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A noite dos mortos-vivos

19 de julho de 2018

As salas de cinema do IMS em São Paulo e no Rio exibem em julho A noite dos mortos-vivos, que está completando 50 anos e ainda serve de matéria-prima para reflexão sobre os Estados Unidos e o mundo hoje.

A exibição em retrospectiva de um filme marcante na linha do tempo da cultura e do cinema vem sempre acompanhada de uma certa melancolia para quem a programa. Será que a descoberta do filme na sala de cinema terá o bem-definido contexto que o trouxe à cultura? Qual o risco de o filme ser tratado como apenas mais um subproduto da cultura que ele mesmo criou? Esse mês, trazemos para a nossa programação a cópia restaurada de A noite dos mortos-vivos (Night of the Living Dead, 1968), de George A. Romero, falecido no ano passado. O filme está completando 50 anos.

A programação recente de Eles vivem (They Live, 1988), de John Carpenter, nas duas salas do IMS, já trazia a ideia do filme como “documento” de época, mesmo que a obra em si nunca tenha tido a pretensão de “documentar” nada, mas talvez apenas de canalizar um estado de espírito do momento em que foi escrito e filmado. Enxergar de forma cristalina o “documento” que há num exercício de tensão e horror como A noite dos mortos-vivos me parece tão instigante quanto a apresentação de um documentário que registra o dito real.

Os 50 anos nos informam que “mortos-vivos” ou “zumbis” integram o vocabulário afetivo do cinema, da TV, do YouTube e dos games, da comédia, do camp e do trash, da mesma forma que fazem parte de uma visão politizada do comentário social. E que tudo isso teve um início bem marcado em A noite dos mortos-vivos.

Nada do que é representado aqui em preto e branco e aspecto de tela Academy (tela quadrada 1.37:1) aconteceu de fato. Cadáveres de mortos recentes retomam a capacidade de movimento e ação, atacando a dentadas os vivos que, infectados pelas feridas, logo irão transformar-se em mortos-vivos, não importa se velhos, homens, mulheres ou crianças. Os vivos entrincheiram-se numa propriedade rural na Pensilvânia, numa luta claustrofóbica pela sobrevivência.

Cena de A noite dos mortos-vivos, dirigido por George A. Romero: o filme completa 50 anos em 2018 e é um dos destaques no IMS em julho

Romero continuou sua carreira, criando uma obra marcante no horror, e as sequências do filme, Despertar dos mortos (Dawn of the Dead, 1978) e Dia dos mortos (Day of the Dead, 1983), nos levaram a imagens até então impensáveis no cinema, com uma lógica impactante de necrotério, algo semelhante à conquista da pornografia no campo não muito distante da sexualidade registrada.

A paixão americana por armas de fogo, o apego à propriedade privada, e sua defesa, as imagens icônicas já se anunciam a partir da sequência de abertura, em que dois irmãos visitam um cemitério. Visto em 2018, como ficam os elementos marcantes desse filme? O herói negro e o que termina acontecendo com ele no final? Subproduto dos Estados Unidos que viviam a luta pelos direitos civis, Romero inclui isso no filme sem qualquer menção direta à questão, e seu comentário é humano e mordaz.

Talvez a real noção de um documento em cinema é sentir como um filme do passado ainda conversa tão bem com os tempos de hoje e com a cultura e a nação que o produziram, como fonte inspiradora, matéria-prima de reflexão. Os Estados Unidos e o mundo hoje estão cristalinos em A noite dos mortos-vivos.

  • Kleber Mendonça Filho é curador de cinema do Instituto Moreira Salles.

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