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O que elas viram: fotolivros históricos de mulheres, 1843-1999


Livros em exibição

1843-1919: Pioneiras

ANNA ATKINS (Britânica, 1799-1871)
Sun Gardens: Cyanotypes by Anna Atkins[Jardins solares: cianotipias de Anna Atkins]
Nova York: New York Public Library, 2018 | 25,5 x 31,5 cm | 215 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de Anna Atkins | organizado por Larry J. Schaaf e editado por Joshua Chang

A primeira pessoa a imprimir e distribuir uma publicação ilustrada com fotografias, a botânica e ilustradora britânica Anna Atkins alterou de forma profunda o curso da divulgação de conhecimento. Um projeto de dez anos, seu Photographs of British Algae: Cyanotype Impressions [Fotografias de algas britânicas: Impressões em cianotipia] utilizou o processo sem câmera de cianotipia para ilustrar espécimes aquáticos como formas branco-leitosas em um mar de azul-cerúleo. Não foi apenas a primeira publicação de seu tipo, mas também um exemplo iluminador de habilidade técnica, design sutil e engenhosidade pioneira. Esta publicação documenta seu papel seminal nas origens da mídia fotolivro.

 

 

FRANCES BENJAMIN JOHNSTON (Norte-americana, 1864-1952)
The Hampton Album[O álbum de Hampton]
Hampton: Hampton Normal and Agricultural Institute, 1899-1900 | 25 × 18 cm | álbum único contendo 159 cópias em platina | capa dura | texto manuscrito em inglês, muito provavelmente por Cora Folsom (edição de 1966 em exibição)

Compilado por uma das primeiras fotojornalistas dos Estados Unidos, o álbum de Johnston é o retrato de um projeto de assimilação racial profundamente controverso. Ele apresenta os objetivos educacionais do Hampton Normal and Agricultural Institute, na Virgínia, uma das primeiras escolas para pessoas afro-americanas e indígenas, fundada em 1868. Fotografias encenadas de forma cuidadosa mostram estudantes em trajes formais atuando em situações de sala de aula, posando para retratos e demonstrando suas habilidades recém-adquiridas que expressam sua assimilação ao modo de vida anglo-americano.

 

ELIZABETH B. BROWNELL (Norte-americana, c. 1860-1909)
Dream Children[Crianças dos sonhos]
Indianápolis: The Bowen-Merrill Company, 1901 | 14 x 20 cm | 217 pp. | capa dura | texto em inglês com prosa e poemas de 28 autores, introdução de Clara E. Laughlin

Dream Children ilustra poesia e prosa populares com cenas cuidadosamente compostas no estilo de tableaux vivant, que foi popular na fotografia do final do século XIX e início do século XX. Primeiro de uma série de livros que associam as ilustrações fotográficas de Brownell à literatura, este volume reúne a prosa e a poesia de 28 autores. O livro foi divulgado para um público feminino de classe média em expansão, oscilando entre narrativas de moralidade, sentimentalismo e temas nostálgicos da infância.

 

ADELAIDE HANSCOM (Norte-americana, 1876-1932)
The Rubáiyát of Omar Khayyám[O Rubaiyat de Omar Khayyám]
Nova York: Dodge Publishing Company, 1905 | 20 x 26,5 cm | primeira edição | sem paginação | capa dura | publicado em três formatos: primeiro, com as fotografias em retícula sépia; segundo, com as fotografias em fotogravura sépia; terceiro, com as fotogravuras sobre papel de seda | texto traduzido para o inglês por Edward Fitzgerald

Em 1903, Adelaide Hanscom foi convidada a ilustrar com fotografias a tradução inglesa de 1859 feita por Edward Fitzgerald de O Rubaiyat,de Omar Khayyám, uma seleção de estrofes persas meditativas do século XI. As fotografias de Hanscom, impressas em gravura, realizadas em estilo pictorialista, iluminam os temas do poema – a transitoriedade humana, o misticismo e a espiritualidade. Hanscom recebeu uma medalha de prata na Liverpool Exposition, na Inglaterra, por sua contribuição fotográfica. Infelizmente, muitas das chapas secas de vidro dos negativos das fotografias do livro foram destruídas durante o terremoto de São Francisco de 1906, o que tornou o livro a única fonte remanescente dessas imagens.

 

 

MABEL EARDLEY-WILMOT (Britânica, 1861-1958)

The Light of Asia or the Great Renunciation[A luz da Ásia ou a grande renúncia]
Londres: Kegan Paul, Trench, Trübner & Co., 1908 | 15 x 22,5 cm | 158 pp. | capa dura | texto em inglês de sir Edwin Arnold

No início do século XX, Mabel Eardley-Wilmot contribuiu com fotografias utilizadas como ilustrações em diversos livros de poesia associados à Ásia que apresentavam ideologias orientais ao mundo ocidental por meio da combinação entre palavra e imagem. Um poema narrativo épico, The Light of Asia, escrito por sir Edwin Arnold e publicado pela primeira vez em 1879, apresenta ideias budistas a um público de língua inglesa ao contar a vida de Gautama Buda. Sua publicação estimulou uma fascinação crescente pela Ásia dentro da sociedade ocidental e, em 1908, Eardley-Wilmot colaborou na primeira edição da obra ilustrada com fotografias, criando uma contribuição significativa para o nascente formato de livro de fotopoesia.


1920-1935: A nova mulher

JULIA MARGARET CAMERON (Britânica, nascida na Índia, 1815-1879)
Victorian Photographs of Famous Men and Fair Women[Fotografias vitorianas de homens famosos e belas mulheres]
Londres/Nova York: Hogarth Press/Harcourt, Brace and Company, 1926 | 26 × 32 cm | edição de 700 exemplares: 450 cópias britânicas e 250 cópias norte-americanas | 15 pp. de texto com 24 pranchas não paginadas | capa dura (edição norte-americana em luva) | textos em inglês de Virginia Woolf e Roger Fry (edição de 1973 em exibição)

Quarenta e sete anos após a morte de Cameron, Virginia Woolf e Roger Fry publicaram esta coletânea de seus retratos de figuras célebres da Grã-Bretanha, muitas delas amigas e amigos.

 

ALICE BOUGHTON (Norte-americana, 1866-1943)
Photographing the Famous[Fotografando os famosos]
Nova York: The Avondale Press, 1928 | 19 x 30 cm | primeira edição | 111 pp. | capa dura | texto em inglês de Alice Boughton e prefácio James L. Ford.

Uma proeminente fotógrafa pictorialista e de retratos radicada em Nova York, Boughton encarnou, tanto em sua vida quanto em sua obra, o movimento da Nova Mulher dos anos 1920. Photographing the Famous é uma coletânea de 28 retratos de celebridades feitos em seu estúdio, um dos primeiros a ter uma mulher como proprietária e gestora. Abaixo de cada fotografia aparece a assinatura da pessoa retratada, incluída como se fosse um livro de autógrafos. Na página oposta a cada retrato, Boughton contribui com textos detalhados sobre a experiência de conhecer e fotografar cada figura ilustre.

 

HEDDA WALTHER (Alemã, 1894-1979)
Mutter und Kind: 48 Bildnisstudien[Mãe e criança: 48 estudos de retratos]
Berlim: Dietrich Reimer (Ernst Vohsen), 1930 | 18,5 x 26 cm | 15 pp. de texto, 48 pp. de fotografias | capa dura | texto em alemão de Ina von Kardorff

Simpatizante do nazismo, Walther lançou Mutter und Kind em 1930. Seu conteúdo sentimental e propagandístico, visto no contexto do Partido Nacional-Socialista na Alemanha, promovia a maternidade como principal fonte de alegria e realização para a mulher. Essa mensagem é celebrada por meio de fotografias idílicas de mulheres com crianças pequenas que brincam ao ar livre na natureza, aprendem a caminhar e olham com inocência para a câmera. O livro lança luz sobre os potenciais usos políticos da fotografia nesse período.

 

LOTTE ERRELL (Alemã, 1903-1991)
Kleine Reise zu schwarzen Menschen[Pequena viagem a pessoas negras]
Berlim: Brehm Verlag, 1931 | 17,5 x 22 cm | 88 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em alemão de Lotte Errell

Kleine Reise zu schwarzen Menschen, que Lotte Errell publicou após uma viagem a Gana em 1928, ganhou reconhecimento internacional em razão do crescente interesse pela etnologia amadora durante o entreguerras. A obra apresenta 48 fotografias do povo Ewe, na cidade de Helekpe, em sua maioria mulheres e crianças, e o extenso texto de Errell fornece detalhes sobre suas vidas e tradições, retratando indivíduos com dignidade e respeito. Contudo, quase um século depois, a perspectiva colonialista do livro é reconhecida como problemática. Assim como em outros fotolivros de fotógrafos europeus ativos na primeira metade do século XX, Errell documenta a partir de uma posição de poder, de forma intencional ou não, e contribui para uma representação distorcida do continente africano.

 

MARGARET BOURKE-WHITE (Norte-americana, 1904-1971)
Eyes on Russia[Olhos sobre a Rússia]
Nova York: Simon & Schuster, 1931 | 28,5 × 20 cm | primeira edição | 135 pp. | capa dura | texto em inglês de Margaret Bourke-White e prefácio de Maurice Hindus

Eyes on Russia documenta as viagens de Margaret Bourke-White pela União Soviética industrial no início da década de 1930. A primeira fotógrafa profissional ocidental credenciada a viajar pelo país, Bourke-White, já conhecida por suas imagens impactantes de máquinas e pontes, registrou a corrida da URSS rumo à industrialização sob Stálin. O livro alterna texto e imagens, com uma fotografia por página, emoldurada por uma borda preta. As fotos capturam trabalhadores e suas máquinas, enquanto vistas distantes mostram silhuetas de edifícios industriais, pontes ou maquinário contra nuvens tempestuosas. Eyes on Russia apresenta uma colaboração otimista entre o homem e a máquina.

 

DORIS ULMANN (Norte-americana, 1882–1934)
Roll, Jordan, Roll
Nova York: Robert O. Ballou, 1933 | 16 x 22 cm | primeira edição | 251 pp. | capa dura com sobrecapa em fac-símile | texto em inglês de Julia Peterkin

A fotógrafa norte-americana Doris Ulmann, formada dentro do pictorialismo, tornou-se bastante conhecida por seus retratos de artistas e escritores e por seus estudos de músicos e artesãos dos Apalaches. Em 1933, ela lançou Roll, Jordan, Roll, um livro sobre uma comunidade Gullah no sul dos Estados Unidos composta por pessoas negras livres de segunda e terceira geração, descendentes de pessoas escravizadas. Combinadas ao texto de Julia Peterkin, as imagens de Ulmann retratam homens, mulheres e crianças em suas atividades cotidianas. Empática em seu olhar, muitas de suas fotografias apresentam uma crítica social às duras condições enfrentadas pelos Gullah.

 

HANNAH HÖCH (Alemã, 1889-1978)
Sammelalbum[Álbum de recortes]
Berlim: autopublicado, 1933 | 28 x 36 cm | sem paginação | álbum único de colagens e páginas de revistas (reprodução fac-símile de 2004 em exibição)

Única integrante mulher do grupo dadaísta berlinense e pioneira do movimento de mulheres na Alemanha, Hannah Höch esteve entre as primeiras artistas a utilizar a fotomontagem para criar obras marcantes com uma sensibilidade moderna. Seu autopublicado Sammelalbum mistura retratos de mulheres famosas com anúncios de artigos domésticos e fotografias de moda, animais, plantas, bebês e crianças, dançarinas e ginastas nuas que aludem à Nacktkultur, movimento naturista alemão voltado às mulheres. A data de 1933 desse álbum único coincide com a ascensão do Partido Nacional-Socialista, que considerava Höch e seus pares de vanguarda como “artistas degenerados” e os reprimiu com brutalidade.


1936-1945: Levantando suas vozes

MARGARET BOURKE-WHITE (Norte-americana, 1904-1971)
You Have Seen Their Faces [Vocês já viram seus rostos]
Nova York: The Viking Press, 1937 | 21 x 30 cm | primeira edição | 190 pp. | capa dura com sobrecapa | texto de Erskine Caldwell (edição de 1937 em brochura em exibição)

Uma colaboração influente, e por vezes radical, em forma de fotolivro documental entre a fotógrafa Margaret Bourke-White e seu futuro marido, o escritor político Erskine Caldwell, You Have Seen Their Faces provocou tanto admiração quanto críticas por sua discussão explícita sobre injustiça racial e pobreza rural no chamado Sul Profundo dos Estados Unidos durante a Grande Depressão. Com foco nas questões de classe e nas lutas raciais de meeiros brancos e negros, o livro constrói um panorama nuançado e humanista da desigualdade, refletindo as visões políticas progressistas de Bourke-White e Caldwell. Ao longo de uma viagem de 18 meses da Carolina do Sul até o Arkansas, o casal fotografou e entrevistou meeiros realizando trabalhos extenuantes sob condições extremas.

BERENICE ABBOTT (Norte-americana, 1898-1991)
Changing New York [Nova York em transformação]
Nova York: E.P. Dutton & Company, 1939 | 22,5 x 29 cm | primeira edição | 206 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de Elizabeth McCausland e prefácio de Audrey McMahon (edição de 1973 em brochura em exibição)

Ainda que Berenice Abbott tenha começado a fotografar a cidade de Nova York em 1929, somente em 1935 ela propôs documentar a transformação da cidade ao Federal Art Project (FAP), o braço da Works Progress Administration que empregava artistas visuais após a Grande Depressão. Com o apoio do FAP, Abbott passou quatro anos fotografando novos e antigos espaços urbanos. Changing New York, seu livro inovador, registra a evolução arquitetônica da cidade na década de 1930, quando o planejamento urbano demoliu bairros do século XIX para dar lugar a arranha-céus modernos.

JETTE BANG (Dinamarquesa, 1914-1964)
Grønland [Groenlândia]
Copenhague: Det Grønlandske Selskab/Steen Hasselbalchs Forlag, 1940 | 22,5 x 26,5 cm | 189 pp. | capa dura | textos em dinamarquês de Jette Bang, prefácio de Thorvald Stauning e introdução de Knud Oldendow

Grønland recebeu amplo reconhecimento por sua documentação inovadora e empática da Groenlândia e de seus povos indígenas inuítes. A representação que Bang faz dos inuítes adota uma perspectiva humanista, enfatizando suas personalidades, emoções e relações. À época da publicação, o modo de vida e os costumes tradicionais inuítes estavam se transformando devido à influência de práticas europeias modernas. Essas transformações socioculturais e a falta de familiaridade do público com a Groenlândia motivaram a fotógrafa a empreender uma exploração de oito meses pela região, abrindo uma janela para a riqueza humana de um território glacial relativamente pouco visto.

BARBARA MORGAN (Norte-americana, 1900-1992)
Martha Graham: Sixteen Dances in Photographs [Martha Graham: dezesseis danças em fotografias]
Nova York: Duell, Sloan and Pearce, 1941 | 26,5 x 30 cm | primeira edição | 160 pp. | capa dura com sobrecapa | textos em inglês de George Beiswanger, Martha Graham, Louis Horst e Barbara Morgan

Barbara Morgan desenvolveu um interesse pela dança moderna após assistir, em 1936, a uma apresentação da pioneira americana da dança moderna Martha Graham. Cinco anos depois, em 1941, ela lançou Martha Graham: Sixteen Dances in Photographs, um fotolivro que explora a relação expressiva entre a dança e as artes visuais. Estruturado em torno de 16 danças apresentadas pela companhia de Graham, o livro reúne fotografias em preto e branco de alto contraste que destacam, em detalhe, a paixão e os movimentos das dançarinas – como se vê nas imagens em que rostos e torsos aparecem bem iluminados enquanto o restante de seus corpos permanece em uma escuridão abstrata.

THÉRÈSE BONNEY (Norte-americana, 1894-1978)
Europe’s Children: 1939 to 1943 [As crianças da Europa: 1939-1943]
Nova York: autopublicado, 1943 | 22 x 28,5 cm | primeira edição | sem paginação | brochura com sobrecapa | texto em inglês de Thérèse Bonney

Europe’s Children: 1939 to 1943 oferece um testemunho sem censura dos horrores suportados por milhões de crianças em toda a Europa Ocidental durante a Segunda Guerra Mundial. Iniciado em 1939 e autopublicado em 1943 pela fotojornalista norte-americana Thérèse Bonney, o livro reúne 62 fotografias que começam com cenas de meninas e meninos felizes apreciando livros ilustrados, frequentando a escola e compartilhando momentos de ternura com suas famílias. Aos poucos, o livro desvela as atrocidades da guerra, à medida que as crianças retratadas enfrentam fome, pobreza e falta de moradia em alojamentos superlotados. Bonney faz um apelo emocionado à ação, um pedido moral por assistência internacional à Europa, ao mostrar a devastação da guerra sobre os mais vulneráveis da sociedade.

TONI FRISSELL (Antoinette Frissell Bacon, Norte-americana, 1907-1988)
A Child’s Garden of Verses [Um jardim de versos para crianças]
Nova York: U.S. Camera Publishing Corp., 1944 | 22,5 x 27,5 cm | primeira edição | 95 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de Robert Louis Stevenson

Antoinette Frissell Bacon, conhecida como Toni Frissell, passou vários anos fotografando seus filhos e seus amigos nos círculos sociais privilegiados de Nova York. Uma seleção dessas fotografias constitui a base de suas ilustrações para uma edição de A Child’s Garden of Verses, clássico da literatura infantil de Robert Louis Stevenson. A abordagem inovadora de Frissell resultou na primeira edição fotoilustrada do livro, e as resenhas elogiaram a modernização dos poemas por meio de suas imagens. Sua sensibilidade direta e sem adornos ajuda a esclarecer o sentido ou o tema de cada poema para o jovem leitor. As imagens são uma exploração estética das alegrias e dos desafios da infância.

ESLANDA CARDOZO GOODE ROBESON (Norte-americana, 1895-1965)
African Journey [Jornada africana]
Nova York: The John Day Company, 1945 | 15 x 21,5 cm | 154 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de Eslanda Cardozo Goode Robeson

A antropóloga e fotógrafa afro-americana Eslanda Cardozo Goode Robeson publicou African Journey – um dos primeiros livros escritos sobre a África por uma pesquisadora negra norte-americana – após uma viagem de 1937 de Londres à África subsaariana com seu filho de nove anos. Grande parte do sucesso da publicação à época de seu lançamento pode ser atribuído ao crescente interesse de pessoas afro-americanas pela política e pela cultura africanas durante a década de 1940, quando pan-africanistas defendiam um vínculo inquebrantável entre a diáspora africana e o continente.

LEE MILLER (Norte-americana, 1907-1977)
Wrens in Camera [As Wrens em foco]
Londres: Hollis and Carter, 1945 | 19,5 x 25,5 cm | primeira edição | 79 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de Lee Miller e introdução por Vera Laughton Mathews, D.B.E.

Lee Miller, fotógrafa de moda e de belas-artes que também atuou como correspondente de guerra da revista Vogue, celebra as contribuições femininas durante a guerra em seu livro de 1945. Wrens in Camera documenta as britânicas do Women’s Royal Navy Service (WRNS) [Serviço Naval Real Feminino], mais conhecidas como Wrens. Essas mulheres militares eram responsáveis por tarefas que incluíam a operação de telégrafos sem fio, análise de armamentos e pilotagem de aviões de transporte. Miller retrata as Wrens como mulheres fortes e capazes, cuja feminilidade é ao mesmo tempo convencional e heterodoxa. Sua investigação sobre gênero e trabalho em tempos de guerra se expressa tanto nas palavras quanto nas fotografias, que enfatizam suas contribuições para o esforço de guerra.


1946-1955: Das cinzas à família

LAURA GILPIN (Norte-americana, 1891-1979)
The Rio Grande: River of Destiny [O rio Grande: rio de destino]
Nova York: Duell, Sloan and Pearce, 1949 |20,5 x 27,5 cm | 243 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de Laura Gilpin | mapas desenhados por Woode Bossemeyer

Um tributo à paisagem do sudoeste norte-americano, Gilpin lembra ao leitor a interconexão entre terra, rio e pessoas. Organizado de forma livre segundo a geografia, Gilpin, residente de Santa Fé, Novo México, acompanha o trajeto de 2.900 quilômetros do rio Grande, desde a sua nascente no Colorado até o Golfo do México. Por meio de fotografias e da prosa, Gilpin atua como uma geógrafa cultural imersa no espírito da terra e no poder da natureza como força modeladora da cultura humana.

ANNA RIWKIN-BRICK (Russo-sueca, 1908-1970)
Elle Kari
Estocolmo: Rabén & Sjögren, 1951 | 17 x 21,5 cm | sem paginação | capa dura | texto em sueco de Elly Jannes (edição em inglês de 1956 reimpressa em 1962 em exibição)

Este livro infantil conta a história de Elle, uma menina indígena da Lapônia de três anos de idade. Com a missão de promover a tolerância e a valorização das diferenças e semelhanças da humanidade, Elle Kari concentra-se nos rituais cotidianos e anuais da vida em uma aldeia sámi. As cenas mostram Elle lavando as mãos em uma bacia de metal, abraçando uma cabra ou tentando laçar uma vaca. O texto é escrito em linguagem clara e concisa para explicar as roupas, as casas e as tradições dos sámi ilustradas nas fotografias de uma forma envolvente e compreensível para crianças pequenas.

LOLA ÁLVAREZ BRAVO (Mexicana, 1903-1993)
Acapulco en el sueño [Acapulco em sonho]
Cidade do México: Imprenta Nuevo Mundo, 1951 | 24 x 29,5 cm | primeira edição, 7.000 exemplares | sem paginação | capa dura com sobrecapa | texto em espanhol de Francisco Tario (edição fac-símile de 1993 em exibição)

Uma colaboração com o escritor mexicano e morador de Acapulco Francisco Tario, Acapulco en el sueño supõe-se ter sido produzido para um público de turistas dos anos 1950. O livro explora o litoral de Acapulco por meio de fotografias com iluminação dramática e prosa vibrante que exibem o esplendor e o fascínio da paisagem e das atrações da cidade. Tario e Álvarez Bravo, que se tornaria uma das fotógrafas mais celebradas do México, apresentam a terra e a água de Acapulco como algo vivo, que respira e se move, uma visão ainda mais intensificada pela forte presença física e intelectual de sujeitos em pleno controle de seus corpos.

FINA GÓMEZ REVENGA (Venezuelana, 1920-1997)
Fotografías de Fina Gómez Revenga
Paris: Draeger Frères, 1954 | 29 x 40 cm | tiragem de 3.055 exemplares | sem paginação | capa dura com sobrecapa impressa acoplada | poemas de Lise Deharme | tradução para o espanhol de Alejo Carpentier

Impressa pela renomada gráfica francesa Draeger Frères, em Paris, numa tiragem de 3.055 exemplares, Fotografías reúne imagens da pioneira fotógrafa venezuelana Fina (Josefina) Gómez Revenga com poemas da poeta surrealista francesa Lise Deharme para tecer uma narrativa sensorial e onírica que abrange uma ampla variedade de temas. Publicado em 1954, quando o papel ainda era um insumo caro e escasso após o período de racionamento decorrente da Segunda Guerra Mundial, Fotografías não economiza em sua produção, utilizando papel Viélin Hélio de alta qualidade para a edição principal e papel Licorne, das prestigiadas papelarias Marais, para 55 exemplares de edição especial.

NELL DORR (Norte-americana, 1893-1988)
Mother and Child [Mãe e filho]
Nova York: Harper and Brothers, 1954 | 18 x 21,5 cm | sem paginação | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de Nell Dorr (edição de 1972 em exibição)
Em Mother and Child, Dorr captura o vínculo íntimo entre mãe e filho. Iniciado durante a Segunda Guerra Mundial, quando Dorr morava com suas filhas e netos em New Hampshire, o livro combina fotografias em preto e branco, muitas delas de membros de sua família, com sua poesia para explorar o “mistério divino” das conexões maternas.

DOMINIQUE DARBOIS (Francesa, 1925-2014)
Agossou: Le Petit Africain [Agossou: o pequeno africano]
Paris: Fernand Nathan, 1955 | 22 x 26,5 cm | sem paginação | capa dura | texto em francês de Dominique Darbois

Parte da série Les Enfants du Monde [Crianças do mundo], Agossou apresenta fotografias em preto e branco da vida de um jovem menino africano em um projeto gráfico inventivo. Embora Darbois, que começou a fotografar profissionalmente como fotojornalista no Camboja, em 1946, declarasse aversão a perspectivas colonialistas, Agossou à primeira vista não escapa da narrativa visual que era a norma nos anos 1950. No entanto, quando visto no contexto da história pessoal de Darbois, que inclui sua participação na resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial e a oposição pública às políticas colonialistas na Indochina, na Argélia e em Cuba, o propósito inclusivo de Agossou torna-se mais evidente.

INGE MORATH (Austro-americana, 1923-2002)
Guerre à la tristesse (Fiesta in Pamplona) [Guerra à tristeza (Festa em Pamplona)]
Paris: Robert Delpire, 1955 | 23 x 28,5 cm | 129 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em francês de Dominique Aubier | fotografias adicionais de Chapresto, Galle, Lusby, Nisberg, Roldane e Zubieta y Retegui | parte da série Collection Neuf

Apoiado pelo texto de Dominique Aubier sobre a região catalã da Espanha e os rituais das touradas, Guerre à la tristesse narra o histórico Festival de San Fermín em Pamplona, na Espanha, que culmina com a corrida de touros. As imagens e o texto expressam a paixão da fotógrafa e da escritora pela Espanha e por seu povo. Com vistas públicas e de bastidores, as autoras obtiveram acessos raramente concedidos a mulheres para documentar a transformação de um matador – de homem comum a guerreiro em sua batalha contra o touro.


1956-1964: Livros como bombas

EMMY ANDRIESSE (Holandesa, 1914-1953)
Beeldroman [Romance em imagens]
Haia: Bert Bakker/Daamen, 1956 | 20 x 29 cm | primeira edição | 105 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em holandês de J.B. Charles

Em Beeldroman, a fotógrafa holandesa Emmy Andriesse narra a história da Europa do pós-guerra por meio de uma série de retratos comoventes, reafirmando a dignidade, a força e a beleza dos diversos povos do continente após a devastação da Segunda Guerra Mundial. O livro foi publicado postumamente, em 1956, após a morte prematura de Andriesse por câncer aos 39 anos. O projeto de Beeldroman foi realizado por Dick Elffers, marido de Andriesse, que selecionou as imagens do livro a partir de um portfólio que a fotógrafa havia reservado em uma gaveta de sua mesa antes de morrer. A publicação permanece como um testemunho do notável, e por vezes radical, senso de empatia de Andriesse como fotógrafa documental ao longo de sua breve carreira.

HENRIETTE GRINDAT (Suíça, 1923-1986)
Algérie [Argélia]
Lausanne: La Guilde du Livre/Editions Claire Fontaine, 1956 | 22 x 28 cm | 88 pp. | brochura com sobrecapa | texto em francês de Jean Amrouche, com citações de André Gide, do Corão e de outros autores

Em Algérie, um registro dos monumentos, das paisagens e das pessoas do Norte da África, Grindat subverte as convenções do “mundo árabe exótico” feito para o entretenimento de leitores europeus. O livro questiona o sistema colonial, ao mesmo tempo que oferece um cuidadoso percurso fotográfico pelo país. Ao acentuar a natureza desorientadora da luz do sol – por meio de fotografias de alto contraste que intensificam a severidade percebida da luminosidade –, Grindat sugere sua posição de estrangeira em uma terra alheia.

VIVIENNE (Florence Mellish Entwistle) (Britânica, 1889-1982)
They Came to My Studio: Famous People of Our Time [Eles vieram ao meu estúdio: pessoas famosas do nosso tempo]
Londres: Hall Publications, 1956 | 24,5 x 31 cm | primeira edição | 172 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de sir Beverley Baxter, A. George Hall, Tyrone Power, John Loder e Anton Dolin

Este livro é uma representação afetuosa da cultura de celebridades de meados do século XX, apresentando estrelas de cinema, políticos e membros da classe dirigente inglesa. Vivienne, que iniciou sua carreira em idade relativamente tardia – aos 50 anos – alcançou um nível de fama profissional na sociedade britânica atingido por pouquíssimos fotógrafos. Orgulhava-se de ser uma “criadora de estrelas” e tinha a capacidade de produzir em suas fotografias a aura da celebridade por meio de iluminação, figurino e ambientação. Cada retrato é acompanhado por um breve texto bem-humorado e em tom de “fofoca” escrito pela fotógrafa, descrevendo sua experiência com a pessoa retratada.

DARE WRIGHT (Canadense-americana, 1914-2001)
The Lonely Doll [A boneca solitária]
Garden City, Nova York: Doubleday & Company, 1957 | 23,5 x 32 cm | sem paginação | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de Dare Wright

Este livro acompanha uma boneca chamada Edith enquanto ela escapa da banalidade de sua vida reclusa com a ajuda de dois ursos de pelúcia. Juntos, eles percorrem uma versão glamorosa da cidade de Nova York, entrando em confusões ao longo do caminho. Wright desenvolveu a história com sua afilhada de seis anos, que passava fins de semana brincando de se fantasiar com as roupas do guarda-roupa da autora. A narrativa se desenrola por meio de tableaux fotográficos de humor levemente sombrio, protagonizados pela própria boneca de infância da autora. Quando o livro foi publicado, tornou-se um sucesso imediato de vendas e foi seguido por mais nove volumes que registram as aventuras de Edith.

RUTH BERNHARD (Alemã-americana, 1905-2006)
The Big Heart [O grande coração]
São Francisco: Fearon Publishers, 1957 | 18 x 26 cm | primeira edição | 77 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de Melvin Van Peebles

The Big Heart documenta o percurso de um bondinho de São Francisco e seu principal protagonista, o maquinista Melvin Van Peebles – que depois se tornaria um renomado ator e cineasta negro –, em uma série de instantâneos espontâneos e informais. Trata-se de um retrato afetuoso do sistema de bondes de São Francisco e de seu público diverso, com foco nos momentos de ternura que ocorrem em espaços públicos. O leitor também descobre que a Municipal Railway of San Francisco era, à época, uma das únicas forças de trabalho de transporte público integradas do país. Apesar de possuir diploma universitário e de ter servido como piloto na Força Aérea, o único emprego que Van Peebles conseguiu foi como maquinista.

LORI SAMMARTINO (Italiana, 1924-1971)
La domenica degli italiani [O domingo dos italianos]
Milão: Minerva, 1961 | 22 x 28,5 cm | primeira edição | 120 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em italiano de Ennio Flaiano (edição de 2009 em exibição)

Como é um domingo típico na Itália? Em 1961, Sammartino saiu às ruas de várias cidades italianas para responder a essa pergunta. O corpo de trabalho resultante situa-se entre um estudo sociológico e um filme neorrealista em sua representação da cultura italiana após a devastação da Segunda Guerra Mundial. Documentando uma ampla variedade de situações – reuniões familiares, cerimônias religiosas, eventos esportivos –, o livro busca tipificar a experiência urbana na Itália durante um período de estabilidade econômica. Ele evidencia um senso de otimismo e leveza centrais à sensibilidade cultural italiana.

EVA FUKOVÁ (Tcheco-americana, 1927-2015)
Eva Fuková
Praga: SNKLU− Státní Nakladatelství Krásné Literatury a Umění, 1963 | 15,5 x 17,5 cm | primeira edição, 4.000 exemplares | 16 pp. de texto com 62 pranchas numeradas | brochura | texto em tcheco de Emanuel Frynta, com notas biográficas em russo, francês e alemão | parte da série Edice Umělecká Fotografie, v. 20

Eva Fuková é fruto de Praga e da longa tradição de pensamento mágico da cidade. Nascida e criada ali, ela recorre à sua história neste livro homônimo. Utilizando truques fotográficos simples de iluminação e composição, Fuková apresenta Praga por meio de uma lente surrealista, que revela a magia presente mesmo nos aspectos mais cotidianos da vida urbana. Uma de suas qualidades mais notáveis como artista é a capacidade de fazer fotografias, em vez de simplesmente capturar imagens de forma passiva. Essa abordagem gera composições inesperadas que, com frequência, distorcem a escala dos sujeitos, produzindo um efeito semelhante a um globo de neve, que depois é manipulado na câmara escura para intensificar uma sensação de estranhamento ao expor determinadas áreas da fotografia mais do que outras.


1965-1969: Nostalgia, pop e revolução

EMILA MEDKOVÁ (Tcheca, 1928-1985)
Emila Medková
Praga: SNKLU − Státní Nakladatelství Krásné Literatury a Umění, 1965 | 15,5 x 17,5 cm | tiragem de 1.500 exemplares | 30 pp. de texto com 61 pranchas numeradas | brochura | texto em tcheco de Jan Kříž, com notas biográficas em russo, francês e alemão | parte da série Edice Umělecká Fotografie, v. 24

Na década de 1950, a fotógrafa tcheca Emila Medková abandonou suas composições surrealistas anteriores em favor de uma abordagem mais errante, começando a buscar com sua câmera “objetos eloquentes na cidade, nas ruas que percorria diariamente”. As 61 fotografias de Emila Medková vão de imagens narrativas a fotografias mais abstratas, que se abrem a interpretações mais livres – propondo uma tensão intermediária entre o lúdico de suas primeiras composições surrealistas e a sobriedade mais impassível de sua produção posterior. Várias das imagens do livro ainda incluem seu interesse inicial por elementos surrealistas, mas, em sua maior parte, elas se concentram na textura das superfícies, mais do que em cenas com profundidade de campo ou narrativa.

HENRIETTE GRINDAT (Suíça, 1923-1986)
La Postérité du soleil [A posteridade do sol]
Genebra: Edwin Engelberts, 1965 | 42,5 × 31,5 cm | edição numerada e assinada de 123 exemplares | 139 folhas dobradas | fólio solto em caixa | texto em francês de Albert Camus e René Char (edição de 1986 em exibição)

Testamento de uma amizade forjada na França do pós-guerra e da pós-libertação, bem como uma meditação sobre a relação com o lugar e o território, La Postérité du soleil é uma colaboração poética entre o escritor francês nascido na Argélia Albert Camus, o poeta e líder da Resistência Francesa René Char e a fotógrafa suíça Henriette Grindat. Inicialmente lançada como uma publicação de edição limitada, a obra é um tributo à cidade de L’Isle-sur-la-Sorgue e à região de Vaucluse, na França, onde os autores passaram um tempo após o fim da Segunda Guerra Mundial.

ZOFIA RYDET (Polonesa, 1911-1997)
Mały człowiek [Pequeno homem]
Varsóvia: Wydawnictwo Arkady, 1965 | 19,5 x 25 cm | 145 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em polonês, francês, inglês e russo de Janusz Korczak

Mały człowiek, um dos fotolivros poloneses mais famosos, baseia-se na primeira série abrangente de Zofia Rydet, que apresenta crianças a partir da sensibilidade de uma engajada documentarista humanista. Realizadas entre 1952 e 1963, durante suas viagens à Albânia, Bulgária e Tchecoslováquia, bem como na Polônia, essas fotografias retratam crianças com a seriedade que normalmente se reserva aos adultos. O livro também se destaca por seu projeto gráfico, assinado por Wojciech Zamecznik, que desenvolveu um layout pontuado por padrões gráficos de tamanhos variados, especialmente notáveis na capa.

CLARA SIPPRELL (Canadense-americana, 1885-1975)
Moment of Light [Momento de luz]
Nova York: The John Day Company, 1966 | 27 × 20,5 cm | sem paginação | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de Clara Sipprell e introdução de Elizabeth Gray Vining)

Um livro de fotografias pictorialistas poderia parecer um tanto ultrapassado em 1966, mas isso se relativiza se considerarmos que Moment of Light reúne retratos e uma pequena seleção de paisagens produzidas ao longo de seis décadas da longa e notável carreira de Clara Sipprell. Vários retratos são acompanhados por palavras da própria Sipprell, que revelam seu envolvimento com as pessoas retratadas. A fotógrafa e escritora Tee Corinne descreveu Sipprell como “uma mulher baixa e robusta que se via como alta e magra, […] fumava cigarros, charutos e cachimbos; gostava de bourbon e de dirigir conversíveis velozes”. Uma verdadeira Nova Mulher.

EVELYN HOFER (Alemã-americana, 1922-2009)
Dublin: A Portrait [Dublin: um retrato]
Londres/Sydney/Toronto: The Bodley Head, 1967 | 22 x 28,5 cm | 99 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de V. S. Pritchett

O retrato fotográfico de Dublin por Hofer transmite o clima da capital irlandesa por meio de sua história, de sua arquitetura e de um amplo conjunto de personagens. Acompanhadas pela prosa do renomado contista e escritor de viagens V. S. Pritchett, suas fotografias registram cenas urbanas tanto em fotogravuras em preto e branco quanto em reproduções coloridas de jardins, paisagens urbanas, interiores de igrejas e espaços domésticos silenciosos. Sua amplitude fotográfica é reforçada pelo contraste entre imagens do conforto da classe média e imagens da pobreza – dois extremos da vida em Dublin.

MAUREEN BISILLIAT (Brasileira, nascida na Inglaterra em 1931)
A João Guimarães Rosa
São Paulo: Gráficos Brunner, 1969 | 21 x 28 cm | primeira edição | 72 pp. | capa dura | texto em português de João Guimarães Rosa

Bisilliat percebeu que a fotografia, e não a pintura, lhe permitiria viajar e entrar em contato com diferentes pessoas após a leitura de um romance do autor brasileiro João Guimarães Rosa. Seu fotolivro é uma homenagem a ele e inclui frases curtas e evocativas de sua obra que, em vez de explicar, ampliam a poesia ambígua das imagens. Coleção meditativa e impactante de retratos e paisagens que descrevem a vida no sertão, as fotografias alternam entre rostos solenes e marcados pelo tempo, naturezas-mortas silenciosas e vistas externas de alto contraste.

ROSEMARIE CLAUSEN (Alemã, 1907-1990)
Samuel Beckett inszeniert das “Endspiel” [Samuel Beckett encena “Fim de partida”]
Frankfurt: Suhrkamp, 1969 | 28,5 x 20,5 cm | primeira edição, 2.000 exemplares | 113 pp. | capa dura com abas | texto em alemão de Samuel Beckett e Michael Haerdter | tradução do inglês por Elmar Tophoven

Estas fotografias de uma montagem teatral da peça Fim de partida, de Samuel Beckett, apresentada em Berlim em 1967, são registros evocativos da ação em cena e captam o dinamismo e a teatralidade tanto dos atores quanto da cenografia e dos elementos de palco. Nascida perto de Berlim, Clausen foi fotógrafa de retrato e de teatro. Ela integrou um grupo de fotógrafas que não temiam a perseguição pelo Terceiro Reich, uma vez que seus trabalhos se alinhavam aos usos e às demandas do Ministério da Propaganda nazista. Suas liberdades, conquistadas ao preço da conformidade, tinham forte contraste com as de muitas outras artistas e fotógrafas que foram perseguidas por serem judias ou pelo conteúdo de suas obras.


1970-1975: Sororidade em florescimento

IMOGEN CUNNINGHAM (Norte-americana, 1883-1976)
Imogen Cunningham: Photographs [Imogen Cunningham: fotografias]
Seattle/Londres: University of Washington Press, 1970 | 22,5 x 27,5 cm | sem paginação | capa dura com sobrecapa | introdução em inglês de Margery Mann

Em 1970, Cunningham publicou sua primeira monografia, aos 87 anos de idade. Panorama abrangente e cronológico de sua carreira multifacetada, o livro reúne 94 imagens em preto e branco que iluminam sua variedade estilística. Elas incluem estudos detalhados de plantas, nus, paisagens industriais, cenas de rua e retratos. O fato de terem sido necessários quase 70 anos até a publicação de uma monografia reflete a luta árdua que começou a ser enfrentada na década de 1970, quando várias fotógrafas do início do século XX enfim começaram a ser inscritas de forma mais permanente na história da fotografia.

JILL FREEDMAN (Norte-americana, 1939–2019)
Old News: Resurrection City [Velhas notícias: Cidade da Ressurreição]
Nova York: Grossman, 1970 | 23,5 x 28,5 cm | 138 pp. | brochura | texto em inglês de Jill Freedman

Na primavera de 1968, indignada com o assassinato de Martin Luther King Jr. e com a Guerra do Vietnã, Freedman deixou seu trabalho na cidade de Nova York para se juntar à Poor People’s Campaign [Campanha dos Pobres] no National Mall, em Washington. Com duração de dois meses, a campanha reuniu mais de três mil manifestantes de todo o país, que construíram e acamparam em um cortiço de compensado de madeira chamado Resurrection City [Cidade da Ressurreição]. Assumindo uma abordagem explicitamente política e ativista, Freedman fotografou os moradores de Resurrection City fazendo discursos, marchando em prédios governamentais, confrontando policiais, bem como realizando atividades cotidianas, como preparar comida, trocar roupas e participar de encontros sociais.

EUDORA WELTY (Norte-americana, 1909-2001)
One Time, One Place: Mississippi in the Depression, A Snapshot Album [Um tempo, um lugar: o Mississippi na Depressão, um álbum de instantâneos]
Nova York: Random House, 1971 | 21 × 20,5 cm | 111 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de Eudora Welty

No início de sua carreira, a premiada autora Eudora Welty passou a metade da década de 1930 viajando pelo Mississippi como publicitária da Works Progress Administration. Munida de uma câmera Rolleiflex, ela começou a fotografar a vida cotidiana e a revelar as imagens em sua cozinha. Essas fotografias, que mostram nossa humanidade compartilhada, permaneceram inéditas até 1971, quando uma série do Departamento de Arquivos e História do Mississippi levou a um renovado interesse por sua produção fotográfica. Welty supervisionou a concepção e o sequenciamento do livro, e seu ensaio introdutório destaca sua ligação com as fotografias, todas feitas no estado onde nasceu, cresceu e viveu toda a sua vida.

DIANE ARBUS (Norte-americana, 1923-1971)
Diane Arbus: An Aperture Monograph [Diane Arbus: uma monografia da Aperture]
Millerton/Nova York: Aperture Foundation, 1972 | 24 x 28,5 cm | primeira edição | 15 pp. de texto e pranchas sem paginação | brochura | texto em inglês de Diane Arbus a partir de entrevistas gravadas e escritos reunidos (edição de 2012 em exibição)

Publicado em 1972, um ano após seu suicídio aos 48 anos, este fotolivro marcou a primeira vez em que um número significativo de fotografias de Arbus foi apresentado a um público amplo. Proveniente da fotografia de rua do pós-guerra, com sua ênfase em instantâneos e em sujeitos fotografados de frente, grande parte da obra de Arbus se concentra em indivíduos muitas vezes marginalizados ou vistos como marginais pela sociedade norte-americana de meados do século XX, incluindo pessoas queer, drag queens, pessoas com deficiências intelectuais e físicas e artistas de circo. Embora Arbus seja muitas vezes elogiada por sua empatia em relação a seus retratados, seu trabalho também é criticado como voyeurístico. Sua visão continua a suscitar tanto elogios quanto críticas.

MARCIA HAFIF (Norte-americana, 1929-2018)
Pomona Houses [Casas de Pomona]
Nova York: Mother Lode, 1972 | 14 x 18 cm | tiragem de 300 exemplares | sem paginação | brochura

Marcia Hafif é mais conhecida por suas séries de pinturas minimalistas monocromáticas, a primeira das quais começou em 1972, no mesmo ano em que seu livro Pomona Houses foi publicado. Durante grande parte das décadas de 1970 e 1980, após uma residência de oito anos na Itália, Hafif concentrou-se em suas pinturas orientadas pelo processo, expondo de forma ampla na Europa. No entanto, por um breve período após seu retorno à sua Califórnia natal, em 1969, ela também trabalhou com fotografia, filme, desenho, escultura e instalações – muitos desses trabalhos incluindo texto e som. A obra de Hafif, incluindo Pomona Houses, é franca, pessoal e profundamente envolvida com o processo e a materialidade. Ela nasceu e foi criada em Pomona e cursou a universidade na mesma cidade. As imagens deste livro, feitas com uma câmera de 35 mm, são o resultado de uma busca por grandes casas vitorianas de madeira em Pomona que se assemelhassem à casa de sua avó, demolida durante o período em que Hafif esteve na Itália.

LOUISE E. JEFFERSON (Norte-americana, 1908-2002)
The Decorative Arts of Africa [As artes decorativas da África]
Nova York: The Viking Press, 1973 | 22 x 28,5 cm | 191 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de Louise E. Jefferson | fotografias e ilustrações de Louise E. Jefferson e outros

Embora não se considerasse fotógrafa de profissão, Jefferson carregava regularmente uma câmera, tendo deixado, ao morrer, um arquivo de aproximadamente cinco mil fotografias. The Decorative Arts of Africa é resultado de uma pesquisa que realizou em cinco viagens ao continente africano nas décadas de 1960, durante as quais visitou mais de uma dúzia de países. O livro foi pesquisado e publicado quando o estudo da arte africana ainda era um campo emergente. As cerca de 300 fotografias e ilustrações do volume enfocam padrões, motivos e objetos criados para uma ampla variedade de usos e permitem comparações e conexões entre culturas e regiões.

ABIGAIL HEYMAN (Norte-americana, 1942-2013)
Growing up female: a personal photojournal [Crescer mulher: um fotojornal pessoal]
Nova York/Chicago/São Francisco: Holt, Rinehart and Winston, 1974 | 19 x 25 cm | primeira edição | sem paginação | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de Abigail Heyman e outras pessoas

Publicado em 1974, durante a segunda onda do feminismo norte-americano, este livro marcante é um retrato franco do que significa ser mulher nos Estados Unidos. Em uma época em que a maioria dos fotojornalistas atuava como observadores, Heyman descreve as maneiras pelas quais ser mulher moldou suas experiências e decisões, bem como sua compreensão de sua identidade e da forma como outras pessoas a viam. As mulheres em suas fotografias variam em idade e raça e são mostradas sozinhas e em grupo – como mães, filhas, amigas e parceiras. Suas atividades incluem de tudo: do trabalho ao lazer, de cenas cotidianas em casa a momentos extraordinários e vulneráveis.

ANNETTE MESSAGER (Francesa, nascida em 1943)
Les Tortures volontaires/Den frivillige tortur [As torturas voluntárias]
Copenhague: H.M. Bergs Forlag e Daner Galleriet, 1974 | 15 x 21 cm | tiragem de 600 exemplares | sem paginação | brochura | texto em francês e dinamarquês de Annette Messager

Uma coleção de imagens recortadas de revistas e anúncios que mostram mulheres submetendo-se a diversos procedimentos cosméticos ou rotinas de beleza. Com esses recortes em preto e branco, vinhetados, Messager explora como os corpos das mulheres são um lugar de violência. Cada imagem mostra uma mulher – ou, às vezes, apenas uma parte de seu corpo – se sujeitando a algum processo ou atividade relacionada à beleza. Muitas vezes isso envolve um aparato que, principalmente no contexto de um livro intitulado “torturas voluntárias”, sugere um dispositivo desagradável preso à perna ou ao seio de uma mulher e, por vezes, conectado a algo fora do enquadramento. O comentário explícito de Messager sobre a indústria da beleza e os padrões impostos às mulheres continua a ressoar hoje. Os dispositivos e procedimentos podem parecer um pouco diferentes, mas as imagens permanecem familiares.

ELSA DORFMAN (Norte-americana, 1937-2020)
Elsa’s Housebook: A Woman’s Photojournal [O livro doméstico de Elsa: um fotodiário de uma mulher]
Boston: David R. Godine, 1974 | 17 x 23 cm | 78 pp. | brochura | texto em inglês de Elsa Dorfman (edição de 2016 em brochura)

A profunda amizade de Dorfman com Allen Ginsberg e outros poetas e escritores beat é documentada neste livro. Ela os conheceu no início de sua carreira, enquanto trabalhava na Grove Press, onde era responsável por sua correspondência e agendas de leitura. Seu livro se lê como um verdadeiro “quem é quem” da Geração Beat. Parte livro de visitas e parte diário pessoal, apresenta uma coleção de fotografias que ela fez de amigos e visitantes – muitos deles escritores, músicos e outras figuras notáveis. Dorfman escreve sobre sua carreira e sobre as pessoas em suas imagens: como as conheceu e em que circunstâncias a visitaram em determinado dia.

STEFANIA BRIL (Polonesa-brasileira, 1922-1992)

Entre

São Paulo: Corset, 1974 | 21,5 × 28,5 cm | primeira edição | 145 pp. | capa dura | texto em português de Boris Kossoy e poemas manuscritos de Olney Krüse

Stefania Bril, fotógrafa que depois se tornaria também crítica de fotografia na imprensa, curadora e articuladora do cenário cultural, apresenta aqui sua leitura fragmentada da cidade, lançando um olhar desconfiado para a modernidade. Viadutos, muros, caminhões e pedestres aparecem como elementos de um fluxo urbano reorganizado na sequência das imagens. As fotografias, agrupadas em pares e sucessões, geram associações perceptivas no ato de folhear. O livro propõe uma experiência visual baseada nas relações entre as imagens, mais do que em um registro documental direto, explorando o ritmo e a montagem como princípios estruturantes da percepção urbana.

TONI MORRISON (Norte-americana, 1931–2019)
The Black Book [O livro negro]
Nova York: Random House, 1974 | 20,5 x 29 cm | 198 pp. | brochura | textos em inglês de Middleton A. Harris, Morris Levitt, Roger Furman e Ernest Smith | organização de Toni Morrison (edição de 2019 com capa dura em exibição)

Enquanto trabalhava na Random House, Morrison organizou The Black Book. A antologia, reunida por Middleton A. Harris, explora a história e a experiência de pessoas afro-americanas nos Estados Unidos por meio de diversos documentos históricos, fac-símiles, obras de arte, obituários, anúncios, pedidos de patente, fotografias e partituras musicais.

ÉVA BESNYŐ (Húngaro-holandesa, 1910-2003)
“Meid, wat ben ik bewust geworden” – Vijf jaar Dolle Mina [“Garota, como eu me tornei consciente” – Cinco anos de Dolle Mina]
Haia: Stichting Uitgeverij Dolle Mina, 1975 | 21 x 27,5 cm | primeira edição | 166 pp. | brochura | texto em neerlandês de Marjo van Soest | fotografias de Éva Besnyő e outras pessoas

Fotógrafa e também ativista no movimento feminista radical holandês dos anos 1970 Dolle Mina, Besnyő foi presença constante nos comícios e nas manifestações de rua do grupo. Misturando ativismo radical e arte conceitual, as ações do Dolle Mina assumiam diversas formas. Besnyő documenta cinco anos de seus protestos muitas vezes lúdicos e bem-humorados por igualdade salarial e direitos reprodutivos, entre outros objetivos. As fotografias capturam o coração de marchas, comícios e encontros, enfatizando a ligação íntima entre Besnyő e suas companheiras do Dolle Mina.


1976-1979: Políticas sexuais

EVE ARNOLD (Norte-americana, 1912-2012)
The Unretouched Woman [A mulher sem retoques]
Nova York: Alfred A. Knopf, 1976 | 23 x 28,5 cm | primeira edição | 196 pp. | brochura | texto em inglês de Eve Arnold

O primeiro livro de Arnold – um panorama de 25 anos de sua obra, publicado quando ela tinha 64 – apresenta imagens das experiências vividas por mulheres. Compartilhando seus interesses por moda, retrato e justiça social, Arnold percorre o mundo e aborda temas diversos, desde fotografias de celebridades como Marilyn Monroe até os movimentos pelos Direitos Civis e pelo Black Power. Arnold transporta o leitor dos Estados Unidos para a África do Sul, a Grã-Bretanha, a Espanha, o Caribe e a União Soviética. Suas fotografias acompanham as identidades profissionais e pessoais das mulheres, com Arnold retornando, em alguns casos, para fotografar a mesma pessoa ao longo de vários anos.

SARA FACIO (Argentina, 1932-2024)
ALICIA D’AMICO (Argentina, 1933-2001)
Humanario
Buenos Aires: La Azotea, 1976 | 27 × 28,5 cm | tiragem de 1.000 exemplares | 73 pp. | capa dura | texto em espanhol de Julio Cortázar e introdução de dr. Fernando Pagés Larraya

Este relato contundente sobre os hospitais psiquiátricos estatais da Argentina retrata a subjugação e a degradação impostas a pessoas com sofrimento mental. Na Argentina e em outras partes da América Latina, a internação institucional havia sido, por muito tempo, a única forma de tratamento destinada a quem vivia com transtornos mentais. Marginalizadas e consideradas “inaptas” para a sociedade, essas pessoas passavam a vida vegetando em condições abissais. As fotógrafas deliberadamente humanizam esse sofrimento como forma de inflamar o desejo de mudança. O livro inclui uma perspectiva de documentário social do psiquiatra Fernando Pagés Larraya e um breve ensaio de Julio Cortázar.

SUSAN MEISELAS (Norte-americana, nascida em 1948)
Carnival Strippers [Stripers de feira]
Nova York: Farrar, Straus and Giroux, 1976 | 26,5 x 23 cm | primeira edição | 148 pp. | capa dura com sobrecapa | textos e entrevistas em inglês de Susan Meiselas e outras pessoas (edição de 2003 em exibição)

Carnival Strippers expõe a linha tênue entre independência financeira e exploração de mulheres que realizavam stripteases em feiras itinerantes de pequenas cidades na zona rural da Nova Inglaterra. Ao longo de três verões consecutivos, de 1973 a 1975, Meiselas acompanhou essas feiras de cidade em cidade, realizando inúmeras fotografias e mais de 100 horas de entrevistas com dançarinas, empresários e apresentadores dos shows de striptease. Ela cria um retrato em múltiplas camadas das motivações e consequências para homens e mulheres em ambos os lados dos complexos intercâmbios sexuais que moldavam esses espetáculos.

CLAUDE BATHO (Francesa, 1935-1981)
le moment des choses… [o momento das coisas…]
Paris: Édition des Femmes, 1977 | 26,5 x 27 cm | 55 pp. | brochura | texto em francês de Irène Schavelzon

Fotografias de detalhes cotidianos dentro e ao redor dos espaços interiores da casa da fotógrafa descrevem um mundo doméstico privado, tipicamente associado às mulheres. Ao transformar a suposta insignificância do lar e da vida diária na história da arte, as imagens de Batho tornam-se uma exploração das mulheres e de sua memória coletiva e histórica. Ela compartilha momentos pessoais e silenciosos – flores em uma jarra no peitoril da janela, uma cortina de renda que cobre o rosto de uma criança, uma bacia plástica na pia da cozinha, a filha dormindo em um sofá – que reforçam a intimidade do lar e dos objetos que constituem a cultura material da memória familiar.

GISÈLE FREUND (Alemã-francesa, 1908-2000)
Mémoires de l’œil [Memórias do olho]
Paris: Seuil, 1977 | 21 x 29 cm | 141 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em francês de Gisèle Freund

As imagens de Mémoires de l’œil constituem uma rememoração da juventude de Freund, bem como uma história do caos político de meados do século XX. A maior parte das fotografias data de 1932 a 1954 e foi realizada em Frankfurt, Paris, Grã-Bretanha e México. Em parte memória pessoal de uma carreira extraordinária e em parte instantâneo de um período decisivo da história mundial, o livro reflete sua profunda compreensão da fotografia, assim como de sua história e de seu impacto sociológico.

ERICA LENNARD (Norte-americana, nascida em 1950)
Les Femmes, les sœurs [As mulheres, as irmãs]
Paris: Éditions des Femmes, 1976 | 72 pp. | textos em francês de Elisabeth Lennard e posfácio de Marguerite Duras

Uma ode visual à irmandade/sororidade, Les Femmes, les sœurs testemunha a relação especial entre a fotógrafa e sua irmã, Elisabeth. Por meio de um jogo narrativo entre texto e imagem, as irmãs registram e refletem sobre sua relação. Elisabeth é o sujeito dominante da lente de Erica, e imagens espontâneas e lúdicas dela comandam o livro. Realizadas no início da década de 1970, as fotografias traçam esse período singular de adolescência e início da vida adulta. Outras mulheres do círculo de Erica aparecem como figuras ora poderosas e sedutoras, ora imóveis e reflexivas.

GRETTA (Gretta Alegre Sarfaty) (Grega-brasileira, nascida em 1954)
Auto-photos: série Transformações – 1976: Diário de uma mulher – 1977
São Paulo: Massao Ohno, 1978 | 26,5 x 20 cm | tiragem de 1.000 exemplares | sem paginação | brochura com capa plástica | texto em português de Gretta | fotografias adicionais de Julio Abe Wakahara (edição de 2021 em exibição)

Artista brasileira nascida na Grécia, Gretta ganhou atenção pela primeira vez nos anos 1970 por suas fotografias, colagens, instalações e performances que reivindicavam a imagem feminina apropriada. Como proponente dos movimentos iniciais do feminismo e da body art, Gretta utilizou seu corpo como objeto e sujeito para distorcer representações estereotipadas da identidade feminina. Por meio da documentação exaustiva de suas performances, ela subverte o corpo feminino como “um símbolo da condição da mulher em nossa sociedade”. Rompendo a imagem social do feminino, a série Auto-photos constitui o primeiro uso que a artista faz da câmera como ferramenta criativa e uma de suas primeiras obras a focar a experiência feminina em sua carreira de quase cinco décadas. 

MARCIA RESNICK (Norte-americana, 1950-2025)
Re-visions [Re-visões]
Toronto: Coach House, 1978 | 28 x 22 cm | primeira edição | sem paginação | brochura | texto em inglês de Marcia Resnick

Resnick observa de maneira lúdica como a cultura norte-americana molda os corpos das mulheres em papéis generificados e normas prescritas. O livro retrata o processo pelo qual uma adolescente treina sua mente e seu corpo para se conformar às expectativas da feminilidade. Em cenas que mostram uma garota sem nome usando sapatos saddle, montando um cavalinho de brinquedo ou vestindo uma saia havaiana de grama enquanto segura um bambolê, Resnick combina texto e imagem para recriar memórias pessoais e universais. À medida que o livro avança, as representações do corpo da garota – e suas ideias sobre sexualidade e normas de gênero – transformam-se lentamente, enquanto ela se prepara para se tornar uma mulher heterossexual.

MICHIKO MATSUMOTO (Japonesa, nascida em 1950)
Nobiyakana onna tachi/Women Come Alive [As mulheres ganham vida]
Tóquio: Hanashi no Tokushu, 1978 | 21 x 30 cm | 196 pp. | brochura | texto em japonês e inglês de Michiko Matsumoto

Um panorama impressionante do uman ribu (movimento de libertação feminina japonês) dos anos 1970, Nobiyakana onna tachi é, em muitos aspectos, semelhante ao fotolivro da húngaro-holandesa Éva Besnyö (1975). Ambos documentam mobilizações coletivas, retiros e protestos de mulheres reivindicando seus direitos. Ativa no clube de fotografia de sua universidade, Matsumoto via sua habilidade fotográfica como uma maneira de participar do movimento e registrá-lo. Durante sete anos, ela viajou pelo país e colaborou com outras mulheres japonesas para lutar por maiores liberdades dentro da sociedade patriarcal do Japão. Este livro constitui um olhar íntimo sobre a sororidade a partir de uma perspectiva interna. É um documento vital do menos conhecido movimento uman ribu no Japão.

CLAUDIA ANDUJAR (Suíço-brasileira, nascida em 1931)
Amazônia
São Paulo: Praxis, c. 1979 | tiragem de 2.500 exemplares | sem paginação | capa dura com luva | fotografias adicionais de George Leary Love

Em 1971, Andujar teve seu primeiro contato com o povo indígena Yanomami na Amazônia enquanto trabalhava como fotojornalista para a revista brasileira Realidade. Ao tomar consciência da ameaça existencial que enfrentavam devido à pilhagem de suas terras e seus recursos pelo governo militar brasileiro, dedicou as cinco décadas seguintes a documentar suas vidas e suas lutas. Amazônia registra o período que Andujar passou com os Yanomami, conquistando sua confiança para fotografar cerimônias culturais, rituais xamânicos e tradições. Por este trabalho, recebeu duas bolsas Guggenheim (1971 e 1977).

JEB (Joan E. Biren) (Norte-americana, nascida em 1944)
Eye to Eye: Portraits of Lesbians [Face a face: retratos de lésbicas]
Washington, D.C.: Glad Hag, 1979 | 21,5 x 28 cm | 72 pp. | brochura | texto em inglês de JEB, Joan Nestle, Judith Schwarz e outras
Ao perceber que raramente via imagens de mulheres lésbicas, JEB, fotógrafa autodidata e ativista lésbica, decidiu mudar essa situação nos anos 1970. Em uma turnê por eventos de mulheres em todo o país, fotografou lésbicas de diferentes origens e idades em suas vidas cotidianas: criando famílias, no trabalho, em momentos de diversão e participando de marchas. As imagens são acompanhadas por poemas e textos de escritoras lésbicas reconhecidas, além dos depoimentos das próprias retratadas sobre suas identidades, seus amores, suas parceiras, seus filhos e suas interações entre si e com a sociedade em geral. O livro partilha o retrato de uma comunidade que ainda lutava por reconhecimento e igualdade.

LISETTE MODEL (Austríaco-americana, 1901-1983)
Lisette Model: An Aperture Monograph [Lisette Model: uma monografia Aperture]
Nova York: Aperture Foundation, 1979 | 31 x 39 cm | 109 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de Berenice Abbott (edição de 2007 em exibição)

Esta monografia é o primeiro livro a documentar a extensa carreira fotográfica de Model. Observadora incisiva da condição humana, sobretudo em cenas captadas em Nova York e na França, suas fotografias revelam personalidades que se escondem à vista de todos. Em uma sociedade fixada na juventude e na beleza, ela volta seu foco para mulheres fora desse ideal, retratando suas vidas reais. Suas imagens examinam o mundo concreto das mulheres – conhecido, porém pouco compreendido. Para sua época, esses retratos de pessoas comuns são silenciosamente revolucionários, desafiando estereótipos e equívocos então prevalentes.

MARTHA WILSON (Norte-americana, nascida em 1947)
Autobiography [Autobiografia]
Chicago: Chicago Books, 1979 | 20 x 13 cm | tiragem de 350 exemplares | sem paginação | brochura | texto em inglês de Martha Wilson

Wilson brinca com ideias de identidade de gênero e de autoconstrução no final dos anos 1970 – um período de intensas transformações políticas nos Estados Unidos. O livro começa com sua rotina diária como artista e, em seguida, transita para imagens e textos sobre ela em drag, performando tanto como homens quanto como mulheres, com foco nas noções de vestimenta e apresentação para enquadrar seu lugar mutável no mundo. Suas imagens e seu texto confirmam os impulsos do olhar masculino na cultura norte-americana e mostram sua reencenação desse padrão cultural.

MARY ELLEN MARK (Norte-americana, 1940-2015)
Ward 81 [Ala 81]
Nova York: Simon & Schuster, 1979 | 28,5 x 21 cm | 96 pp. | brochura | textos em inglês de Karen Folger Jacobs e introdução de Miloš Forman

Mark e a cientista social Karen Folger Jacobs receberam permissão para viver na Ward 81, a ala de segurança feminina do Hospital Estadual do Oregon. Durante os 36 dias de permanência, Mark fotografou e Jacobs entrevistou as residentes – mulheres consideradas altamente perturbadas e um perigo para si mesmas e para os outros. O livro retrata essas mulheres e a resposta institucional a seu tratamento e cuidado. As imagens as mostram refletindo sobre suas relações com outras pessoas, fixando-se em sua aparência e em homens, vendo televisão e fumando cigarros para combater o tédio. A monotonia é por vezes quebrada, como se vê nas fotografias de atividades especiais: bailes de sábado à noite e períodos ao ar livre com pacientes masculinos.

RUIKO YOSHIDA (Japonesa, 1938-2024)
Haaremu no atsui hibi/Black is Beautiful
Tóquio: Kodansha, Ltd., 1979 | 11 x 15 cm | 232 pp. | brochura | texto em japonês (edição de 1993 em exibição)

No início da década de 1960, Yoshida recebeu uma bolsa Fulbright para estudar fotojornalismo na Columbia University, em Nova York. Ao se estabelecer no bairro do Harlem, ao norte da universidade, começou a fotografar seus novos amigos e vizinhos. Haaremu no atsui hibi reuniu dez anos de fotografias acompanhadas de observações escritas da autora e tornou-se um best-seller quando foi publicado.

THEA SEGALL (Romena-venezuelana, 1929-2009)
Los niños de aquí [As crianças daqui]
Caracas: Foto Ediciones, 1979 | 21 x 30,5 cm | tiragem de 1.200 | 92 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em espanhol de Efraín Subero, Nelson Vasquez e outros

Em 1979, humanitaristas do mundo todo se uniram para celebrar o Ano Internacional da Criança. A iniciativa, liderada pelas Nações Unidas, visava colocar os direitos das crianças no centro do discurso internacional. Na Venezuela, a fotógrafa Thea Segall foi convidada a documentar crianças em todo o país para um projeto que resultaria em Los niños de aquí. O fotolivro resultante, patrocinado pelo Instituto Venezuelano de Tecnologia do Petróleo (Intevep), de administração estatal, apresenta retratos humanistas feitos por Segall que celebram muitos aspectos universais da infância. O livro também se destaca por seu projeto gráfico singular, criado por um dos mais importantes designers venezuelanos, Álvaro Sotillo.


1980-1989: Um despertar global

JANE EVELYN ATWOOD (Norte-americana, nascida em 1947)
Nächtlicher Alltag: Meine Begegnung mit Prostituierten in Paris: Eine fotografische Studie [Cotidiano noturno: meu encontro com prostitutas em Paris: um estudo fotográfico]
Munique: Mahnert-Lueg, 1980 | 21 x 25,5 cm | sem paginação | brochura | texto em alemão de Jane Evelyn Atwood | parte da série Materialien zur Fotografie

O primeiro fotolivro de Atwood acompanha um coletivo de trabalhadoras do sexo que vivia em Paris, apresentando um retrato íntimo da vida noturna da cidade na década de 1970. Rejeitando o impulso de fotografar com rapidez, Atwood voltava noite após noite para cultivar e manter relações com as mulheres. Essa prática lenta, contínua e observacional produziu um rico conjunto fotográfico, que oferece acesso a espaços, pessoas e interações que, de outra forma, estariam fora de alcance. As prostitutas documentadas por Atwood não aparecem diminuídas por sua profissão, por seus clientes ou pelo olhar da fotógrafa; ao contrário, surgem no controle, dominando seus clientes e desfrutando da amizade e da companhia umas das outras.

SARA FACIO (Argentina, 1932-2024)
MARÍA CRISTINA ORIVE (Guatemalteca, 1931-2017)
Actos de fe en Guatemala [Atos de fé na Guatemala]
Buenos Aires: La Azotea, 1980 | 28 × 28 cm | 97 pp. | capa dura | texto em espanhol, inglês e francês de Miguel Ángel Asturias

Facio e Orive – fotógrafas e fundadoras da editora portenha La Azotea – colaboram com o escritor e diplomata Miguel Ángel Asturias para documentar procissões e festivais religiosos na Guatemala.

MONIKA VON BOCH (Alemã, 1915-1993)
Land sehen [Terra à vista]
Dillingen: Queisser, 1981 | 30,5 x 26 cm | sem paginação | capa dura em luva ilustrada | texto em alemão de Paul Bertemes e Felicitas Frischmuth

Von Boch preferia a experimentação em laboratório fotográfico, produzindo composições incomuns por meio de processos alternativos. Em seu livro, ela demonstra interesse tanto por paisagens naturais quanto construídas e deseja que o leitor veja suas representações da terra sob uma nova luz. As cenas naturais, muitas vezes com pouco ou nenhum vestígio de atividade humana, começam a parecer representações de paisagens alienígenas. Suas fotografias funcionam menos como prosa e mais como poesia, expressando – em vez de documentar – o clima e a atmosfera de cada lugar.

RUTH ORKIN (Norte-americana, 1921-1985)
A Photo Journal [Um fotodiário]
Nova York: The Viking Press, 1981 | 26 x 27,5 cm | 152 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de Ruth Orkin

A Photo Journal apresenta um panorama abrangente das cinco décadas de carreira de Orkin como fotojornalista: desde suas fotografias amadoras de celebridades de Hollywood na adolescência, passando por seus registros profissionais posteriores, de figuras como Marlon Brando e Julie Harris, até suas imagens espontâneas de pedestres nos arredores de sua casa em Greenwich Village e, mais tarde, vistas panorâmicas a partir de seu apartamento no 15o andar na Central Park West. Suas fotografias – engraçadas, terríveis, comoventes e belas – são organizadas de forma cronológica e por temas, e incluem relatos narrativos vivos, repletos de espírito e humor, que se leem como um diário.

JEANNE MOUTOUSSAMY-ASHE (Norte-americana, nascida em 1951)
Daufuskie Island: A Photographic Essay [Ilha Daufuskie: um ensaio fotográfico]
Columbia: University of South Carolina Press, 1982 | 24 x 23,5 cm | sem paginação | brochura | textos em inglês de Alex Haley e Jeanne Moutoussamy-Ashe

Em 1977, Moutoussamy-Ashe visitou Daufuskie, uma ilha costeira remota e pouco conhecida da Carolina do Sul. Cerca de 80 descendentes diretos de pessoas escravizadas viviam em menos de 50 casas do século XVIII nessa ilha marítima de oito milhas quadradas, e muitos ainda falavam o dialeto nativo gullah. Ao saber que empreendedores do setor turístico haviam comprado metade da ilha, tornou-se claro para a fotógrafa que ela precisava registrar a história de seus moradores. O livro resultante foi fotografado ao longo de várias viagens e concentra-se nos residentes em momentos do cotidiano, criando um registro histórico da vida na ilha.

CATHERINE LEROY (Francesa, 1944-2006)
God Cried [Deus chorou]
Londres/Melbourne/Nova York: Quartet Books, 1983 | 26,5 x 31,5 cm | primeira edição | 141 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de Tony Clifton

Em 1982, Leroy – citada pelo The New York Times como “a maior fotógrafa de guerra que você nunca ouviu falar” – juntou-se ao jornalista Tony Clifton para documentar a invasão israelense de Beirute sob a perspectiva de seus moradores palestinos e libaneses. God Cried é um retrato íntimo e político de pessoas sob cerco. Ela e Clifton compartilham histórias de indivíduos abalados pela violência. As fotografias mostram edifícios demolidos, ruas cobertas de escombros, uma cidade tomada pela fumaça, famílias em fuga e civis e combatentes em diferentes estados de derrota e heroísmo. Por meio das imagens e do texto, o leitor é levado a confrontar os horrores da guerra.

SARAH MOON (Francesa, nascida em 1941)
Le Petit Chaperon rouge [Chapeuzinho Vermelho]
Paris: Grasset-Jeunesse (edição em francês) / Mankato: Creative Education (edição em inglês), 1983 | 22 × 15,5 cm | sem paginação | capa dura | texto de Charles Perrault em francês ou inglês (edição em inglês em exibição)

Este conto de fadas ilustrado com fotografias, com texto baseado na clássica história infantil, constitui uma associação experimental entre a visão estética onírica e etérea de Moon e uma obra literária familiar. A história de Chapeuzinho Vermelho é apresentada com uma dramaticidade e um tom surpreendentes. A filha de Moon aparece como a personagem que parte em jornada para a casa da avó. Embora o icônico lobo nunca seja visto, sua presença é sentida à medida que o espectador passa a assumir sua perspectiva através da lente de Moon, criando um universo alternativo a partir de um meio tipicamente ancorado na realidade.

SOPHIE CALLE (Francesa, nascida em 1953)
L’Hôtel [O hotel]
Paris: Éditions de l’Étoile, 1984 | 18 x 21 cm | primeira edição | 107 pp. | brochura com sobrecapa | texto em francês de Sophie Calle (edição de 2019 em exibição)

L’Hôtel captura a metodologia voyeurística de Calle ao apresentar um olhar discreto para quartos de hotel vazios, porém ocupados. Suas fotografias transbordam metáforas: uma cama desfeita significa solidão; um conjunto de pertences pessoais sugere tanto objetos desejados quanto coisas destinadas ao descarte. Ao lado de cada imagem, há um conjunto diarístico de anotações que imagina as vidas dos ocupantes ausentes. Enquanto Calle espia os quartos dos hóspedes do hotel, o espectador também o faz – e fica com a sensação de ter sido um pouco atrevido por ter olhado.

LESLEY LAWSON (Sul-africana, nascida em 1952)
Working Women: A Portrait of South Africa’s Black Women Workers [Mulheres trabalhadoras: um retrato das mulheres negras trabalhadoras da África do Sul]
Joanesburgo: Raven Press/Sached Trust, 1985 | 21 x 19 cm | 144 pp. | brochura | textos e entrevistas em inglês de Lesley Lawson e outras pessoas

Um tratado sobre as condições de trabalho e as oportunidades de emprego das mulheres negras na África do Sul da década de 1970 e do início da década de 1980, Working Women é uma compilação de imagens e entrevistas em primeira pessoa com, entre outras, trabalhadoras rurais, trabalhadoras do sexo, empregadas domésticas e operárias de fábricas. O livro progride desde a situação de desvantagem enfrentada pelas trabalhadoras sul-africanas até os esforços sindicais e organizativos para melhorar seu status, seus salários e suas condições de trabalho. O livro de Lawson reflete a organização comunitária e as campanhas políticas de base que abriram caminho para meios alternativos de comunicação durante a censura estatal do período do apartheid.

MARIANA YAMPOLSKY (Norte-americana-mexicana, 1925-2002)
La raíz y el camino [A raiz e o caminho]
Cidade do México: Fondo de Cultura Económica, 1985 | 21 x 27,5 cm | tiragem de 3.000 exemplares | 67 pp. | brochura | texto em espanhol de Elena Poniatowska | parte da série Colección Río de Luz, v. 3

Composta por imagens realizadas ao longo de três anos de viagens pelo México rural das regiões centro e sul, La raíz y el camino une a paixão de Yampolsky por educar outros sobre a arte mexicana – do período pré-hispânico aos tempos modernos – com seu interesse por momentos íntimos de conexão humana. Integrante do Taller de Gráfica Popular (TGP), oficina na Cidade do México formada por pintores e artistas gráficos comprometidos em compartilhar ideias sociais e políticas por meio das artes, Yampolsky orgulhava-se de documentar uma identidade mexicana coletiva, ao mesmo tempo que se concentrava na individualidade humana.

WANG HSIN (Taiwanesa, nascida em 1941)
Lanyu zaijian. Wang Hsin sheying ji [Adeus, ilha das Orquídeas: a fotografia de Wang Hsin]
Taipé: Pure Literature Publishing Company, 1985 | 18 x 19,5 cm | 175 pp. | brochura | texto em chinês

Wang passou os verões de 1974 e 1975 em sua terra natal, Taiwan, fotografando o povo da ilha das Orquídeas (Lanyu), uma pequena ilha vulcânica situada na costa sudeste. Sua imersão na comunidade indígena Tao resultou em imagens que documentam um momento de transição para esse povo. Ela chegou em um período em que uma confluência de forças históricas começava a remodelar rapidamente tanto Taiwan quanto a ilha. Com o intuito de usar sua câmera para captar a vida autêntica em Taiwan, ela apresenta um vislumbre de um momento de transformação para os Tao – um povo e uma ilha para sempre modificados.

DAYANITA SINGH (Indiana, nascida em 1961)
Zakir Hussain: A Photo Essay [Zakir Hussain: um ensaio fotográfico]
Nova Délhi: Himalayan Books/Continental Press, 1986-1987 | 24,5 × 21,5 cm | tiragem de 2.500 exemplares | 80 pp. | capa dura | texto em inglês com citações de Zakir Hussain e outras pessoas (edição de 2019 em exibição)

Estruturado como um roteiro de sua jornada documentando o popular músico indiano e tocador de tabla Zakir Hussain, este livro é composto por fotografias que Singh realizou enquanto viajava com ele ao longo de seis invernos. Depois de conhecê-lo em um show, quando ela tinha 18 anos, Hussain a convidou para fotografá-lo – assim como seus amigos e familiares – em casa e em turnê pela Índia. As fotografias resultantes incluem apresentações no palco e vislumbres íntimos da vida nos bastidores. As imagens próximas de Singh formam um retrato delicado da criatividade, do afeto familiar e das tradições transmitidas de uma geração para a seguinte.

ANNA MARIANI (Brasileira, 1935-2022)

Pinturas e platibandas

Salvador: Banco da Bahia Investimentos, 1987 | 26 x 22 cm | 240 pp. | capa dura com sobrecapa | textos em português de Anna Mariani e Lina Bo Bardi

Este livro reúne fotografias feitas por Anna Mariani em diferentes estados do Nordeste brasileiro. Retratadas frontalmente e sem presença humana, as fachadas caiadas revelam padrões cromáticos e soluções plásticas associadas à cultura material local. A obra articula arte, arquitetura e cultura material por meio da observação minuciosa de uma tradição visual – a caiação –, então já em processo de desaparecimento, transformando essas superfícies pintadas em testemunhos de modos de vida e imaginação comunitária.

HELGA PARIS (Alemã, 1938-2024)
Gesichter: Frauen in der DDR [Rostos: mulheres na RDA]
Berlim: Das Europäische Buch, 1986 | 24,5 x 27,5 cm | 95 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em alemão de Helga Schubert

Uma das principais cronistas fotográficas da vida cotidiana na República Democrática Alemã, o primeiro livro de Paris apresenta uma série íntima de retratos de alemãs orientais em seus espaços cotidianos. Sua intenção era realizar retratos gentis, porém diretos, da vida na Alemanha Oriental, com foco nos rostos de suas retratadas. As pessoas fotografadas incluem cidadãs comuns de diferentes origens – operárias, góticas, jovens andróginas, bem como a própria fotógrafa – que encaram a lente de Paris com expressões tranquilas, indicativas do conforto e da confiança depositados nela.

JO SPENCE (Britânica, 1934-1992)
Putting Myself in the Picture: A Political, Personal and Photographic Autobiography [Colocando a mim mesma na imagem: uma autobiografia política, pessoal e fotográfica]
Londres: Camden Press, 1986 | 17 x 23 cm | 220 pp. | brochura | texto em inglês de Jo Spence (edição de 1988 em exibição)

Descrita como artista, feminista, ativista e socialista, Spence acreditava que todas as pessoas deveriam usar a fotografia para esclarecimento, autoconhecimento e crítica ao status quo. Neste livro, ela escreve sobre sua convicção de que a fotografia pode capacitar seus praticantes a assumir o controle de suas próprias narrativas para expressar suas identidades. Sua série autobiográfica de ensaios aborda representação, identidade e fotografia, acompanhada por um conjunto de imagens em formato de catálogo que ilustra e aprofunda as ideias desenvolvidas em seus textos.

JUDY DATER (Norte-americana, nascida em 1941)
Judy Dater: Twenty Years [Judy Dater: vinte anos]
Tucson/Santa Clara: The University of Arizona Press/de Saisset Museum, 1986 | 23,5 x 29 cm | 128 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de James L. Enyeart

A representação que Dater faz das mulheres como indivíduos psicologicamente engajados e no comando de sua sexualidade situa essas fotografias no contexto das mudanças culturais influenciadas pela segunda onda do feminismo. Filha do proprietário de um cinema em Hollywood, ela adota uma abordagem cinematográfica, utilizando a linguagem corporal, o vestuário e o ambiente da pessoa retratada para transmitir caráter. Suas retratadas são suas colaboradoras: Dater as seleciona de forma cuidadosa e lhes pede que a ajudem a construir as cenas nas quais serão fotografadas. As imagens resultantes revelam como as mulheres modernas lidam com a exigência social de conformar-se a estereótipos culturais.

NAN GOLDIN (Norte-americana, nascida em 1953)
The Ballad of Sexual Dependency [A balada da dependência sexual]
Nova York: Aperture Foundation, 1986 | 26 x 23,5 cm | 144 pp. | brochura | texto em inglês de Nan Goldin | edição de Marvin Heiferman, Mark Holborn e Suzanne Fletcher (edição de 2012 em capa dura com sobrecapa em exibição)

Originalmente apresentado como uma projeção de slides com música – tanto ao vivo quanto gravada –, o conjunto de imagens deste livro, de 1976 a 1985, saturadas de cor, conteúdo e composição, retrata Goldin e sua família de amigos vivendo os desejos, os êxtases, o caos e os vícios de suas vidas em um momento muito específico no tempo e no espaço. O formato do livro condensa a imediaticidade dos slides em uma experiência de visualização íntima, não limitada pelo tempo. Goldin torna seu álbum público a todos que sofreram e amaram em nome da dependência e o define como “o diário que permito as pessoas lerem”.

RUTH BERNHARD (Germano-americana, 1905-2006)
The Eternal Body: A Collection of Fifty Nudes [O corpo eterno: uma coleção de 50 nus]
Carmel: Photography West Graphics, 1986 | primeira edição de 5.400 exemplares | 24 páginas de texto, com pranchas sem paginação | capa dura com sobrecapa | textos em inglês de Margaretta K. Mitchell e Ruth Bernhard

A exploração de Bernhard do nu feminino neste portfólio de gravuras inclui imagens realizadas ao longo de 40 anos. Ela posiciona suas modelos em cenários de estúdio sem elementos distintivos, junto a ocasionais espelhos ou caixas de papelão. Os corpos são de bailarinas: esculturais, esguios e jovens. O uso que Bernhard faz de tecidos e superfícies texturizadas – sedas, lençóis líquidos ou plásticos, cabelos emaranhados ou folhagens – remete ao véu feminino, comum na arte clássica. Por meio de uma iluminação de estúdio suave e sutil, ela transforma o nu feminino em mármore talhado, uma duna de areia ou uma ampulheta.

ANGÈLE ETOUNDI ESSAMBA (Camaronense, nascida em 1962)
Passion [Paixão]
Amsterdã: Uitgeverij An Dekker, 1989 | 23,5 × 24 cm | 107 pp. | capa dura | textos em francês, inglês e holandês de Felix de Rooy

Subverter as representações estereotipadas do corpo feminino negro produzidas por fotógrafos ocidentais tem sido central na obra de Etoundi Essamba. Seu fotolivro Passion combina imagens de mulheres, majoritariamente negras, além de crianças, homens e pessoas brancas e birraciais, com poemas do escritor e cineasta afro-curaçauense Felix de Rooy. Os retratos da fotógrafa defendem uma visão das mulheres africanas e da cultura africana que ela expressa em três palavras: orgulho, força e consciência. Elas são fortes, sábias, grávidas, culturalmente conscientes, ao mesmo tempo modernas e tradicionais e, acima de tudo, colaboradoras ativas na própria representação fotográfica.

CRISTINA GARCÍA RODERO (Espanhola, nascida em 1949)
España oculta [Espanha oculta]
Madri/Barcelona: Lunwerg, 1989 | 29 × 29 cm | sem paginação | capa dura com sobrecapa | texto em espanhol de Julio Caro Baroja (edição em inglês de 1995 em exibição)

Este fotolivro é o resultado dos anos que García Rodero dedicou a explorar práticas religiosas públicas e privadas, tanto pagãs quanto católicas, na Espanha contemporânea. Trata-se do primeiro estudo fotoetnológico abrangente das diversas práticas religiosas do país. Suas imagens, realizadas em vilarejos e povoados remotos – muitos raramente vistos até mesmo por espanhóis –, registram pessoas do meio rural pouco tocadas pela modernização: moradores em cortejos de rua, arenas de touradas e igrejas para celebrar, cultuar e lamentar. Fotografando após a morte de Franco, em um período de grande transição na Espanha, a autora esteve entre os fotógrafos que reconheceram a urgência de registrar essas práticas seculares antes que desaparecessem.

GRACIELA ITURBIDE (Mexicana, nascida em 1942)
Juchitán de las mujeres [Juchitán das mulheres]
Cidade do México: Toledo, 1989 | 23 x 31 cm | tiragem de 3.000 exemplares | 104 pp. | brochura com encarte de 7 páginas | texto em espanhol de Elena Poniatowska | tradução para o inglês de Cynthia Steele e Adriana Navarro

Assim como os fotógrafos que a precederam, como Paul Strand, Tina Modotti e Edward Weston, Iturbide foi atraída pelas mulheres indígenas zapotecas do istmo de Tehuantepec. Ao longo de quase uma década, a partir de 1979, passou períodos prolongados vivendo com as mulheres de Juchitán, distante da capital cosmopolita do país. Acolhida em cenas íntimas do cotidiano, suas fotografias registram cortejos fúnebres, mulheres se banhando e amamentando, e cerimônias religiosas que celebram o Deus Lagarto ou Huehuecóyotl, o deus erótico da música, da dança e da travessura. A presença da fotógrafa nunca é vista, mas sempre sentida, não como voyeur, e sim como convidada.


1990-1999: Em busca de uma fotodemocracia

CINDY SHERMAN (Norte-americana, nascida em 1954)

Untitled Film Stills [Fotogramas de filme sem título] 

Londres: Jonathan Cape, 1990 | 27 x 34,5 cm | primeira edição | 14 páginas de texto, com 40 fotografias numeradas | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de Arthur C. Danto

Apropriando-se do gênero dos fotogramas de filme de divulgação, Sherman usa a si mesma como modelo em imagens em preto e branco encenadas, provenientes de filmes imaginários dos anos 1950. Em cada imagem, Sherman constrói sua própria caracterização, em tipos facilmente reconhecíveis: dona de casa, miss de concurso de beleza, mulher dedicada à carreira e socialite melodramática, entre outros. Ela funciona como uma espécie de substituta, uma tela em branco transformada por maquiagem, figurinos e objetos de cena, que são os elementos que dão substância às imagens. Sherman faz questão de afirmar que não se vê como fotógrafa, mas como artista que emprega a câmera como ferramenta para oferecer uma visão mediada do mundo.

MARILYN NANCE (Norte-americana, nascida em 1953)
Religion: African American Spiritual Expressions [Religião: Expressões espirituais afro-americanas]
Siracusa: Robert B. Menschel Photography Gallery, 1990 | 21,5 × 21,5 cm | sem paginação | brochura com abas | texto em inglês de Gina Murtagh

Nance, cujo trabalho neste catálogo se concentra na cultura espiritual afro-americana, descreve-se como uma fotojornalista que cria narrativas documentais com imagens. Em cenas que articulam política e espiritualidade na comunidade negra, Nance registra igrejas instaladas em lojas, cerimônias de culto aos ancestrais, funerais e reuniões.

DONNA FERRATO (Norte-americana, nascida em 1949)
Living with the Enemy [Vivendo com o inimigo]
Nova York: Aperture Foundation, 1991 | 22 x 30,5 cm | 163 pp. | brochura | texto em inglês de Ann Jones e Donna Ferrato

Em fotografias ao mesmo tempo comoventes e aterradoras, Living with the Enemy documenta mulheres vítimas de violência doméstica. Fotógrafa na linha de frente de uma guerra com muitas vítimas e mortes não contadas, Ferrato revela as atrocidades do abuso doméstico e as vidas de mulheres que ele destrói.

MARTINE BARRAT (Francesa, nascida na Argélia, 1943)
Die Boxer (Do or Die) [Faça ou morra]
Reinbek bei Hamburg: Rowohlt, 1991 | 23 x 27,5 cm | sem paginação | capa dura com sobrecapa | texto em alemão de Martine Barrat

Depois de visitar uma academia de boxe pela primeira vez em 1979, Barrat passou a frequentar de forma assídua academias no Harlem, no Brooklyn e no South Bronx, fotografando e criando vínculos estreitos com boxeadores, treinadores e campeões do passado. As fotografias refletem uma comunidade transgeracional, com imagens de boxeadores bem-sucedidos que já haviam deixado a profissão, retornando às academias para orientar e encorajar a próxima geração. As imagens e o texto abordam o apelo da combinação de ternura e dureza do esporte e transmitem a intimidade e proximidade perceptíveis não apenas entre Barrat e seus retratados, mas também entre os boxeadores e seus treinadores.

COREEN SIMPSON (Norte-americana, nascida em 1942)
Aboutface [Meia-volta]
Nova York: Jamaica Arts Center, 1992 | 15 x 30,5 cm | sem paginação | brochura | texto em inglês de Keith M. Woods e Thulani Davis

Fotógrafa e designer de joias cuja obra se concentra em temas afro-americanos, Coreen Simpson integra o grupo de fotógrafas negras que ganhou destaque nos anos 1980. Aboutface, catálogo de sua exposição de 1992 no Jamaica Arts Center, no Queens, apresenta retratos em preto e branco de homens e mulheres com os rostos ocultos por colagens sobrepostas, que funcionam como máscaras decorativas. Inspirando-se na cultura de rua, no hip-hop, na moda e em sua série anterior de 1982 sobre o estilo B-Boy, Simpson investiga a identidade ocultada e o adorno corporal. Ao referenciar máscaras tradicionais nigerianas e zambianas, comenta o mascaramento da personalidade por meio do ornamento e as múltiplas faces dos estilos individuais.

LORNA SIMPSON (Norte-americana, nascida em 1960)
Lorna Simpson: Untitled 54 [Lorna Simpson: Sem título 54]
São Francisco: The Friends of Photography, 1992 | 21,5 × 28 cm | 72 pp. | brochura | texto em inglês de Deborah Willis e Andy Grundberg; entrevista com Lorna Simpson

Lorna Simpson: Untitled 54 articula fotografia e texto para construir comentários complexos sobre feminilidade e identidade negras que exigem tempo para serem desvendados. Simpson fotografa corpos anônimos femininos negros para tratar raça e gênero de modo simbólico, evitando o retrato individualizado. Suas imagens são ao mesmo tempo enigmáticas e profundamente familiares. Elas abordam identidade de gênero e sua performatividade corporal, evidenciando o interesse da artista na sutileza do gesto – e em como o olhar do público o interpreta.

SALLY MANN (Norte-americana, nascida em 1951)
Immediate Family [Família próxima]
Nova York: Aperture Foundation, 1992 | 28,5 x 25 cm | primeira edição | sem paginação | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de Reynolds Price e Sally Mann

No fim da década de 1980, Mann começou a fotografar seus filhos pequenos, imagens que mais tarde dariam origem a Immediate Family. O livro registra os verões passados na casa de campo da família, em uma zona rural da Virgínia, próxima a um rio. As fotografias não retratam apenas “momentos perfeitos”, mas também a dor e a dureza da infância: picadas de inseto, corpos sujos de terra, xixi na cama e exaustão. Em seu texto de abertura, Mann inclui ainda fotografias de sua própria infância.

PAZ ERRÁZURIZ (Chilena, nascida em 1944)

El infarto del alma [O infarto da alma]

Santiago: Francisco Zegers, 1994 | 27,5 × 21,5 cm | primeira edição de 2.500 exemplares | sem paginação | brochura | texto em espanhol de Diamela Eltit (edição em espanhol de 1999 em exibição)

El infarto del alma documenta o Hospital Psiquiátrico Dr. Philippe Pinel, uma instituição para pessoas com deficiência intelectual localizada a duas horas ao norte de Santiago. Originalmente concebido como sanatório para tuberculosos, o hospital parece se encontrar em condições precárias. Não apenas seus habitantes são marginalizados, mas a própria instituição está situada à margem da cidade. As fotografias de Errázuriz justapõem com força retratos sensíveis de pacientes e dos casais formados entre eles – sorrindo e interagindo com a câmera e entre si – e a realidade perturbadora das condições claramente desumanas em que vivem.

SUSAN LIPPER (norte-americana, nascida em 1953)

Grapevine

Manchester: Cornerhouse Publications, 1994 | 28 × 33 cm | primeira edição | 111 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de Susan Lipper e outros

As fotografias em Grapevine podem parecer, inicialmente, imagens clichês da pobreza rural do Sul dos Estados Unidos. Mas essa leitura ignoraria a intenção de Lipper de subverter estereótipos. Ela encontrou essa região nos Montes Apalaches enquanto buscava algo fora do circuito artístico de Nova York. Inserindo-se na comunidade, descreve sua “família de Grapevine” como participante ativa e cúmplice, pessoas que a ajudaram a encenar situações e construir narrativas que questionam pressupostos sobre a vida e a pobreza rural. Lipper instiga o público a uma leitura mais complexa de um lugar e de sua população.

CARRIE MAE WEEMS (Norte-americana, nascida em 1953)

In These Islands: South Carolina–Georgia [Nestas ilhas: Carolina do Sul–Geórgia]

Tuscaloosa: University of Alabama, 1995 | 27,5 x 22,5 cm | primeira edição de 2.500 exemplares | 68 pp. | brochura | texto em inglês de William T. Dooley e Houston A. Baker, Jr.

Weems utiliza texto, fotografias e cerâmicas para explorar (de forma física e imaginativa) – as ilhas Gullah do sul dos Estados Unidos. Na cultura Gullah Geechee, formada por pessoas que haviam sido escravizadas e seus descendentes livres que vivem nas ilhas costeiras da Carolina do Sul e da Geórgia, ela identifica aspectos da cultura africana miraculosamente preservados, apesar das tentativas de supressão nos Estados Unidos. As fotografias são desprovidas de pessoas e concentram-se em edifícios, cemitérios, paisagens cobertas de detritos e interiores domésticos.

CLÁUDIA JAGUARIBE (Brasileira, nascida em 1955)

Quem você pensa que ela é? 

Rio de Janeiro: Editora 34, 1995 | 21 × 25 cm | 80 pp. | brochura | texto em português de Beatriz Jaguaribe

Realizado em 1995, este livro funciona como uma fotonovela construída por meio de encenação dirigida. Cláudia Jaguaribe conduz atores profissionais e utiliza recursos de mídia digital para articular uma narrativa que opera entre ficção e documento. O livro explora a construção da identidade feminina e as representações do feminino na cultura visual daquele momento, transformando a fotografia em um dispositivo narrativo e performativo.

TOKUKO USHIODA (Japonesa, nascida em 1940)

Reizōko/Ice Box [Geladeira]

Tóquio: BeeBooks, 1996 | 22,5 x 28 cm | sem paginação | capa dura com sobrecapa | texto em japonês e inglês de Hiroshi Kashiwagi, Kanta Sanoyama e Tokuko Ushioda

Em Reizōko/Ice Box, Tokuko Ushioda apresenta o tema mundano de 57 geladeiras, exibidas em imagens em preto e branco, no formato quadrado. Cada geladeira ocupa uma dupla de páginas: à esquerda, aparece com a porta fechada em um ambiente doméstico; à direita, em uma composição quase idêntica, vê-se a mesma geladeira com a porta aberta e o conteúdo exposto. As imagens numeradas A/B são diretas e oferecem um vislumbre espontâneo de um aspecto inesperadamente pessoal da vida de uma casa. Embora as fotografias sejam em sua maioria desprovidas de pessoas, há um sentido implícito de que as geladeiras de Ushioda funcionam como uma forma de retrato.

SHIRIN NESHAT (Iraniano-americana, nascida em 1957)

Women of Allah [Mulheres de Allah]

Turim: Marco Noire Editore, 1997 | 24 x 33,5 cm | texto sem paginação e 38 pp. de fotografias | brochura | texto em inglês de Francesco Bonami, Hamid Dabashi, Octavio Zaya e Forough Farrokhzad, entrevista com Shirin Neshat | fotografias de Cynthia Preston, Bahman Jalali, Kyong Park e outras pessoas

Women of Allah investiga as complexidades da feminilidade islâmica no Irã natal de Neshat. A própria artista, junto a amigas e familiares, aparece como modelo em muitas das imagens, que não foram fotografadas por ela, mas por seis fotógrafos diferentes, sob sua direção. As fotografias abordam temas como revolução e martírio e retratam as transformações ocorridas no Irã desde a Revolução Islâmica, entre elas as normas relativas ao vestuário feminino e ao uso do véu. Intercalados ao longo da série, surgem poemas e textos de autores iranianos. Em muitas das imagens, áreas são sobrepostas por caligrafia – ora como elemento decorativo, ora como meio de veicular textos específicos em farsi.

TINA BARNEY (Americana, nascida em 1945)

Theater of Manners [Teatro de costumes]

Zurique/Berlim/Nova York: Scalo, 1997 | 24 x 30,5 cm | primeira edição | 254 pp. | capa dura com sobrecapa | texto em inglês de Andy Grundberg e Tina Barney

As fotografias de Tina Barney abrem uma porta para as vidas privadas e os ambientes domésticos das elites abastadas da Costa Leste – incluindo sua própria família de classe alta e seus amigos. As imagens mostram, por exemplo, uma sala de jantar ensolarada com familiares reunidos ao redor da mesa resolvendo palavras-cruzadas, além de colchas, cortinas e móveis cuidadosamente coordenados em cores, servindo de cenário para uma cena de afeto familiar observada por uma empregada doméstica de uniforme branco. Ainda assim, Barney enfatiza que seu foco não é glorificar os privilégios da vida de sua família. Ao contrário, seu objetivo é retratar as dinâmicas familiares e romper a ideia da inacessibilidade de seu mundo.

HIROMIX (Japonesa, nascida em 1976)

Hiromix

Göttingen: Steidl, 1998 | 17 x 23,5 cm | primeira edição | sem paginação | capa dura com sobrecapa | texto em japonês e inglês de Hiromix

As fotografias de Hiromix – na maioria estreladas pela própria artista – constituem um registro profundamente pessoal da cultura jovem japonesa dos anos 1990. A ideia central do livro é capturar a beleza juvenil, a exuberância e os prazeres sem amarras da experiência urbana de uma jovem mulher. Seus retratos saturados de cor, autorretratos, paisagens urbanas e imagens de interiores com comida e objetos domésticos antecipam o tipo de fotografia que se tornaria dominante nas redes sociais nas décadas seguintes. Na última linha de sua introdução, ela escreve: “Talvez porque eu quisesse guardar um registro disso é que fotografo a mim mesma”.

VILMA SLOMP (Brasileira, nascida em 1952)

Dor: “A dor do amor” e “AdversusAestus”

Curitiba: Fotográfica Editora/DBA, 1998 | 22 × 21,6 cm | 30 pp. | brochura | Textos em português e inglês de Angélica de Moraes, Carlos A. C. Harmath e Vilma Slomp

Dor reúne duas séries realizadas em momentos distintos. A dor do amor (1989) apresenta 15 fotografias em cromo 4×5 de naturezas-mortas feitas em estúdio, em que Slomp utiliza luz, sombra e composição para materializar uma experiência psíquica de sofrimento. AdversusAestus (1993-1997) inclui 18 imagens em preto e branco que combinam elementos orgânicos e objetos diversos, criando arranjos que dialogam com referências da arte moderna. Juntas, as séries expandem o diálogo entre corpo e materialidade, entre o orgânico e o construtivo, convertendo a dor em gesto estético e conceitual.