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Acorda, gravidade!

12 de setembro de 2018

Abaixo a gravidade, de Edgard Navarro, será apresentado em setembro de 2018, com sessões seguidas por debate. Em 2017, o longa-metragem recebeu os prêmios de Melhor Filme pelo júri Abraccine, Melhor Direção de Arte e Melhor Ator Coadjuvante para Ramon Vane no Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro. A revista Cinética faz sessões mensais nos cinemas do IMS, abrindo mais um espaço de reflexão e apreciação de filmes fora do circuito exibidor tradicional. Além disso, críticos da revista produzem textos especiais para as sessões e mediam um debate após a exibição.

“Acorda, humanidade!”: com esse grito imperativo começava a epifania do morador de rua em Superoutro (1989), o filme de Edgard Navarro cujo desfecho faz a ponte com seu trabalho mais recente. Eram justamente Abaixo a gravidade (2017) as últimas palavras do protagonista, antes de se atirar do alto do elevador Lacerda para um voo transcendental e simbiótico com Salvador. A mesma expressão apareceu novamente em O homem que não dormia (2011), e agora se torna convite direto para um novo mergulho no imaginário de um de nossos mais irreverentes e inventivos realizadores. Dono de uma trajetória que começa nos anos 1970 em curtas-metragens feitos em super-8, Navarro chega aqui ao terceiro longa-metragem. Para além das alcunhas de iconoclasta e provocador, seu cinema é, acima de tudo, um cinema do prazer. O prazer da carne se mistura ao prazer de filmar, tesão represado se transfigura em explosão excitada de imagens e sons. Sente-se a genuína atração por todos os planos e transições de cena, pelos corpos em movimento e palavras proferidas, pelos delírios surreais e tomadas de consciência.

Abaixo a gravidade é a elegia de um homem que, ao final da vida, constata que o mundo gira e gira sem sair do lugar. Que a lei da gravidade a certa altura seja revogada é o mote simbólico para que o diretor desenvolva, entre a melancolia e a alegria, os descaminhos de um personagem que não difere tanto de Navarro. Surge na tela um Everaldo Pontes intenso e apaixonado, em busca de entender por que o mundo até podia ser mais, mas sempre caminha para ser menos. Bené, contraparte de Navarro, é também, conforme o diretor costuma revelar em entrevistas, uma versão de Luiz Paulino dos Santos, mí(s)tico cineasta baiano (o primeiro dono de Barravento, antes de Glauber Rocha aparecer) que optou por se afastar da urbanidade e fundar sua própria comunidade num interior longe das cidades. Luiz Paulino morreu em 2017, ano das primeiras exibições de Abaixo a gravidade.

O filme é dedicado a Paulino e a Carlos Reichenbach, Andrea Tonacci e Ramon Vane. Todos artistas marcados pela quebra de paradigmas, pela ousadia criativa e, especialmente, pela não conformidade com qualquer tipo de amarra ou status quo. Edgard Navarro é dessa linhagem, e faz parecer lógico que seu diálogo se dê nessas instâncias. Acrescido da montagem precisa de Cristina Amaral, outra da mesma turma fora de série, Abaixo a gravidade é um filme contra o poder estabelecido e contra as convenções, posicionando-se diante disso tudo com ternura e compreendendo que não basta chutar a porta, e sim também oferecer um caminho alternativo de apreensão. Bené se afastou da cidade grande numa “busca espiritual”, e encontra decepção e desilusão quando decide retornar. Cheio de doenças (entre elas, um mal que lhe obriga a tomar remédios cujos efeitos colaterais incluem disfunção erétil), não consegue entender como pode estar nessa situação-limite após ter abdicado de um mundo corroído. Nas andanças de gosto agridoce pelas ruas de Salvador, depara-se com uma nova urbanidade, tão moderna quanto violenta. Se Bené é levado de volta à civilização pela ilusão do amor (que ele erroneamente acredita ter conquistado), os obstáculos com os quais se depara acabam por devolvê-lo à percepção de antes – de que algo não respira bem entre prédios e ruas e carros e gentes.

Em sua jornada, Bené cruza (ou não) os caminhos de diversos outros personagens, que formam uma fauna de pessoas como se vinda de outros filmes do diretor, numa espécie de “navarroverso” que aqui se atualiza. Dos mendigos ao rés do chão, passando pelo trabalhador de rua e chegando às elites no topo das coberturas, nos shoppings ou nos consultórios de psicanálise: existe um espírito em comum entre todos eles, e esse espírito se resume na inquietação. Um morador de rua constrói asas e quer voar; outro profetiza o fim dos tempos; um homem rico se consulta na tentativa de entender a si e aos próprios devaneios; uma estátua viva remete ao Pensador de Rodin e quebra a imobilidade da escultura para se atirar na incerteza do movimento. “As respostas não estão dentro da mente. Se elas existem, elas estão lá naquele outro abismo, que é um abismo real, não um abismo mental”, disse Navarro, numa entrevista publicada em 2012 na revista Cinética.

A referência à estátua de Rodin é explícita (no filme, há uma réplica dela transportada por helicóptero pelos céus de Salvador). A imagem do Pensador é o contrafluxo de Abaixo a gravidade: o filme quer se abrir ao mundo, expandir os braços, abraçar o (super)outro. O réquiem de Bené, tão simples quanto infinito, leva consigo o desejo de estar, de ocupar um espaço, de compartilhar os afetos que lhe atravessam, de passar adiante a energia acumulada pelos exercícios de meditação e oração. Tal feito só acontece de fato na passagem do asteroide pela Terra, movimento surreal do filme que dialoga com todo o trabalho anterior de Edgard Navarro. Pela forma delirante, seus personagens extrapolam os limites impostos a eles. Se, até certa altura, Abaixo a gravidade se constrói calmamente por um fluxo naturalista de relações humanas entremeado por momentos de bom humor, os “ruídos” que pipocam aqui e acolá logo tomam toda a narrativa, (e)levando o filme literalmente aos céus (com e sem asas), ou a um salto janela afora (como faz a personagem de Rita Carelli).

Artífice de uma brincadeira muito séria, Navarro encaminha o olhar para o impossível e o imponderável. A cada plano, nada nos adianta a cena seguinte; de um Bené condutor narrativo, chega-se à implosão de tipos e pontos de vista. O grito de “abaixo a gravidade!” se impõe como ação imperativa, e “acorda, humanidade!” parece ribombar lá de Superoutro para este filme. Navarro afirmou numa entrevista ao Correio Braziliense em 2017: “A palavra ‘gravidade’ assume aqui uma conotação dupla: abaixo a gravidade da doença, da situação de injustiça social, de violência e desamparo daqueles que vivem abaixo da linha da miséria. E, ao fim e ao cabo, um apelo utópico – ‘abaixo a gravidade!’, como se com a repetição desse mantra fosse possível anular o efeito malévolo do quebranto que nos circunscreve a todos num círculo vicioso de miséria e horror.”

Quando a gravidade volta a impor sua lei, Bené opta novamente por se afastar. Vai à rodoviária e compra uma passagem de ônibus. “Para onde?”, quer saber a atendente. “Qual o seu destino?”, insiste ela. Ele pede para viajar para o céu. A atendente dá um sorriso cúmplice. Nunca encarnando ambições de um pensador, Bené, no desfecho, apenas pensa a dor. No ônibus, ao som da voz de Gilberto Gil, retoma seu ciclo e volta ao interior – da Bahia? do mundo? de si mesmo? A humanidade acordou, mas para quê?

  • Marcelo Miranda é crítico da Revista Cinética.

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