ZineZona
Texto da curadoria
A zona é o lugar do indefinido, do encontro e da possibilidade. O zine é uma zona.
Esta exposição representa uma tentativa de compreender a diversidade e a capilaridade da produção de zines fotográficos no Brasil após 2010. O percurso proposto é o da errância, o da livre exploração pelas pilhas e prateleiras.
Em um zine, cabe de tudo: ele é maleável e inclusivo. Se, na publicação convencional, pelo alto investimento, não há espaço para erro, no zine, sobra. Ousado demais? Não para o zine. Estranho, esquisito? Não o bastante. Provocador, exagerado? Sim, por favor. O zine não se conforma. Distribuídas em redes informais e circulando contra a corrente, essas publicações costumam resistir à inserção no mercado tradicional de livrarias e passar abaixo do radar da crítica e das principais instituições de arte, o que as torna particularmente difíceis de mapear. Esta mostra nasce também desse descompasso.
O nome “zine” é uma redução de “magazine” (revista, em inglês), palavra cuja origem remonta ao árabe “makhzan”: “armazém, depósito de mercadorias”, ou seja, um “lugar de variedade”. A prática ganhou força graças ao punk e aos movimentos negro e queer dos anos 1960 e 1970. Dentro de comunidades marginalizadas, a produção de panfletos e zines fotocopiados era uma forma de se expressar sem mediação, reforçando laços e ecoando vozes que não encontravam lugar nos meios de comunicação hegemônicos.
Por esse DNA antiformalista e de independência editorial, o formato também foi explorado por artistas visuais, desenhistas, quadrinistas e poetas. A partir do desenvolvimento de novas tecnologias de reprodução, como a fotocopiadora, nos anos 1970, e a impressão digital, nos anos 1990, a fotografia passou a ocupar um lugar central na cultura dos zines, reencontrando nela sua vocação para a cópia e a distribuição em maior escala.
Em um presente cada vez mais mediado pelas telas, a arte impressa independente representa um modo anacrônico de produzir e circular imagens. Além de poder ser um meio ágil e de baixo custo de articular uma ideia, os zines se tornam também uma forma de resistência estética e cognitiva: contra o deslizamento ininterrupto dos feeds e streams, o atrito das páginas e o cheiro de tinta que gruda no dedo.
Para uma biblioteca, os zines colocam desafios. Muitas vezes, o nome do autor não aparece; o selo editorial deixou de existir; os únicos vestígios de sua circulação levam a uma antiga página do Fotolog ou a um e-mail desativado. Também a materialidade dos zines resiste às convenções: são publicações sem lombada, difíceis de acondicionar, feitas às vezes de papéis que rapidamente amarelam, empenam ou desbotam. Incorporá-los ao acervo implica repensar as formas de catalogar e de dar acesso a objetos que nasceram para circular livremente. E fazer isso é reconhecer que preservar significa conservar não apenas esses objetos, mas também suas histórias.
A cena brasileira de zines fotográficos se expandiu significativamente nas últimas décadas, com o fortalecimento de feiras de impressos, pequenas editoras, ateliês de impressão e coletivos independentes.
Nos zines aqui reunidos, todos do acervo da Biblioteca de Fotografia do IMS, convivem temáticas diversas: arquivos familiares, diários íntimos, fotografia de rua, investigações sobre gênero, raça e território, registros de festas, manifestações políticas, experimentações gráficas e ficções visuais. Mais do que constituir uma linguagem comum, essas publicações compartilham a mesma disposição para experimentar novas formas de olhar e publicar.
Talvez por esse caráter de obra em constante transformação, a produção de zines é uma prática artística que estimula a ação, mais do que a contemplação. Cada zine parece sempre apontar para o próximo.
A esperança compartilhada com quem entra nesta zona é que a pilha continue crescendo, que visitantes se tornem autores e que, como em todo arquivo vivo, a bagunça instalada no centro desta biblioteca nunca deixe a poeira assentar.
Ângelo Manjabosco, Miguel Del Castillo e Rony Maltz, curadores
