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Cinema do absurdo

13 de agosto de 2020

Se existe um cinema do absurdo (assim como se fala de um “teatro do absurdo”), Deerskin: estilo matador certamente faz parte do gênero. Basta dizer que, nele, um homem conversa com sua jaqueta de couro de corça e esta lhe ordena que elimine todas as outras jaquetas da face da terra. O filme de Quentin Dupieux, exibido no festival de Cannes do ano passado, chega nesta sexta-feira (14 de agosto) a várias plataformas de streaming: Now, Vivo Play, Apple TV, YouTube Filmes e Google Play.

O homem em questão é Georges (Jean Dujardin), um quarentão de classe média que vai a um lugarejo no interior da França para comprar, por uma soma astronômica, a tal jaqueta, cheia de franjas como a de um caubói ou cantor country. Na compra, ganha de brinde uma câmera cinematográfica digital. Instala-se então num hotelzinho da região e dedica-se a fazer um filme, embora não tenha a menor noção da técnica necessária.

Quem o ajudará na empreitada será uma jovem garçonete (Adèle Haenel) que nas horas vagas brinca de editar imagens no computador. Diz ela que, entre outras coisas, remontou Pulp fiction em ordem cronológica. “Ficou uma merda”, sentencia. Tudo a ver: no cinema, a ordem dos fatores altera totalmente o produto.

A referência a Tarantino não terá sido em vão. Unindo seus dois propósitos – fazer um filme e eliminar todas as jaquetas do mundo –, Georges embarca numa sequência de ações estapafúrdias e crescentemente brutais.

Contando assim, parece uma loucura – e é mesmo. Só que, diferentemente do onirismo genial de um Buñuel ou um David Lynch, os disparates aqui têm uma única fonte, são como que a condução ao limite de uma lógica precisa. Dito de outra maneira: há uma explicação ou motivação única para todos os absurdos perpetrados.

A questão que permanece em aberto é a natureza dessa explicação. Seria fácil encerrar o assunto diagnosticando o protagonista como esquizofrênico. De fato, em seus “diálogos” com a jaqueta, vemos o próprio ator proferindo as palavras da vestimenta. Mas há uma cena que desconcerta sutilmente essa leitura: aquela em que Georges está dormindo e a jaqueta fala com ele.

 

Fantasia e humor negro

Talvez seja o caso de lembrar que o diretor Quentin Dupieux tem um pendor para dar vida e consciência a objetos inanimados: um de seus filmes mais divertidos é Rubber, o pneu assassino (2010), cujo título já diz tudo. É disso que se alimentam a sua fantasia e o seu humor negro.

Do ponto de vista da construção cinematográfica, o essencial a notar aqui é que, à força de suas elipses precisas e da manipulação sagaz do ponto de vista, Dupieux consegue fazer com que a narração se dê ao mesmo tempo “de dentro” e “de fora” do protagonista. Melhor dizendo: é como se víssemos a história do ponto de vista de Georges, mas este se deixasse flagrar a contragosto em suas inconsistências e fraquezas.

Para a eficácia dessa estratégia narrativa, um fator fundamental é a atuação de Jean Dujardin, que ganhou o Oscar por O artista (2011) e que aqui compõe um palerma completo, similar ao “videota” de Muito além do jardim (Hal Ashby, 1979).

Toda a ação se dá a partir do momento em que Georges, recém-separado da mulher, entra numa espécie de vazio existencial, deparando-se com uma vida adulta para a qual não está preparado intelectual e psicologicamente. A partir daí, ele age como uma narcísica e egocêntrica criança crescida, desprovida de empatia e de superego. Pensando bem, não é um personagem assim tão raro em nosso tempo.

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