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Apocalipse sem fim

03 de julho de 2020

A cada duas décadas, Apocalypse now retorna para nos assombrar. Apresentado como work in progress no festival de Cannes em 1979, causou furor e ganhou a Palma de Ouro, e por isso a United Artists resolveu lançá-lo nos cinemas tal como estava. Em 2001 surgiu Apocalypse now redux, acrescido de cenas que tinham sido deixadas de fora. No ano passado Francis Coppola deu ao mundo uma terceira versão, que ele decretou como definitiva, com o nome de Apocalypse now – Final cut.

É essa versão definitiva (por enquanto) que agora chega ao streaming no Belas Artes à la carte. Com três horas de duração, tem cerca de quarenta minutos a mais que o filme original e catorze a menos que a versão Redux.

Para quem viu a cópia mais longa, o que o diretor fez agora foi basicamente enxugar três sequências: a das coelhinhas da Playboy, excluindo os encontros dos soldados com as playmates depois do espetáculo; a da plantação francesa no Camboja, encurtando a discussão política; e a da aldeia de Kurtz (Marlon Brando), eliminando uma cena em que, cercado de crianças, ele lia em voz alta artigos da revista Time sobre o Vietnã.

O efeito geral foi o de tornar ainda mais contundente essa obra inesgotável, que sintetiza, talvez como nenhuma outra, o espírito e a matéria de nossa época. Não apenas no resultado final, mas também em sua longa e conturbada realização.

 

Enlouquecendo aos poucos

O próprio Coppola, ao apresentar o filme em Cannes, definiu com precisão: “Assim como na guerra do Vietnã, estávamos no meio da selva, éramos muitos, tínhamos acesso a muito dinheiro, muito equipamento, e pouco a pouco fomos enlouquecendo”. É essa loucura que está impressa em cada fotograma de Apocalypse now, das magníficas imagens iniciais, que fundem o rosto invertido do capitão Willard (Martin Sheen) ao voo lento de helicópteros, ao som das hélices e da canção The end, dos Doors, até as palavras finais sussurradas por Kurtz na penumbra: “The horror, the horror”.

Os fatos são conhecidos, e estão no esplêndido documentário Francis Ford Coppola: O apocalipse de um cineasta, realizado por Eleanor Coppola, mulher do diretor, e também disponível no Belas Artes à la carte.   Apocalypse now foi rodado nas Filipinas ao longo de quase um ano, em 1976 e 1977. Martin Sheen, que substituiu Harvey Keitel com a produção já iniciada, teve um enfarte no meio das filmagens e quase morreu. Brando ameaçou não aparecer quando já tinha recebido US$ 1 milhão de adiantamento. O próprio Coppola teve um colapso e esteve à beira do suicídio.

Todos conhecem também a história, que transpõe livremente o enredo do livro Coração das trevas, de Joseph Conrad, para a guerra do Vietnã: em 1969, o capitão Willard tem como missão encontrar e eliminar o coronel extraviado Kurtz, que aparentemente enlouqueceu e criou um macabro reino particular, cercado de nativos que o veneram como um deus. Para isso Willard tem que subir o rio Mekong até os confins do Camboja num pequeno barco, com um punhado de jovens soldados.

O essencial, a meu ver, é que Coppola tentou e conseguiu a proeza de realizar uma obra que é ao mesmo tempo um filme de ação eletrizante e um tratado moral e político de grande ressonância. “Eu não queria fazer algo na tradição elevada de Max Ophüls ou David Lean, mas na de Irwin Allen (produtor e diretor de filmes B e seriados como Viagem ao fundo do mar e Perdidos no espaço), um filme excitante, com ação, sexo, violência, humor, com um solavanco a cada cinco minutos”.

 

Ação e reflexão

A ação, a adrenalina, eram fornecidas pelo roteiro original de John Milius, que Coppola equilibrou com a inquietação filosófica e moral da novela de Conrad. Essa foi sua alquimia.

Houve quem dissesse que ele exagerou na dose de espetáculo, obscurecendo todo o resto. Stanley Kubrick, que anos depois faria o igualmente impactante Nascido para matar, observou que Coppola havia criado uma armadilha para si próprio, condenando-se à necessidade de apresentar um assombro cada vez maior a cada passo. “A certa altura, pensamos: o que falta agora? Aparecer o King Kong?”

Já o diretor de fotografia Vittorio Storaro, praticamente um coautor de Apocalypse now, compreendeu logo a intenção do cineasta. “Francis dizia: não é um documentário, é um grande espetáculo. Porque, aonde quer que os americanos vão, eles fazem um enorme show.”

Daí os momentos de formidável força visual: o ataque dos helicópteros ao som da “Cavalgada das Valquírias”, o show das coelhinhas da Playboy, os fogos cruzando o céu noturno na ponte que marca a fronteira do Vietnã com o Camboja, a fantasmagórica fazenda francesa, o templo em ruínas convertido em palácio de Kurtz, decorado com cadáveres e caveiras. Nos anos 60, a cultura pop americana havia invadido a guerra do Vietnã com tudo: o rock, as drogas, a televisão.

Mas é impossível deixar de notar um adensamento dramático à medida que nos aproximamos do final. Tudo vai ficando mais solene, noturno, lento e silencioso. Willard e Kurtz são filmados num claro-escuro de pintura barroca, em que quase sempre seus rostos estão iluminados apenas em parte, expressando visualmente a ideia conradiana da dualidade do bem e do mal no interior de cada indivíduo.

É esse, em essência, o grande mote do filme. Kurtz, à primeira vista, rompeu diversas fronteiras: entre Vietnã e Camboja, entre sanidade e loucura, entre civilização e barbárie. Mas, ao ser interpelado por Willard, ele questiona a própria existência, ou ao menos a nitidez, dessa separação. Sanidade é loucura, civilização é barbárie, ele parece nos dizer, com base em Conrad e em T. S. Eliot, cujo poema “Os homens ocos” ele lê na penumbra. (Há aqui um jogo intertextual sutil, uma vez que o poema de Eliot tem como epígrafe uma frase do livro de Conrad: “Mistah Kurtz – he dead”.)

Numa passagem eloquente, irritado com uma camponesa que joga uma granada no interior de um helicóptero, o coronel Kilgore (Robert Duval) vocifera: “Malditos selvagens”. Só que minutos antes ele havia bombardeado uma aldeia ao som de Wagner, matando indiscriminadamente velhos, mulheres e crianças. Onde a civilização? Onde a barbárie?

 

Colonialismo e imperialismo

Se Coração das trevas colocava em xeque a colonização europeia na África, Apocalypse now discute o lugar dos Estados Unidos no mundo. O encontro da equipe de Willard com a família francesa que mantém sua fazenda em ruínas no meio da selva é revelador. Num jantar regado ao melhor vinho francês, o capitão pergunta ao anfitrião quando eles pretendem voltar para casa, na França. O outro responde: “Nossa casa é aqui, há mais de setenta anos. Por isso lutamos contra vietnamitas e cambojanos. Para ficar. Ao passo que vocês, americanos, guerreiam por um grande nada”.

Estava ali, naquele diálogo, a diferença entre o velho colonialismo europeu, que consistia em ocupar e explorar in loco uma região, e o imperialismo norte-americano, que prescinde da ocupação permanente, bastando-se com a conquista da influência geopolítica, econômica e cultural.

É nesse aspecto que o próprio modo de produção do filme repete essa dinâmica de dominação. Para realizar sua obra-prima, Coppola – e, por extensão, Hollywood – bombardeou e incendiou quilômetros de selva filipina, usou trabalho semiescravo de milhares de operários e figurantes, fez acordo com o ditador Ferdinand Marcos para usar seus helicópteros e equipamentos militares, recrutou nativos Ifugao (vindos de outra região das Filipinas) para representar os fiéis de Kurtz, invadiu e desfigurou rituais e chegou a usar em certas cenas pedaços de cadáveres reais roubados no necrotério.

Para se ter uma ideia do abismo material, Marlon Brando ganhou US$ 3 milhões por três semanas de filmagem, enquanto os operários locais que carregaram blocos de argila de 150 quilos para construir o templo cambojano em ruínas receberam entre um e três dólares por dia.

Não se trata de questionar moralmente se tudo isso se justifica para a criação de uma grande obra de arte. Um debate semelhante ocorreu quando Werner Herzog filmou Aguirre e Fitzcarraldo na Amazônia, estabelecendo uma relação no mínimo abusiva com o ambiente e sua população nativa. Há argumentos pró e contra tais empreendimentos. O fato é que, ao retratar a loucura e a prepotência de seus personagens (Aguirre, Fitzcarraldo, Kurtz), esses grandes cineastas de certa forma emularam o mesmo mecanismo de dominação.

“Diretor de cinema é um dos últimos postos em que se pode ser ditador”, diz Coppola no documentário Apocalipse de um cineasta, acrescentando: “Num mundo cada vez mais democrático”. Esta última frase parece ser dita com certo lamento sarcástico. Mas isso talvez seja só impressão minha.

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