Quanto mais desejo, mais invento o que vejo, Fernando Lemos
IMS Paulista
Textos da exposição
Fernando Lemos, o artista múltiplo
É uma grande honra para o Instituto Moreira Salles apresentar uma exposição feita a partir do acervo de Fernando Lemos, guardado e preservado nesta instituição. Lemos foi um artista muito singular na sua pluralidade, na qual ele mesmo reconhecia uma heteronímia muito pessoana. Nascido em Lisboa em 1926, emigrou para o Brasil em 1953, fugindo da ditadura de Salazar, em busca da liberdade de que necessitava para respirar e trabalhar nos inúmeros afazeres a que se dedicou na vida, vindo a sofrer mais tarde uma nova ditadura no país que o acolheu, à qual resistiria já ao lado dos seus amigos brasileiros. Num documentário que lhe é dedicado, Fernando Lemos confessa: “Fui estudante, serralheiro, marceneiro, estofador, impressor de litografia, desenhador, publicitário, professor, pintor, fotógrafo, tocador de gaita, emigrante, exilado, diretor de museu, assessor de ministros, pesquisador, jornalista, poeta, júri de concursos, conselheiro de pinacotecas, comissário de eventos internacionais, designer de feiras industriais, cenógrafo, pai de filhos, bolseiro, e tenho duas pátrias, uma que me fez e outra que ajudo a fazer. Como se vê, sou mais um português à procura de coisa melhor.”
Quando chegou ao Brasil, Lemos era não só o único fotógrafo do surrealismo português, como também o primeiro artista em Portugal a utilizar a fotografia como suporte da construção de imagens complexas, num programa artístico que subvertia a natureza do gênero fotográfico, para se aventurar na diagramação visual do mundo, que ele também exploraria por meio dos seus ofícios no Brasil de designer gráfico e de editor. Filho de proletários, o artista assumia com orgulho a sua condição de “operário visual”, nos múltiplos afazeres a que se dedicava, exprimindo nessa pluralidade a natureza de um ideal, de um projeto de vida e de arte. Por isso é tão feliz o título escolhido, a partir de versos do próprio Lemos, por Thyago Nogueira, curador da exposição e coordenador do acervo de Arte Contemporânea do Instituto Moreira Salles, a quem expressamos a nossa gratidão: “Quanto mais desejo, mais invento o que vejo”. Nosso agradecimento é extensível a todas as pessoas que, nas várias áreas de trabalho do IMS, contribuíram decisivamente para a mostra que agora se apresenta. À curadoria da exposição, devemos o meritório caminho de nos demonstrar a relevância, em todo o imaginário e nos modos de fazer do artista, da relação entre ocultação e desocultação, bem explícita na construção de incessantes adições, justaposições e sobreposições que encontramos não só na sua fotografia, como também na poesia, no desenho, na pintura e nas suas múltiplas formas de vida.
Destinamos uma palavra especial de reconhecimento a Beatrix Overmeer, companheira de Fernando Lemos, pelo acompanhamento cúmplice e sensível de todo o projeto. Encontramos igualmente nos filhos do artista, Anamaria, José Augusto, Maria Teresa, Paola e Rodrigo, o apoio inestimável que faz desta exposição a consequência de uma gramática dos afetos, que Lemos sempre soube estimular no seu entusiasmo de viver.
Na atualidade desta mostra, é impossível disfarçar a saudade que Fernando Lemos nos deixa nos dois lados do Atlântico. Prova disso é o fato de ela se integrar na celebração do centenário de nascimento do artista, que no Brasil é protagonizada pelo ims e, em Portugal, pela Fundação Cupertino de Miranda, que saudamos expressando a nossa gratidão a todos os seus responsáveis e curadores. Nas suas próprias palavras, Lemos se demonstrava ciente de que “o emigrante só se realiza se encontra o seu novo território. E eu percebi que este era o meu novo território. Senti-me entre gente livre.” Dessa busca incessante da liberdade esta exposição é testemunho e matéria de reflexão para todas as pessoas que agora a possam visitar.
Diretoria do Instituto Moreira Salles
Fernando Lemos (1926-2019) foi um artista de muitos talentos, explorados na fotografia, na poesia, no desenho e no design gráfico, entre outras linguagens.
Lemos nasceu em Lisboa, em 1926, numa família de poucas posses. O pai, marceneiro e marinheiro, e a mãe, rendeira e trabalhadora doméstica, estão na gênese de seu interesse pelas artes manuais. Com meses de idade, Lemos contraiu poliomielite, o que o levou a encarar uma dura rotina de tratamentos, com efeitos que o acompanharam pela vida. "Apesar da minha deficiência, tinha que fazer alguma coisa, não para ser melhor que ninguém, mas para mostrar que também era capaz de fazer", disse.
Durante a juventude, aproximou-se de uma geração revolucionária que encontrava nos manifestos surrealistas e comunistas um caminho para enfrentar a arte burguesa, a depressão do pós-Guerra e a repressão do Estado Novo português (1933-1974). Desde cedo, interessou-se pela investigação dos sonhos e do inconsciente, da escrita automática e do acaso, que conduzia com humor e irreverência na busca por desocultar sentidos que transcendessem a realidade. Mas os ideais de comunhão e liberdade daqueles jovens não se cumpriram, e o artista exilou-se no Brasil, em 1953. Radicado em São Paulo, naturalizou-se brasileiro em 1960. "O Brasil deu-me tudo que me foi roubado e não me devolveram", afirmou.
Esta exposição celebra o centenário de nascimento de Fernando Lemos e apresenta pela primeira vez seu arquivo depositado no Instituto Moreira Salles em 2019, logo antes da morte do artista. Este acervo íntimo, somado ao material preservado pela família, revela o pensamento do artista em esboços e obras prontas, sem a necessidade de estabelecer fronteiras.
Em mais de 70 anos de carreira, Lemos trabalhou como um operário da arte. Seus gestos simples e diretos deram transparência às linguagens em busca de autonomia e liberdade. Na fotografia, no desenho e na poesia, desenvolveu uma sintaxe comum, que o permitia contrapor, justapor e multiplicar elementos até encontrar novos sentidos -- como no poema que dá título à exposição. Lemos fez do desejo sua lupa e combustível.
Com o passar das décadas, contudo, retomou o interesse por formas difusas e opacas, que o ajudaram a enfrentar medos e pesadelos, os limites físicos e o avanço da idade. "A solidão é uma trincheira, é talvez a única linguagem capaz de enfrentar a própria morte", escreveu.
Lemos também atuou na resistência política e na organização de instituições culturais, que considerava pilares fundamentais da democracia. "Você, se é artista, está a fazer uma coisa que é para todos. É para o outro. Se o outro também não está livre para receber, você não está livre para fazer. A liberdade não é um crachá. A liberdade é uma coisa que nos prende, que nos põe a respirar e se torna obrigatória, é coletiva", afirmou.
Thyago Nogueira
Curador e coordenador da área de Arte Contemporânea do Instituto Moreira Salles
Imbuído da liberdade surrealista, Fernando Lemos exercitou várias linguagens. Ao longo da vida, contudo, o desenho e a poesia foram práticas centrais.
No começo dos anos 1950, Lemos produziu muitos desenhos em paralelo a pinturas, poemas e fotografias. “No papel branco/ a promessa dói/ aberta”, escreveu em um poema sem título. Em uma série de desenhos de 1951, criaturas de corpos pescoçudos e falos ambulantes exibem um erotismo bem-humorado e revelam um artista que enfrentava o realismo das academias de arte.
Sob as barbas do Estado Novo português, trabalhar com a figuração era um risco, já que certos temas eram lidos como adesão aos valores do regime, enquanto outros eram vistos como afronta ao conservadorismo promovido pelo governo. “O mundo era uma moeda rodando para o precipício”, anotou em outro poema.
Em 1953, o medo da repressão, comandada pelo ditador António de Oliveira Salazar, fez com que Lemos se exilasse no Brasil em busca de trabalho. “A vida é exatamente para se alargar, já que a tentam estreitar cada vez mais”, escreveu. A chegada ao Rio de Janeiro, então capital de uma sociedade democrática, coincidiu com a retomada do desenho figurativo, encarnado em liberdade exuberante.
Uma cabeça barbada é sustentada por pernas com pavios acesos; hastes de óculos se transformam em braços, e pálpebras, em guarda-chuvas; rostos aparecem de frente e de lado ao mesmo tempo, como nas experiências cubistas e nas múltiplas exposições fotográficas. Lemos faz do corpo um território livre e acrescenta ao real o que lhe falta, em busca de uma expressão mais próxima da vivência experimentada.
Os primeiros anos no Brasil custaram ao artista. “Não dormia porque a fome não me deixava, e as baratas do quarto onde morava também não”, contou. Fernando Lemos trabalhou como ilustrador em revistas como Manchete e jornais como O Estado de S. Paulo. Em 1954, mudou-se do Rio para São Paulo para trabalhar nas comemorações do Quarto Centenário da cidade.
Em um desenho de 1955, Lemos abandona a sensualidade dos corpos para encaixar rostos em quadrados e retângulos cubistas, vigiados por cachos de olhos. No mesmo período, corpos se dissolvem em pinceladas, como se exibissem suas estruturas ósseas, articulares.
Aos poucos, Lemos deixou de lado a figuração e produziu dezenas de desenhos em que explora a agilidade dos traços e a alternância de côncavos e convexos, cheios e vazios. O desenho ganha ritmo e melodia, numa aproximação com registros musicais. “Ver é uma forma de escuta”, escreveu.
“O desenho está em tudo. A escrita é feita de palavras, as palavras e as letras são feitas de desenhos. O desenho escreve, inventou as letras para se exprimir”, declarou Fernando Lemos.
Desde os anos 1950, Lemos se interessou pela fronteira que separa o desenho da escrita, o que o levou a estudar caligrafia japonesa e a trabalhar com símbolos e signos.
Em pequenos esboços de traços contínuos, a linha rodopia sobre si mesma para construir formas tridimensionais na superfície plana do papel. Títulos como O morcego pacato, O brinquedo mortífero e O chapéu abandonado adicionam humor e mistério às sínteses gráficas. A palavra, signo abstrato, dá concretude ao desenho, num diálogo profícuo entre texto e imagem, que acompanhará o artista por toda a vida.
O que vemos são coisas ou rastros? Não importa. O desenho liberta a imaginação para desocultar desejos e revelar verdades intrínsecas. Lemos estudava a quântica do traço, em busca de seus átomos fundamentais. “Como baptisar o desenho/ destruidor de lume novo/ artéria e matéria prima”, escreveu no poema “Bico de pena inventado”.
Sua fé no desenho permaneceu inabalável: “Com o desenho se faz uma revolução, porque o desenho tem precisão, como num eletrocardiograma, não tem retoque”, comentou, ao comparar a incisividade do desenho ao tempo distendido da pintura.
Com o passar dos anos, Fernando Lemos se afastou da clareza gráfica e da construção analítica das décadas anteriores para retomar o interesse por manchas difusas e camadas opacas, ocultando o que havia desocultado.
Estava assombrado por sonhos e pesadelos, que sobrepunham episódios de sua vida: “Ao acordar, percebo que aquela imagem já estava comigo há tempos. Tenho algum controle sobre isso, o que não impede que sejam instantes muito curtos, de alguns segundos, que concentram mais de 60 anos da minha história. Isso é terrível, inclusive psiquicamente. Por isso, estou preparado para tudo, inclusive para a loucura”, revelou.
Figuras humanas se dissolvem em formas abstratas. Em Desenho só, desenho a sós (2013), Lemos cria cenas noturnas sobre o branco do papel, como se vislumbrasse as silhuetas das cavernas platônicas. Em Sono/dormires/despertares (2015), elabora enigmas visuais em torno de aranhas, cavalos, pescadores e figuras acorrentadas, como se sonhasse acordado. “Os desenhos, executados logo pela manhã, são livres e automáticos, advindos dos sonhos da noite anterior. Cada cena dá a impressão de poder ser explicada, mas elas se revelam surpreendentes e inexplicáveis”, declarou.
Em Cor do vento, Saudades do automóvel e Passagem a limpo, feitas em 2019, Lemos cria visões em que cores vibrantes emanam de uma densa massa preta. “Ninguém viu a sombra caída que atravessou a luz”, escreveu no poema “Eclipse sem data”.
Nos anos 1940, vivendo em Lisboa, Fernando Lemos estudou litografia, desenho gráfico e aquarela. Em uma viagem às ilhas Berlengas, a noroeste da cidade, teve seu encontro epifânico com a fotografia. “Lá percebi que o mar e a água funcionavam como uma lente, eram um acúmulo de transparências, e tive o insight da natureza da fotografia e de sua transparência potencial. Assim como a pintura, a escrita automática e os sonhos, a fotografia é uma forma de transparência do inconsciente, de revelação”, explicou.
Lemos comprou uma câmera Flexaret para filmes de médio formato e fotografou amigos e conhecidos. De 1949 a 1952, produziu um dos conjuntos fotográficos mais importantes do surrealismo português, manipulando a câmera, a luz e a prata.
Em parte das fotos, é o enquadramento inesperado que dá surpresa ao flagra; em outras, é o fotógrafo quem induz a performance dos amigos. Mãos, cabeças, pernas e punhais, tão caros aos surrealistas, se transformam em personagens das fotografias. Aproximar objetos estranhos ou justapor imagens eram estratégias surrealistas para ultrapassar a realidade objetiva e desocultar sentidos. Eram também artimanha perspicaz para tratar de assuntos interditados pela ditadura por restrições morais ou políticas.
Em 1945, a criação da polícia do Estado Novo português – conhecida como Pide –, que investigava, prendia e matava opositores ao regime, fez das ruas um espaço cada vez mais arriscado, forçando artistas e escritores a recolherem-se nos ateliês.
“Minha experiência em Portugal estava ligada ao Partido Comunista, ao qual nunca me filiei. Lá, sempre fiquei confinado aos gabinetes, nunca na rua, como gostaria. Eu não podia colar cartazes, fazer panfletagem, enfrentar a polícia, porque tinha alguma dificuldade decorrente da poliomielite, que tive na infância. Eu era coxo, e muitos amigos foram mortos nessas atividades. Diante dessa adversidade, queria ir além, sem querer ser melhor que os outros companheiros”, contou.
Em 1962, Fernando Lemos fundou em São Paulo a editora infantil Giroflê, em parceria com o escritor Sidónio Muralha. A pequena editora teve atuação pioneira ao reunir escritores e artistas renomados para produzir livros, material educativo e paradidático dedicados às crianças.
“Montamos um sistema cooperativo de participação e tivemos a adesão de muitos intelectuais e empresários ligados à cultura”, relembrou. “Os colaboradores eram artistas e escritores, como Fanny Abramovich, Willys de Castro, Aldemir Martins. O Darcy Ribeiro ficou tão entusiasmado com o projeto que fez uma encomenda para o Instituto do Livro, de Brasília, nunca concretizada. Produzimos até uma coleção de cartões-postais com desenhos de crianças que selecionamos em escolas públicas da cidade, e a renda resultante era revertida para a própria escola”, contou.
“Eram projetos idealizados, grandes ideias que tiveram vida curta. A partir do golpe militar de 1964, os projetos foram sendo abandonados. Dois anos mais tarde, o sonho terminava antes de se consolidar”, concluiu.
Fernando Lemos integrou a equipe do jornal Portugal Democrático, fundado em 1956. O jornal, dirigido por exilados portugueses que viviam no Brasil, era um órgão de resistência política, que reunia artistas e pensadores para fazer frente à ditadura de António de Oliveira Salazar. Nas caricaturas de Lemos publicadas em 1959, Salazar aparece como um enorme rato preto, que reparte o queijo da morte ou mergulha no esgoto de uma privada.
Lemos retomou as charges e caricaturas logo após a Revolução dos Cravos, que derrubou a ditadura portuguesa em 25 de abril de 1974. Seus desenhos faziam críticas frontais à Pide, à política interna e externa de Portugal e às indefinições do processo democrático.
“Eu que me violentei para não ter mais sequer saudades de Portugal, e não contava mais com ele, agora tenho de me violentar de novo para crer que posso acrescentá-lo, pelo menos, à minha vida profissional. Pois dificilmente me adaptaria de novo a Portugal”, declarou.
A figura do rato transformou-se em metáfora de lideranças e grupos autoritários, como na patrulha que voa com hélices nazistas ou no manuscrito do livro em parceria com o escritor português Sidónio Muralha, nunca publicado. “Como havia ratos nesta nação! Ratos caros, ratos baratos, ratos de sala ou saguão”, diz o manuscrito. “Dançavam todos de patas dadas e o queijo do país se repartia. Entre dentadas e entre patadas, porque quanto mais rato, mais comia”, continua.
As notícias da Revolução dos Cravos também deram origem a um conjunto de desenhos diários conhecido como 25 de Abril, promessa de figuras. Com um traço grosso e firme, Lemos deu vida a pernas ambulantes, cabeças gigantes e outras criaturas desconjuntadas, com olhos e garras ameaçadores. A sobreposição de traços transmite a euforia e o nervosismo que tomaram Portugal com a deposição da ditadura e as disputas pela estabilidade democrática.
Ângelo Manjabosco, Carolina Natividade da Cruz, Laura Sapucaia, Rosely Nakagawa e Thyago Nogueira
1926
José Fernandes de Lemos nasce em Lisboa, em 3 de maio de 1926, único filho de José de Lemos, marceneiro e músico amador, e Palmira da Conceição Fernandes de Lemos, rendeira e trabalhadora doméstica. Posteriormente, adotaria Fernando Lemos como nome. Em 28 de maio de 1926, um golpe militar instaura uma ditadura em Portugal. António de Oliveira Salazar assume a presidência do Conselho de Ministros em 1932 e, no ano seguinte, estabelece o Estado Novo, regime de caráter autoritário, conservador e nacionalista.
Em 1938, Lemos ingressa no curso de artes gráficas na Escola de Artes Decorativas António Arroio, que frequenta até 1943. Em 1947, estuda aquarela na Sociedade Nacional de Belas Artes, onde participa da 2ª Exposição Geral de Artes Plásticas.
1949
Trabalha como desenhista gráfico e frequenta ateliê na avenida da Liberdade, onde se reúne com membros do grupo surrealista português. Após viagem às ilhas Berlengas com o pintor Marcelino Vespeira, começa a fotografar com uma câmera Flexaret 6 × 6. Inicia sua série de fotografias surrealistas, em que registra amigos e conhecidos. Em 1952, expõe com Fernando de Azevedo e Marcelino Vespeira na Casa Jalco, uma loja de móveis no bairro do Chiado.
Colabora com a revista Unicórnio, fundada pelo historiador José-Augusto França, com quem cria a Galeria de Março, onde realiza a exposição Fotografias de várias coisas (1952) e participa da coletiva 20 pintores portugueses contemporâneos (1952). Publica Teclado universal (1953) na coleção Cadernos de Poesia, dirigida por França e o poeta Jorge de Sena.
1953
Para fugir da repressão, Lemos emigra para o Brasil em 1953. Estabelece-se no Rio de Janeiro, onde expõe fotografias no MAM Rio (1953) e colabora com as revistas Sombra e Manchete. Expõe na II Bienal de São Paulo (1953).
Muda-se em 1954 para São Paulo, a convite do professor Jaime Cortesão, para trabalhar na organização do Quarto Centenário, onde realiza um mural sobre o crescimento da cidade, colabora com um painel de Manuel Lapa e auxilia na expografia. Expõe desenhos na Galeria de Março (1954) e no MAM-SP (1954). Em 1954, obtém permissão definitiva para residir no Brasil.
1955
Participa da III, IV e V Bienal de São Paulo. Na V Bienal, recebe o Prêmio de Aquisição por um de seus desenhos. Integra a equipe do jornal Portugal Democrático, composta por exilados políticos portugueses. Casa-se com Claudia Thereza Guimarães de Lemos. Realiza exposições individuais de desenho no MAM-SP (1956) e na Associação de Amigos do mam-sp (1959). Recebe o Prêmio Arte Contemporânea do MAM-SP na categoria Desenho (1956). De 1956 a 1963, colabora com ilustrações para o Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo. Lança o livro Recado (1960), com Claus Bergner e Li-Kioko, na Galeria de Arte São Luís.
Naturaliza-se brasileiro em 1960.
1961
Em parceria com o arquiteto Cyro Marx, elabora a expografia de Barroco no Brasil, mostra inaugural do Museu de Arte Brasileira (1961). Participa da VI Bienal de São Paulo (1961).
Em 1962, funda a editora infantil Giroflé, em sociedade com Sidónio Muralha e Fernando Correia da Silva. Ilustra A televisão da bicharada (1962), primeira das cinco publicações da editora. Em 1962, a convite do professor Lourival Gomes Machado, diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, atua como assistente na universidade.
Em 1963, recebe bolsa de estudos da Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa) para viajar ao Japão. Permanece seis meses no país, onde frequenta estúdios de calígrafos, colabora com revistas de arte e arquitetura e participa da decoração do Pavilhão do Brasil na v Feira de Tóquio.
1964
Em 1 de abril de 1964, um golpe civil-militar depõe o presidente João Goulart e instaura uma ditadura no Brasil. Vence o concurso da TAP (Transportes Aéreos Portugueses) em 1964 para criar tapeçarias para as lojas de São Paulo e Rio de Janeiro. No mesmo ano, a Giroflé encerra as atividades, e Lemos se afasta do cargo na FAU-USP. Participa como jurado e artista na VIII Bienal de São Paulo (1965). No mesmo ano, torna-se sócio do Estúdio de Criação Maitiry, a convite do escritor Audálio Dantas e do fotógrafo George Torok. Colaboram com o estúdio o artista Aldemir Martins, o fotojornalista Paulo Namorado, o fotógrafo Luís Autuori, o cineasta Jorge Bodanzky e o designer Décio Pignatari.
Participa da fundação da Associação Brasileira de Desenho Industrial (ABDI) em 1966, da qual se torna presidente (1968-1969). Entre 1964 e 1968, colabora com estampas para coleções da Rhodia. Em 1968, o Ato Institucional n. 5 (AI-5) e intensifica a repressão do regime. Dirige com Jorge Bodanzky a fotografia do filme Compasso de espera (1969), de Antunes Filho. Organiza a I Bienal Internacional de Desenho Industrial, realizada no MAM Rio (1968). Casa-se pela segunda vez, em 1970, com Beatrix Overmeer.
1973
Atua na direção técnica do MAM-SP (1973), no centro de informação da Secretaria de Cultura da Prefeitura Municipal de São Paulo (1973) e na programação visual e do novo código de obras da cidade (1973). Em 1975, assume a supervisão da área de Artes Gráficas do Idart (Departamento de Informação e Documentação Artísticas), onde produz a primeira pesquisa publicada pelo departamento: A vinheta: da iluminura à carroçaria de caminhão (1976-1980). Trabalha como assessor gráfico da Galeria Arte Global, onde expõe a série TV/75 (1975). Participa da XV Bienal Internacional de São Paulo (1979) e da exposição A fotografia na arte moderna portuguesa, no Centro de Arte Contemporânea do Porto (1977), onde retoma as fotografias surrealistas.
Em 25 de abril de 1974, a Revolução dos Cravos inaugura o processo de transição democrática em Portugal, após 48 anos de ditadura. Fernando Lemos visita Portugal em 1975, após 22 anos em exílio. No Brasil, tem início o processo de abertura política. Em 1978, o governo revoga o AI-5 e, em 1979, é sancionada a Lei da Anistia.
1982
Em 1982, o acervo do Idart passa a ser gerido pelo Centro Cultural São Paulo. Fernando Lemos assume a direção do CCSP entre março e agosto de 1983, sucedendo o arquiteto Ricardo Ohtake. Expõe a série Desenho/memórias. O movimento Diretas Já tem início em 1983. Em 1985, junta-se a artistas plásticos na campanha de Fernando Henrique Cardoso para a prefeitura de São Paulo. Publica o livro de poesias Cá & lá (1985), no qual pensa seu processo de emigração para o Brasil. Trabalha como programador visual na construção do Memorial da América Latina, em 1987. Em 1988, o Brasil promulga sua Constituição democrática.
1991
Participa da exposição coletiva Cidadania: 200 anos da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1991). Realiza o painel de cerâmica Des-aceleração, na estação Brigadeiro do Metrô de São Paulo (1991). Apresenta no Centro Cultural Calouste Gulbenkian em Paris a mostra Fernando Lemos. Le Mois de la Photo à Paris: novembre 1992. Dois anos depois, a exposição À sombra da luz retoma sua produção fotográfica surrealista (1949-1952), na Fundação Calouste Gulbenkian de Lisboa, e seu trabalho fotográfico será exposto em 1998 na Alemanha, na Espanha e em Marrocos. Participa da exposição Greenpeace: 50 anos de bomba atômica (1995) e do projeto Contato (1995), iniciativa sensibilização sobre a epidemia da aids promovida pelo Sesc São Paulo. Em 1997, com artistas e personalidades brasileiras e portuguesas, organiza o Movimento 25 de abril pela Libertação do Timor-Leste.
2000
Publica o livro Retratos de quem (2000). Recebe o Prêmio Nacional de Fotografia do Centro Português de Fotografia (2001), o Prêmio Especial de Fotografia Porto Seguro (2004) e o Prêmio de Pintura Banif Consagração (2008). Organiza o livro A missão portuguesa (2003), com o arquiteto Rui Moreira Leite, e publica Na casca do ovo, o princípio do desenho industrial (2003).
Realiza as exposições de fotografia À sombra da luz, à luz da sombra, na Pinacoteca de São Paulo (2004), Preto e branco (2008), na Galeria Olido, organizada pelo CCSP, Fernando Lemos e o surrealismo, no Sintra Museu de Arte Moderna (2005), e Fernando Lemos: alguns amigos, 1949-1951, na Fundação Calouste Gulbenkian (2004). Publica a monografia Percurso (2010). Expõe as séries Ex-fotos (2001-2009) e Isto é isto (2007-2008), na Fundação Arpad Szenes em 2010. São lançados os documentários Fernando Lemos: atrás da imagem (2006), de Guilherme Coelho, e Luz teimosa (2010), de Luís Alves de Matos.
2011
Realiza as exposições Eu sou fotografia (2011), na Fundação Cupertino de Miranda; Lá e cá (2011), na Pinacoteca do Estado de São Paulo; Desenho diacrónico (2011), com poesias de Adolfo Luxúria Canibal, em Lisboa; Medo-a-medo (2013), na Galeria Fass; e O real como enigma (2015), na Galeria Millan. Lança o livro Meu gráfico binário (2014), por ocasião de exposição no Consulado Geral de Portugal em São Paulo. Recebe o Grande Prêmio da Crítica da APCA em Artes Visuais (2016). Ilustra A desumanização (2017), de Valter Hugo Mãe. Publica Fernando Lemos: Hilda Hilst (2018), organizado por Augusto Massi, com suas fotografias da escritora. São lançados os documentários Fernando Lemos: como, não é retrato?, de Jorge Silva Melo (2018), e Mais a mais ou menos, de Ana Angélica Costa e Fernando Petermann (2019).
2019
Em 2019, o Instituto Moreira Salles adquire seu arquivo com fotografias, desenhos e documentos. São realizadas as exposições Fernando Lemos: designer, no Museu do Design e da Moda de Lisboa, e Fernando Lemos – Mais a mais ou menos, no Sesc Bom Retiro. O livro Fernando Lemos: poesia é publicado com coordenação de Valter Hugo Mãe. Segue em atividade até sua morte, em 2019.
Após sua morte, sua obra é objeto das exposições O calígrafo ocidental: Fernando Lemos e o Japão (2024), na Fundação Calouste Gulbenkian, e As imagens que nos olham: Fernando Lemos (2026), na Fundação Cupertino de Miranda; e dos livros Japão, organizado por Rosely Nakagawa, Correspondência: Fernando Lemos e Jorge de Sena (2022), organizado por Isabel de Sena e Rui Moreira Leite, e Isto não é uma biografia – Fernando Lemos 1926-2019 (2026), de Tania Martuscelli.
2026
A exposição Quanto mais desejo, mais invento o que vejo, Fernando Lemos abre no Instituto Moreira Salles, São Paulo.
