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Para não dizer que não falei do Oscar

25 de janeiro de 2019

Os leitores desta coluna sabem que aqui não se dá uma importância excessiva ao Oscar, mas se reconhece o valor da premiação como um sismógrafo das tendências da indústria cinematográfica e de sua permeabilidade às forças culturais, sociais e geopolíticas dos tempos que correm. A qualidade dos filmes, em geral, fica em segundo plano.

Este ano, algumas dessas tendências saltam aos olhos. Antes de tudo, constata-se uma forte internacionalização do prêmio, como se o Oscar começasse a deixar de ser uma celebração do “cinema americano” para se tornar o palco de uma espécie de world cinema – embora ainda dominado pela grande indústria.

Os dois filmes com mais indicações são um mexicano (Roma) e um britânico dirigido por um grego (A favorita). Três dos cinco candidatos a melhor diretor são estrangeiros: o mexicano Alfonso Cuarón, o grego Yorgos Lanthimos e o polonês Pawel Pawlikowski.

Cena de Roma, de Alfonso Cuarón

Tópicos urgentes

Algumas das produções indicadas nas principais categorias respondem a tópicos prementes de nosso tempo, como a questão racial (Infiltrado na Klan, Green book), a condição feminina (A favorita) e as relações de opressão social e política no Terceiro Mundo (Roma). O fato de todos os citados serem “filmes de época” não deve iludir: por vias indiretas, eles estão falando conosco sobre problemas de hoje.

Do mesmo modo, a inútil “torcida” por este ou aquele concorrente muitas vezes se dá menos por seus valores intrínsecos do que pelos temas abordados. Antirracistas tendem a apostar em Infiltrado na Klan, feministas em A favorita, LGBTs e simpatizantes em Bohemian Rhapsody e assim por diante.

“Aposta”, “palpite”, “favorito”, “azarão”: o vocabulário mostra que este é um período em que a cobertura cinematográfica se parece com as antigas colunas de turfe dos jornais.

Talvez seja mais produtivo esquecer por um momento as chances de cada um no “páreo” e atentar para o que eles nos dizem em termos estéticos e humanos. E estabelecer conexões – deles entre si ou com filmes de outras épocas e latitudes.

A fratura racial norte-americana, por exemplo, é abordada de modo bem diverso em Infiltrado na Klan, de Spike Lee, e em Green Book, de Peter Farrelly. Este último, um road movie que inverte o esquema de Conduzindo Miss Daisy ao colocar um branco como motorista de um pianista negro, insiste no drama da “amizade que vence o preconceito”. Já o filme de Lee de certa forma subverte o buddy movie policial, ao mostrar que a parceria de um negro com um judeu pode ser muito bacana, mas não resolve o conflito racial básico da sociedade norte-americana.

Opressão e afeto

O paralelo inevitável de Roma, de Alfonso Cuarón, é com o brasileiro Que horas ela volta? (2015), de Anna Muylaert. Ambos tratam das relações complexas entre uma empregada doméstica e a família de seus patrões, em que se misturam o profissional e o pessoal, a opressão e o afeto.

À parte o diapasão histórico mais ambicioso do filme mexicano, e todas as outras diferenças de estética e linguagem, há um contraste de tom: melancólico e deliberadamente irresoluto em Roma, assertivo e otimista em Que horas ela volta?, sintonizado com o movimento de inclusão social observado no Brasil nas últimas décadas.

Do ponto de vista especificamente cinematográfico, Roma tem um alcance muito maior, com pelo menos duas cenas antológicas: o parto da doméstica Cleo (Yalitza Aparicio, indicada ao Oscar), num único plano filmado com câmera fixa e foco profundo, e a do quase afogamento duplo no mar, com a câmera à flor da água, intensificando no espectador a sensação de sufoco.

A favorita, de Yorgos Lanthimos, deve ser visto no interior de outra tradição, a dos filmes de época em que fervilham dramas e intrigas sob as pompas de uma corte ou de uma aristocracia. Nessa vertente, cuja obra-prima absoluta, a meu ver, é Barry Lyndon (1975), de Kubrick, há outros exemplos interessantes, como A rainha Margot (Patrice Chéreau, 1994) e Elizabeth (Shekhar Kaput, 1999), para ficar nuns poucos exemplos.

O grande feito do filme de Lanthimos é o de não sucumbir ao peso dos valores plásticos (a imponência da cenografia, a exuberância dos figurinos, o virtuosismo da iluminação). Com a ajuda de suas três enérgicas atrizes (Olivia Colman, Rachel Weisz e Emma Stone), ele mostra a carne e o sangue que pulsam por baixo de todas aquelas rendas e babados.

Tudo somado, o Oscar não deixa de ser uma festa. E, como toda festa, não deve ser levada a sério demais. Mas, já que “torcer” não custa nada, seria espetacular se uma mexicana de origem indígena (Yalitza Aparicio) ganhasse o prêmio de atriz no momento em que o presidente dos EUA quer construir um muro para barrar a entrada dos vizinhos do sul.

José Geraldo Couto é crítico de cinema, jornalista e tradutor. Publicou, entre outros, André BretonBrasil: Anos 60 e Futebol brasileiro hoje, e participou com artigos e ensaios dos livros O cinema dos anos 80Folha conta 100 anos de cinema Os filmes que sonhamos. Veja textos da coluna semanal sobre cinema que assinou no Blog do IMS entre setembro de 2011 e dezembro de 2018.

 

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