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Pendular, um depoimento

09 de setembro de 2017

 

A partir da quinta-feira, 21 de setembro, o IMS Rio exibe Pendular, de Julia Murat. No fim de semana dos dias 23 e 24, será exibido em conjunto o longa-metragem anterior da diretora, Histórias que só existem quando lembradasNo IMS Paulista, o filme estreia no sábado, dia 23/9.

 

O filme nasceu da integração entre as três artes: cinema, escultura e dança. Desde o primeiro momento, lá em 2011, já existia a ideia de trabalharmos essas artes e como elas responderiam ao conceito do equilíbrio. A ideia era trabalhar o equilíbrio na escultura – nos materiais pesados como madeira e ferro, ou leves como plástico -; no corpo – a relação entre os corpos e entre o corpo e os objetos – e na dramaturgia – na relação amorosa. Para isso Marina Kosovski, que faria as esculturas naquele momento, Flavia Meireles, coreógrafa, Matias Mariani, roteirista, e eu estudamos o conceito do equilíbrio na física, e pesquisamos como o equilíbrio era aplicado nos diferentes movimentos históricos da dança e das artes visuais.

A partir daí, decidimos desenvolver uma estrutura inicial, um esqueleto da dramaturgia. Alguns meses depois, tínhamos um primeiro esboço de roteiro, algo em torno de sessenta páginas, que escrevemos Matias e eu. A partir desse esboço fizemos dois meses de workshop – Marina, Flavia, e eu, com participação do Matias e do Marcos de Moraes, na dança, e do Yoann Saura, no trabalho das esculturas. Passamos dois meses estudando, nos debruçando sobre esse esboço de roteiro, mas extrapolando ele também. Recriamos nesse período o embate do filme: dividimos o espaço que tínhamos em dois – de um lado a sala de ensaio da dança e do outro o atelier da escultura. Criamos duas esculturas, depois usadas no filme, e algumas coreografias. Mas acima de tudo absorvemos material para retrabalhar o roteiro, agora com vivência de como funcionaria esse convívio (e conflito) de dois processos criativos em um mesmo espaço.

Passamos, então, dois anos trabalhando no roteiro e buscando aprofundar a relação dos personagens. No fim de 2014, Raquel Karro, atriz do filme, começou um trabalho de corpo junto com a Flavia. Em janeiro de 2015 iniciamos o processo de ensaio de dança – Raquel, Neto Machado, ator, Flavia e eu -, no qual escrevemos e coreografamos todas as cenas de dança do filme. Paralelamente, Elisa Bracher iniciou os desenhos das esculturas. Realizamos então a última reescritura do roteiro, absorvendo esses trabalhos para finalmente começarmos os ensaios com os atores, em julho de 2015.

 

 

Portanto, essas três artes foram sempre influenciando uma à outra, extrapolando o sentido narrativo, e criando sua própria existência. Faremos, inclusive, uma exposição no MAM do Rio de Janeiro com as esculturas, videos e performances criadas para o filme.

Sobre as relações com meu longa-metragem anterior, Histórias que só existem quando lembradas, gosto de pensar a decupagem e a estética de filme em função da dramaturgia criada, e como são duas histórias super diferentes acabei criando dois filmes bem diversos. No entanto, acredito que possamos traçar proximidades entre eles: no Histórias temos a personagem de uma jovem fotógrafa, e as fotografias que ela faz aparecem no filme; no Pendular criamos as danças e esculturas do filme. A proposta de decupagem é bem diferente, mas em ambos temos longos momentos nos quais a ação ocorre diante de uma câmera distanciada e observadora. Em ambos os filmes temos um momento de epifania das personagens em que elas dançam uma música de rock’n roll (Franz Ferdinand e Joy Division, respectivamente). Ainda não tenho certeza do que significa exibir os dois filmes juntos, seria bom que o público sentisse.

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