotografia, seu envelope era localizado pela data de aniversário e pelo nome, e o novo negativo era arquivado juntamente com os das fotografias anteriores. Supõe-se que esse arquivo tenha iniciado em 1958, ano das fotografias datadas mais antigas, muito provavelmente pela iniciativa da esposa do fotógrafo, Zizi Navarro Vieira, a principal assistente de Limercy durante o tempo em que ele atuou na cidade. Com a introdução da fotografia digital, em 2002, o arquivamento de negativos foi encerrado pela filha do fotógrafo, Márcia Forlin, que assumiu o estúdio após a morte do pai, em 1986, e o manteve em funcionamento até 2016.

A possibilidade de exibir essa coleção torna-se viável graças a recortes que permitem entender sua potencialidade para estudos mais específicos. Para esta primeira mostra, foi selecionado um grupo de aproximadamente 7200 retratos em preto e branco, realizados entre 1958 e 1982. É interessante frisar que, na década de 1970, Poços de Caldas passou por uma política de expansão e recebeu indústrias de médio a grande porte que mudaram significativamente desenho social da cidade. Além de receber um certo número de estrangeiros, entre americanos, japoneses e franceses, um grande afluxo de mão de obra vinda do campo e de outras regiões do país mudou o perfil demográfico. De maneira sutil, essa mudança se faz sentir nos retratos de operários, feitos por Limercy Forlin diretamente nas fábricas, e na ocorrência em maior número de fotografias de mulheres, que trocaram os porta-retratos pelas carteiras de trabalho, fenômeno que ganhou impulso nessa década.

O recorte dos retratos desta exposição obedece à metodologia de arquivamento dos mesmos: para cada dia do ano, foram escolhidos aleatoriamente de 10 a 12 envelopes, um de cada pessoa. Os negativos foram digitalizados, editados e impressos no tamanho 9 x 12 cm. A distribuição das fotografias pelas paredes do IMS segue o calendário, e cada dia do ano é representado por uma coluna onde ficam as imagens de seus aniversariantes. Ainda que improvável, não é impossível que os habitantes da região que conviveram com o Estúdio Limercy se encontrem retratados nessas colunas com uma, duas, três ou até quatro fotografias em épocas distintas, revelando-se assim uma linha do tempo emocionante e particular que o fotógrafo, sem se dar conta, traçou.