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O forasteiro Sterling Hayden: Johnny Guitar + Farol do caos

17 de fevereiro de 2025

Na década após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos da América passaram por um clima particular de hostilidade. No pensamento popular da época, não era o suficiente ser o país mais rico e forte do mundo – esta força tinha de ser protegida a todo custo. Daí surgiu a fase mais intensa do movimento anticomunista norte-americano, que ganhou corpo através de entidades como o Comitê de Atividades Antiamericanas [HUAC], na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos. Seus esforços bipartidários para proteger o país contra a então chamada “influência estrangeira” do comunismo representaram um projeto xenofóbico com fortes dimensões de racismo e antissemitismo. Porém, os mais prejudicados pelo trabalho do senador Joseph McCarthy e seus colegas não foram agentes da Rússia, mas artistas e ativistas da própria esquerda estado-unidense, cujas iniciativas a favor de uma sociedade menos desigual e mais solidária foram esmagadas pelo medo e pela raiva do momento. 

A Sessão Mutual Films de fevereiro de 2025 revisita esse período em dois filmes estrelados pelo ator norte-americano Sterling Hayden (1916-1986), um herói de combate na guerra e simpatizante da esquerda que delatou colegas ao comitê em 1951 e nunca se perdoou pela sua traição. O filme mais emblemático de Hayden é o faroeste hollywoodiano Johnny Guitar (1954), dirigido por Nicholas Ray (1911-1979), no qual ele interpreta um cowboy ambivalente, preso entre o passado e o presente, em uma alegoria franca sobre o macartismo. Em contrapartida, no documentário Farol do caos (Leuchtturm des Chaos, 1983), uma produção alemã, codirigida pelos cineastas e críticos de cinema Wolf-Eckart Bühler (1945-2020) e Manfred Blank (nascido em 1949), Hayden é entrevistado em seu barco-casa na França ao longo de alguns dias, durante os quais o ator revela sua personalidade frágil, porém rígida, que continua a prestar contas com seus atos passados. 

Juntos, os filmes apresentam um forasteiro que trabalhou para trazer à luz os males de um momento histórico em seu país, apesar de sua contribuição direta para eles. Segundo o cineasta e roteirista Abraham Polonsky – que foi um dos melhores amigos de Hayden, e teve de trabalhar de forma anônima em Hollywood por duas décadas após o testemunho do ator que o colocou na Lista Negra –, “Hayden fez mais do que apenas se arrepender e buscar o perdão daqueles a quem ele tanto prejudicou. Ele fez a coisa mais radical possível: ele mudou.”

A jornada de Hayden é detalhada no texto a seguir, que foi originalmente escrito por Alf Mayer – um jornalista e crítico alemão de cinema e coeditor do site culturmag.de – e incluído em 2018 no folheto do lançamento em DVD de Farol do caos pelo selo Edition Filmmuseum. O texto foi revisado e traduzido do inglês para o português com o consentimento do autor e da Edition Filmmuseum, através do Museu de Cinema de Munique, que também digitalizou a filmografia de Wolf-Eckart Bühler. Agradecimentos adicionais vão a Manfred Blank e Hella Kothmann, por fornecer informações sobre a realização de Farol do caos

A primeira edição da Sessão Mutual Films de 2025 é dedicada às memórias de todos os grandes atores de cinema que faleceram em 2024, entre eles, Alain Delon, Anouk Aimée, Donald Sutherland, Gena Rowlands, James Earl Jones, Jerzy Stuhr, Marisa Paredes, Paulo César Pereio, Silvia Pinal e Yoshiko Kuga. E, também, à memória da cineasta coreana-americana Christine Chang (1963-2024). 

Aaron Cutler e Mariana Shellard (curadores da Sessão Mutual Films)
Uns destroços sobre o ator, escritor e marinheiro Sterling Hayden

Nós, cinéfilos, o conhecemos como o personagem do filme Johnny Guitar – um cowboy cansado de brigar, armado apenas com a guitarra do título, parado entre duas mulheres no absurdamente belo faroeste em TruColor de Nicholas Ray, que parece ter sido imaginado pelo movimento surrealista. Nós o conhecemos por sua atuação como o general Jack D. Ripper, que lança uma bomba em direção ao apocalipse em Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, 1964), dirigido por Stanley Kubrick, ou como o bandido varapau Dix Handley em O segredo das joias (The Asphalt Jungle, 1950), de John Huston, que morre de forma elegíaca nos prados de uma fazenda de cavalos em Kentucky. Talvez até nos lembremos dele como um baleeiro duelando com um arpão, em Reinado do terror (Terror in a Texas Town, 1958), de Joseph H. Lewis. A filmografia de Sterling Hayden abrange mais de 60 filmes – mas ele se orgulhava de apenas alguns papéis, sendo Dix Handley, de longe, o principal.

Frequentemente, Hayden expressava um arrependimento amargo por algo que fez durante seus anos em Hollywood, até se autonomeando “Shirley” [Temple] nos momentos de autorrecriminação. Ele foi um fuzileiro naval condecorado, o único soldado norte-americano da II Guerra Mundial a receber congratulações do governo de seu país e do governo comunista liderado pelo marechal Tito, na ex-Iugoslávia. Como agente do serviço de inteligência (OSS), ele comandou um comboio de 400 barcos que levou suprimentos de Bari, na Itália, para os Partidários, e saltou de paraquedas na Iugoslávia ocupada atrás das linhas inimigas.

Hayden ficou impressionado com o espírito indomável dos Partidários dos Bálcãs, então, após a guerra, ele se associou ao Partido Comunista nos Estados Unidos. Ele foi membro por apenas seis meses, até as discussões teóricas começarem a entediá-lo. No clima da “ameaça vermelha”, que incluiu o apelo da influente colunista de jornal Hedda Hopper pela criação de campos de concentração para comunistas “antes que seja tarde demais”, Hayden temeu perder a guarda de seus filhos. Ele foi persuadido a tomar uma “atitude patriótica” e, no dia 10 de abril de 1951, testemunhou diante do Comitê de Atividades Antiamericanas (HUAC). Ele “deu nome aos bois” – como o jornalista norte-americano Victor S. Navasky, em seu livro Naming Names (1980), escreveu ao caracterizar aquele período de suspeitas e denúncias.[1] Ronald Reagan, que na época era presidente apenas do sindicado dos atores (Screen Actor’s Guild), enviou um telegrama para ele dizendo “Sterling, me orgulho de você!”. Mais de 2.000 matérias de jornal celebraram o novo herói, com manchetes como “Hayden desnuda seu passado comunista”.

Hollywood o recompensou com uma rápida série de filmes [33 em 7 anos]. Mas o próprio Hayden ficou quase destruído com sua traição. Como ele disse posteriormente [em sua autobiografia Wanderer]: “Não é com frequência que um homem se vê aclamado por algo que ele próprio despreza”. Não foi nos mares do mundo que ele passou a entender a desolação, mas em Hollywood. Sem o mar, onde Joseph Conrad disse que um homem prova sua coragem, Hayden, que frequentemente bebia de forma autodestrutiva, não teria vivido até os 70 anos. Talvez ele não tivesse atuado em 1900 (Novecento, 1976), de Bernardo Bertolucci, O perigoso adeus (The Long Goodbye, 1973), de Robert Altman, ou em O poderoso chefão (The Godfather, 1972), de Francis Ford Coppola. Talvez não tivesse escrito dois maravilhosos livros.

Sterling Hayden, que perdeu o pai quando tinha nove anos, ouviu o chamado das sereias do mar quando jovem.[2] Ele leu extensamente sobre viagens marítimas, junto com muitas obras de Rudyard Kipling; muitas vezes ele viajou com centenas de livros em sua cabine. Em 1932, com 15 anos de idade, ele seguiu o caminho do viajante sobre o qual leu nos livros, até chegar em Portland, Maine, a 100 quilómetros de sua casa. Lá, alguns marinheiros o deixaram passar a noite na escuna Restless, antes de mandá-lo de volta para casa. Logo depois, ele conseguiu um trabalho de marinheiro na grande escuna Puritan, que navegou pelo canal do Panamá até San Pedro, na Califórnia.

Uma vez de volta à costa leste, na cidade de Gloucester, em Massachusetts, um capitão de navio chamado Benjamin Pine levou Hayden para baixo de suas asas. O jovem ganhou a vida de forma honesta, com frequência tripulando para escunas de pesca em Gloucester. A camaradagem e o trabalho pesado em barcos e arrastões totalmente carregados – havia muita competição para ser o primeiro no porto com a pesca – o atraíram como nenhum outro trabalho faria. Foi assim também que Hayden aprendeu sobre a produção e o capitalismo: ele percebeu que a tripulação ganhava dois centavos de dólares por libra de peixe, e, quando sua mãe comprava o peixe ao meio-dia, o preço havia subido para 11 centavos.

Com apenas 20 anos, Hayden serviu como primeiro-marinheiro na escuna Yankee, em uma viagem de volta ao mundo. No ano seguinte, a escuna Gertrude L. Thebaud, de Gloucester – com 37,8 metros de altura, 30,2 metros na linha d’água e 650 metros quadrados de navegação – ganhou a Copa dos Pescadores, vencendo a Bluenose, do Canadá, que por anos dominava as corridas. Entre os tripulantes da escuna vencedora, estava Sterling, que, com 21 anos de idade, já era navegador do navio (o capitão Ben Pine pilotava o leme). A corrida entre os barcos canadenses e americanos, que ocorreu anualmente entre 1920 e 1938, era considerada “uma corrida para marinheiros de verdade”. Apenas escunas em atividade no mercado de peixes podiam participar. Em Gloucester, a volta dos vitoriosos foi celebrada com entusiasmo. A manchete de um jornal declarou “Thebaud navegou como uma estrela de cinema”, sob a foto do belo e vitorioso Hayden.

Ele teve seu primeiro comando aos 22 anos, sendo o mais jovem a bordo, e velejou a bergantim Florence C. Robinson 7.000 milhas até o Taiti. Ele estava radiante e pensou que a vida seria sempre assim. Hayden recusou dois convites para testes de elenco de Hollywood, preferindo passar seu tempo com uma embarcação que havia acabado de comprar com um sócio e rebatizar de Aldebaran, que havia pertencido ao kaiser alemão sob o nome de Meteor III. Mas, quando apareceu um vazamento no iate durante uma tempestade no cabo Hatteras, ele mudou de ideia.

A Paramount Pictures fechou com Hayden um contrato de sete anos. Seu primeiro filme foi o drama Virgínia romântica (Virginia, 1941), de Edward H. Griffith, no qual contracenou com o também norte-americano Fred MacMurray e a estrela inglesa Madeleine Carroll. Ele disse depois que o trabalho foi ridiculamente bem pago e trivial, porque havia pouco envolvimento, e ninguém realmente se importava. Mas lhe rendeu o suficiente para comprar uma velha escuna, mais muitos outros barcos. E seu caso com Carroll se tornou seu primeiro casamento.

Sterling Hayden foi proprietário de 18 embarcações ao longo de sua vida, de uma escuna de três mastros a uma barcaça de canal. Ele comprou um barco no mesmo dia em que se associou ao Partido Comunista, batizando-o de Quest. (Em sua autobiografia, ele escreveu laconicamente: “Eu me pergunto: já houve um homem na Terra que comprou uma escuna e se associou ao Partido Comunista no mesmo dia?”) Entre seus outros barcos, havia o Horizon e o Brigadoon. Ele rebatizou uma embarcação que tinha o nome original de Gracie S., em homenagem à filha de um comerciante rico, porque disse nunca ter se importado com magnatas. Se tornaria o Wanderer, que depois, daria o nome a sua autobiografia de 1963.

Esse livro, Wanderer [Viajante], é um implacável acerto de contas com sua vida, literatura de alta qualidade que deve tanto aos autores da geração beat quanto aos grandes autores do mar. Mas mesmo hoje, na primavera de 2018, não foi traduzido para o alemão. Também não foi Voyage: A Novel of 1896 [Viagem – Um romance de 1896], de 1976, o grande épico americano de Hayden sobre duas jornadas de barco contrastantes, uma pelos mares do sul até o Japão, e a outra em torno do cabo Horn.[3] Este segundo livro é um retrato das diferenças de classe nos Estados Unidos, assim como do movimento trabalhista do país. Com robustas 700 páginas, ele é o melhor livro sobre navegação marítima publicado desde Moby Dick, ou A baleia (Moby-Dick; or, The Whale, 1851), de Herman Melville, e foi escrito por um verdadeiro navegador do globo. Hayden circum-navegou o mundo três vezes à vela. As descrições dos barcos e portos em Voyage vibram com a vida, e o relato do contorno do cabo Horn é uma leitura assustadora.

Ele teve seis filhos com três esposas, casando-se com a do meio [Betty de Noon] três vezes. Era um tipo de “Holandês Voador”, que frequentemente naufragava nas margens, um vaguejante, um andarilho, um não conformista. Em 1959, durante uma batalha de custódia por seus filhos, ele desafiou a justiça [que exigia não tirar as crianças dos Estados Unidos] e navegou com eles no Wanderer para o Taiti, onde planejou começar uma rota de correio entre as ilhas.[4]

Nos seus últimos anos, Hayden passou meses vivendo em rios europeus, onde o escritor e cineasta Wolf-Eckart Bühler o encontrou em 1981. O diretor alemão, vivendo há mais de 40 anos no boêmio bairro de Schwabing, em Munique, já havia viajado pelo mundo, mesmo quando jovem. Bühler estudou teatro e filosofia na faculdade e, no início de 1972, se tornou um dos editores da Filmkritik (1957-1984), a principal revista alemã para a crítica de cinema. Os textos de Bühler para a revista foram escritos com o coração e a mente, mais uma perspectiva treinada em dialética. Algumas de suas edições da Filmkritik se tornaram lendárias, por exemplo, as sobre os cinemas de John Ford e de Howard Hawks e o gênero de filmes de piratas.

Há uma edição que Bühler escreveu com Felix Hofmann sobre filmes policiais, com o longo texto “Tod und Mathematik” [Morte e matemática], sobre o cinema do pouco conhecido diretor norte-americano Irving Lerner. Bühler usou o filme noir Cilada mortífera (Murder By Contract, 1958), de Lerner, como a base para uma análise que foi muito além do próprio filme.[5] Bühler estava interessado no lado obscuro da América, a era da caça às bruxas em Hollywood, a Lista Negra, e em pessoas que não podiam mais trabalhar na indústria. Ele se tornou um advogado do outro lado e dedicou sua obra a dar “nome aos bois” aos esquecidos e aos condenados ao ostracismo.

Werner Dütsch, um coordenador de projetos para a televisão pública alemã Westdeutscher Rundfunk (WDR), era um fã dos textos de Bühler e o convenceu a escrever roteiros. Juntos, eles fizeram o retrato documental Leo T. Hurwitz: filmes para uma outra América (Leo T. Hurwitz: Filme für ein anderes America, 1980), sobre o então desconhecido documentarista marxista americano que dá nome ao título. Depois fizeram Segurança interna: Abraham Polonsky (Innere Sicherheit: Abraham Polonsky, 1981), sobre o roteirista e cineasta tido pelo diretor do FBI (J. Edgar Hoover) como “o homem mais perigoso dos Estados Unidos”, e que também foi estigmatizado e incluído na Lista Negra de Hollywood. Ambos os filmes dirigidos por Bühler são modelos do bom trabalho feito no passado pela televisão pública alemã. Os dois são protótipos de um olhar crítico que pôde enfrentar o teste do tempo, assim como os textos publicados de Bühler sobre cinema continuam sendo relevantes.[6]

Sterling Hayden em cena de Johnny Guitar , de Nicholas Ray

No início dos anos 1980, Bühler estava trabalhando em um livro sobre o Comitê de Atividades Antiamericanas. Nem este, nem seu livro sobre Marx e a América foram concluídos. Mas o trabalho despertou seu interesse em Sterling Hayden e em Wanderer. Bühler ficou tão fascinado pelo livro que elaborou seu filme Der Havarist [O náufrago] (1984) a partir dele. O conceito e roteiro do filme tinham o objetivo de apresentar a voz de Hayden de forma tão séria quanto Jean-Marie Straub e Danièle Huillet fizeram em seus filmes com as obras de Cesare Pavese e os clássicos gregos – sendo que a vida turbulenta do ator, como retratada no filme, teria dimensões similares.[7]

Bühler sabia que teria que falar com Hayden pessoalmente para convencê-lo a participar. Levou um ano para conseguir encontrar o ator. Hayden estava vivendo em sua barcaça holandesa Farol de Islândia no rio Doubs, perto de Besançon, na França. Ele leu o roteiro, ficou entusiasmado e deu a Bühler os direitos para adaptar Wanderer para o cinema. Na segunda noite da visita, Hayden disse que era uma pena que ninguém estivesse gravando o encontro. Bühler montou uma equipe que aceitou trabalhar fiado e voltou para lá uma semana mais tarde.

Havia dinheiro o suficiente apenas para uma semana de filmagem. Hayden estava bêbado ou chapado durante cada minuto desse período, mas, no documentário resultante, ele fala tão claramente quanto um arcanjo. É impressionante vê-lo com uma barba extraordinária, castigado pelo tempo, descalço, completamente embriagado e descabelado. Um rei sem país ou subordinados. Uma figura shakespeariana. Um sonhador e um pensador, algumas vezes um profeta fervoroso. Farol do caos, nome de um livro não terminado de Hayden, virou o título do inquietante filme-retrato.

Hayden assistiu ao filme um ano depois, sozinho na sala de cinema. Ao encontrar Bühler em um restaurante após a sessão, ele passou um bom tempo em silêncio antes de dizer que achou o filme bom, muito bom, e verdadeiro, mas que ele nunca mais queria assisti-lo novamente, pois nunca mais queria se ver em um ponto tão baixo de sua existência.[8]

Der Havarist, também um filme de baixo orçamento, foi realizado no final da era do Novo Cinema Alemão, quando o cinema autoral estava sendo substituído pelo cinema de produção. O diretor escalou três atores diferentes para o papel de Hayden – Rüdiger Vogler [uma presença constante nos primeiros longas de Wim Wenders] para as cenas com monólogos e momentos de reflexão; Burkhard Driest, uma figura controversa na época [que passou três anos na cadeia quando jovem por roubar um banco], para as passagens com diálogos; e o membro professo do Partido Comunista alemão e compositor Hannes Wader (para fazer narrativas e leituras diretas do livro Wanderer). Colocar Wader diante da câmera em uma época em que comunistas estavam banidos do trabalho profissional na Alemanha Ocidental era uma declaração política.

Bühler não estava interessado em tornar a vida de Hayden um melodrama. Assistir, mesmo atualmente, à encenação literal do testemunho de Hayden na HUAC é opressivo. Der Havarist é um filme político – até mais hoje em dia do que na época em que foi feito. “A história de Hayden é uma oportunidade para nós todos nos questionarmos”, disse Bühler.

Sterling Hayden parecia estar sonambulando por seus filmes, até mais frio e distante do que seu contemporâneo Robert Mitchum. Os olhos de Hayden, muito pequenos para um homem de seu tamanho, muitas vezes pareciam olhar para alguma distância inatingível. Ele foi marcado por um profundo desenraizamento, em estranho contraste com sua força e presença física. No filme de Nicholas Ray, o personagem de John Carradine (Tom) diz a Johnny Guitar: “É muito homem que você está carregando nestas botas, estranho.” Hayden é muito homem e, ainda assim, é um homem profundamente vulnerável.

 


 

[1] O livro premiado de Navasky, publicado no mesmo ano em que o ex-ator e político conservador Ronald Reagan assumiu a presidência dos Estados Unidos, analisou a época da Lista Negra de Hollywood principalmente ao contemplar os motivos dos delatores. O livro foi criticado em alguns círculos por minimizar a cumplicidade dos estúdios e sindicatos de cinema hollywoodianos ao trair os artistas de esquerda cujo trabalho eles antes haviam apoiado. O trabalho do acadêmico norte-americano Thom Andersen valorizando as obras desses artistas – por exemplo, o filme Hollywood vermelha (Red Hollywood, 1996, codirigido com Noël Burch) – nasceu como uma resposta a Navasky. [N. T.]

[2] Sterling Walter Hayden nasceu em Nova Jersey com o nome de Sterling Relyea Walter, mas, com o casamento da sua mãe, seu nome foi mudado legalmente para o sobrenome de seu padrasto. [N. T.]

[3] Pelo que sabemos, os dois livros de Hayden tampouco existem em traduções para português. [N. T.]

[4] A viagem que Hayden fez com seus (então quatro) filhos por barco durou um ano. Na época, Hayden já tinha resolvido deixar Hollywood e ficou afastado das telas de cinema por quase uma década, com a exceção do seu papel em Dr. Fantástico. Ao voltar para o meio, ele evitou filmar nos grandes estúdios e participou de produções de caráter mais independente. Além das obras da década de 1970 já citadas no texto, um dos mais notáveis papéis de Hayden dessa fase tardia da sua filmografia foi como o patriarca de uma família isolada do mundo na coprodução franco-brasileira Ternos caçadores (Sweet Hunters, 1970), de Ruy Guerra. [N. T.]

[5] O thriller de baixo orçamento de Lerner sobre os dilemas enfrentados por um assassino de aluguel urbano (interpretado por Vince Edwards) funciona como uma crítica franca da natureza brutal do capitalismo no Ocidente nos anos após a Segunda Guerra Mundial. Lerner nunca entrou na Lista Negra oficialmente, mas sua carreira foi prejudicada pelo clima da época, e ele muitas vezes trabalhou em filmes sem receber crédito. [N. T.]

[6] Hurwitz é conhecido hoje por filmes híbridos sobre a presença nefasta do racismo nos Estados Unidos, como Native Land (1942, codirigido com Paul Strand) e Vitória estranha (Strange Victory, 1948), enquanto Polonsky é conhecido por seu longa de estreia, o filme noir Força do mal (Force of Evil, 1948), e outros trabalhos que atacam o capitalismo como uma instituição criminosa. Os filmes de Bühler sobre esses dois artistas judeus e norte-americanos são incluídos, junto a um curta sobre o também judeu Irving Lerner, na edição de DVD dos seus filmes que foi editada pelo Museu de Cinema de Munique.

[7] Bühler escreveu o roteiro de Der Havarist em parceria com um colega da Filmkritik, o crítico Manfred Blank, que trabalhou como assistente em vários filmes de Straub-Huillet. Blank também trabalhou nas produções dos primeiros documentários de Bühler e codirigiu Farol do caos. Ele era um especialista no cinema francês da sua época e desenvolveu um interesse pelo trabalho de Hayden após ler a crítica entusiasmada de Johnny Guitar que François Truffaut escreveu em 1955 para a Cahiers du Cinéma. Blank queria filmar Hayden para entender melhor “o único homem a expressar abertamente seu ódio em relação a sua presença amigável no comitê”, como ele se referiu a Hayden em um e-mail recente sobre Farol do caos. [N. T.]

[8] Hayden até pediu depois para a equipe de filmagem voltar a filmá-lo de novo na Califórnia, em condições mais sóbrias. Porém, Blank e Bühler recusaram.