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Onde mora o diabo

30 de julho de 2020

Os novos filmes brasileiros continuam a chegar, tanto nas plataformas de streaming como nos drive-ins. Um dos mais interessantes está em cartaz até sábado no Belas Artes Drive-in, em São Paulo, e apenas hoje (30 de julho) no Lovecine, no Rio. Estou falando de Macabro, segundo longa-metragem de ficção de Marcos Prado, o diretor dos bons documentários Estamira e Curumim.

Aqui, o ponto de partida é um caso real que estarreceu o país nos anos 1990: uma série de assassinatos seguidos de violação sexual dos cadáveres, supostamente cometidos por dois jovens irmãos, na região serrana do Rio de Janeiro.

No filme, que mudou nomes de personagens reais, criou outros e inventou situações fictícias, o sargento do Bope Teobaldo (Renato Góes) é enviado à região com uma pequena equipe para investigar os crimes. A escolha tem dois motivos: Teobaldo conhece bem a área em questão, pois cresceu ali, e além disso está visado pela imprensa carioca por ter matado por engano um inocente numa favela.

 

A culpa à espreita

A divisão interna do personagem se reflete até no nome: no Rio ele é o sargento Teo; na serra, todos o conhecem por Baldo. Aos poucos ficamos sabendo que também ali ele tem um passado incômodo e mal resolvido.

Como em tantos bons policiais hollywoodianos, esse personagem atormentado é um protagonista conveniente para a construção do suspense: a culpa está à espreita a todo momento. No processo de investigação, há uma espécie de arqueologia do mal, uma busca de suas sementes no indivíduo e na comunidade. “O diabo está aqui”, diz o pároco local a certa altura. Por vias tortas, ele tem razão.

Hollywood não foi citada em vão. Marcos Prado manipula com habilidade a narrativa clássica, usando os códigos do policial, do suspense e do horror sem medo de cair em certos clichês desses gêneros. Além disso, aproveita de modo expressivo a paisagem exuberante da Serra dos Órgãos, com belos planos abertos e uso eficaz da profundidade de campo. Em alguns momentos a beleza imponente da região até ameaça distrair o espectador da tensão dramática da história.

E bota tensão nisso. Ao longo da investigação, vêm à tona chagas profundas da nossa formação sócio-cultural: o racismo estrutural (os irmãos suspeitos – e condenados de antemão – são da única família negra do lugarejo), a pedofilia no seio da Igreja, o uso político da polícia, o sensacionalismo da imprensa, a tentação da “justiça com as próprias mãos”. Um tema muito atual – o porte de armas pelos “cidadãos de bem” – ganha uma abordagem enxuta e plenamente inserida nos acontecimentos.

Impossível não pensar em duas referências, conscientes ou não por parte dos roteiristas (Rita Glória Curvo e Lucas Paraizo) e do diretor. Por um lado, a comunidade aparentemente bucólica que revela suas entranhas brutais remete a Amargo pesadelo (1972), de John Boorman. O ímpeto linchador da massa, por sua vez, tem como paradigma insuperável o clássico Fúria (1936), de Fritz Lang.

Macabro está longe de ser uma obra-prima, mas é oportuno e de grande impacto, sobretudo na tela grande. É o filme mais maduro e “redondo” de Marcos Prado, que anteriormente dirigiu o mediano Paraísos artificiais e alguns episódios da controvertida série O mecanismo.

 

Drive-in Paradiso

E por falar em drive-ins, São Paulo ganha mais um neste fim de semana, criado pela prefeitura da cidade, via Spcine (a empresa municipal de cinema), em parceria com o Cine Autorama. É o Drive-in Paradiso, que exibirá exclusivamente filmes brasileiros, com ingresso gratuito, no estacionamento da Assembleia Legislativa, no Ibirapuera.

A programação trará filmes novos, como Meu nome é Bagdá, de Caru Alves de Souza, e Pacarrete, de Allan Deberton, alternados com clássicos como A hora da estrela, de Suzana Amaral, e Central do Brasil, de Walter Salles. O funcionamento será aos sábados e domingos, com três sessões diárias. A curadoria é da apresentadora e cineasta Marina Person.

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