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Notícias do fim do mundo

19 de março de 2020

Cinemas fechados ou vazios, cenário de desolação, atmosfera de desconfiança e medo. Estamos nos adaptando a uma situação de guerra em tempos de paz – e já vimos esse filme, se não na vida, ao menos nas telas de cinema.

Isolado em casa, o cinéfilo não corre o risco da crise de abstinência. Nas inúmeras plataformas – do DVD ao streaming, dos canais por assinatura à pirataria digital – há uma miríade de filmes e séries em oferta.

 

Mergulho no medo

Diante do caos lá fora, há os que optam por uma distração escapista: musicais esfuziantes, comédias românticas, dramas sentimentais. Mas é possível também adotar a atitude oposta e mergulhar no coração do pânico e da paranoia, como forma de exorcizá-los.

Neste segundo caso, uma opção óbvia são os filmes de epidemia, como A peste (Luiz Puenzo, 1992) e Contágio (Steven Soderbergh, 2011), mas talvez não sejam as melhores escolhas, justamente porque estão próximos demais da realidade atual. E nem são tão bons assim.

Em A peste, o argentino Puenzo parece ter sucumbido sob o peso da grande produção internacional com elenco estelar (William Hurt, Sandrine Bonnaire, Raul Julia, Robert Duvall) e sobretudo da responsabilidade de lidar com um clássico da literatura do absurdo, o romance homônimo de Albert Camus, que tinha a cidade argelina de Oran como palco de uma epidemia quase kafkiana. O diretor acabou não conseguindo impor uma leitura pessoal.

Contágio, por sua vez, parte de uma ideia promissora – o surgimento de uma doença mortal disfarçada de gripe comum – para cair num drama de suspense pouco mais que convencional. O “realismo” limita seu alcance psicológico e, digamos, metafísico.

 

Aliens entre nós

Mais interessantes me parecem as obras em que o medo do contágio e a sensação de apocalipse aparecem transfigurados por uma fantasia desbragada. Não são filmes “de doença”, propriamente, mas falam de um mal difuso que pode se apossar insidiosamente das pessoas à nossa volta. O perigo pode vir do vizinho, do marido, do irmão.

Nessa ordem de filmes, há duas espécies que se destacam: os de alienígenas que assumem formas humanas conhecidas e os de zumbis ou mortos-vivos. Os primeiros costumam ser classificados como ficção científica e os últimos como terror, mas há uma linha subterrânea que os une.

No primeiro caso, o dos clones extraterrestres, o clássico absoluto é Vampiros de almas (Invasion of the body snatchers, Don Siegel, 1956), em que alienígenas invasores clonam humanos comuns, incubando as réplicas em enormes vagens. Costuma-se relacionar essa obra-prima à paranoia anticomunista da Guerra Fria, em que cada vizinho e até mesmo cada parente poderia ser um “vermelho infiltrado”.

O fato é que a ideia era tão fecunda que inspirou um seriado de TV (Os invasores, de Larry Cohen, 1967-68) e gerou dois remakes notáveis: Invasores de corpos (Philip Kaufman, 1978) e Os invasores de corpos: a invasão continua (Abel Ferrara, 1993), cada um deles com uma ênfase distinta e uma marca autoral forte.

A franquia iniciada com Homens de preto (Barry Sonnenfeld, 1997), inspirada em história em quadrinhos de Lowell Cunningham, leva essa ideia para um lado cômico-policial com eficácia decrescente a cada novo filme.

Mas o desenvolvimento mais estimulante e subversivo do tópico talvez seja Eles vivem (John Carpenter, 1988), em que os alienígenas já dominam o planeta, infiltrados nos postos-chaves do poder e sustentados numa lavagem cerebral operada pela publicidade.

 

Zumbis e assemelhados

Já o filão dos zumbis ou mortos-vivos tem como referência incontornável os fabulosos filmes do “especialista” George Romero, começando em 1968 com A noite dos mortos-vivos e prosseguindo nas décadas seguintes com cinco outros longas-metragens, o último deles A ilha dos mortos (2009).

Inspirado remotamente nos zumbis do culto haitiano do vodu, o esquema dos filmes de Romero estabeleceu um padrão quase universal: mortos retornam à vida e se alimentam de carne humana; os vivos atacados, por sua vez, transformam-se também em zumbis. O terror maior talvez não venha dos ataques das hordas de mortos-vivos, mas do fato de que, num primeiro momento, os “contaminados” mantêm seu aspecto habitual, antes de começar a se arrastar como autômatos e ter o corpo deformado.

Uma recriação recente desse mito moderno é o notável Invasão zumbi (2016), do sul-coreano Yeon Sang-ho, centrado em um grupo de jovens atacados por mortos-vivos num trem entre Seul e Busan.

Curiosamente, um dos filmes de Romero que não é de mortos-vivos trata justamente de uma epidemia: é O exército do extermínio (1973), em que um vírus criado em laboratório causa loucura e morte numa cidade da Pensilvânia, ocasionando uma vasta operação militar.

Mas os micro-organismos nem sempre foram os vilões invisíveis. No clássico B de ficção científica A guerra dos mundos (Byron Haskin, 1953), inspirado no romance homônimo de H. G. Wells, invasores extraterrestres quase destroem a Terra, e só são detidos quando contaminados por uma bactéria que para nós é inócua, mas para a qual eles não têm anticorpos. A história, que gerou a célebre versão radiofônica de Orson Welles em 1938, produziu no cinema um punhado de remakes, um deles dirigido em 2005 por Steven Spielberg. Nenhum com a beleza extravagante e singela do original de 1953.

 

 

Opções gratuitas

Dois bons programas gratuitos para quem está enfurnado em casa. Um deles é o Spcineplay, canal de streaming da Spcine, a empresa de cinema da prefeitura de São Paulo, que está deixando acessível gratuitamente por trinta dias o seu catálogo, repleto de filmes brasileiros recentes e clássicos, e de ótimos títulos estrangeiros também.

A outra indicação é a série em cinco episódios Paulo Freire: um homem do mundo, dirigida por Cristiano Burlan para o SescTV, e que também está disponível de graça. É um ótimo apanhado da formação, das ideias e da atuação pública do nosso maior educador, não por acaso persona non grata nos círculos obscurantistas que (ainda) estão no poder.

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