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Um Graciliano leva a outro

15 de julho de 2019

Oito notas para entrar e sair do cárcere

por Nelson Pereira dos Santos, em maio de 1984

1. A primeira ideia de adaptar o livro Memórias do cárcere para o cinema nasceu com Vidas secas, pela própria relação direta que mantive na ocasião com o trabalho do escritor Graciliano Ramos. Vidas secas, a primeira adaptação que fiz da obra de Graciliano, foi para o Festival de Cannes em 1964 e, logo em seguida, comecei a pensar em filmar Memórias do cárcere, em função da violência política e institucional que tomou conta do Brasil naquele mesmo ano. Memórias do cárcere contava esta mesma história transcorrida em outra época. A realidade estava se repetindo. Cheguei a dar início à preparação do roteiro, mas logo parei, pois no Brasil de 1964 não havia condições de produção e liberdade política para se levar adiante o projeto de Memórias do cárcere, que ficou arquivado.

2. Só tive condições de retomar o projeto de Memórias do cárcere em 1981, quando iniciei a elaboração do roteiro. A história do livro e do filme continua a ter uma certa articulação com o passado recente de nosso país, cujas atuais condições estão permitindo a realização deste tipo de filme sem nenhum problema político de censura ou autocensura. Realizei Memórias do cárcere porque acho que o filme terá repercussão além das fronteiras do cinema, encontrando respostas na sociedade como um todo.

3. Acho que o mais importante para o espectador de meu filme é a emoção que lhe será transmitida em Memórias do cárcere. A ideia é a de sair da cadeia de uma sociedade ainda presa a comportamentos originados em relações duras. Aquela cadeia do filme é metafórica: não é de 1936 ou 1964. É a cadeia em que a gente vive e que nos inferniza. A proposta do filme é transformá-la em coisa do passado. Eu acho que qualquer significado político em Memórias do cárcere deve ser extraído pelo próprio espectador e, dessa forma, estou sendo fiel ao pensamento de Graciliano Ramos. O livro, como o filme, não é político. Trata da condição humana, de forma universal. É uma tentativa de contar uma história para todo o mundo.

Nelson Pereira dos Santos na câmera durante as filmagens de Memórias do cárcere. Foto de Alcyr Cavalcanti
Nelson Pereira dos Santos (na câmera) durante as filmagens de Memórias do cárcere. Foto de Alcyr Cavalcanti

4. Memórias do cárcere é um filme como os do início de minha carreira, sem metáforas de linguagem, de comunicação direta com o público. Voltei a filmar sem qualquer influência da censura, deixando de lado recursos que só complicavam a expressão desnecessariamente e impropriamente. Este filme deveria ter sido realizado logo depois de Vidas secas. Chega, portanto, com um atraso de 20 anos, embora tenha sido válido todo aprendizado que tive nesse período conturbado da vida política brasileira.

5. Seria muito difícil para um ator que não tivesse nenhum tipo de experiência política entrar no personagem de Graciliano Ramos e viver tudo aquilo. Carlos Vereza foi o escolhido por ser um homem e um ator com condições psicológicas, intelectuais e ideológicas para embarcar na trajetória de Graciliano Ramos por sua própria conta. Vereza deu tudo de si durante as filmagens, foi de uma generosidade artística incrível e o resultado de seu trabalho é uma performance irrepreensível. A proposta que eu tive com os 103 atores de Memórias do cárcere foi a de uma aventura. O ator é um instrumento muito delicado, é o dono da emoção e, na verdade, é quem descobre o personagem. A mim coube uma orientação e o cuidado de filmar da melhor maneira possível.

6. Este hábito de revezar atores em meus filmes tem a ver com a minha formação de cinema. Tem toda influência do neorrealismo, do ator não profissional e, por outro lado, na época de Rio, 40 graus, se eu fosse depender só de atores profissionais de teatro e cinema, não teria número suficiente para fechar o elenco. Não existiam muitos atores para interpretar personagens populares. Era preciso inventar mesmo. O grande exemplo de ator que eu saquei foi o Jofre Soares em Vidas secas. Em Memórias do cárcere, aparecem o Fábio Barreto, o David Quintans, um grupo de teatro de Maceió e estudantes de teatro de Campo Grande.

7. À medida que fui trabalhando e conhecendo mais aquele passado, entendi que não poderia assumir um compromisso biográfico em Memórias do cárcere, mesmo porque toda a síntese do livro que o filme exige foi misturando personalidades (do livro) diferentes em cada um dos personagens (do filme). Nem mesmo com Graciliano (Vereza) há um compromisso biográfico, embora o personagem conserve o nome do escritor. Aliás, são poucos os que conservam o nome real: Graciliano, Heloísa, Dr. Sobral, Cubano e o Capitão Lobo, por exemplo. No caso do livro, evidentemente, há mais tempo, mesmo numa linha, com a maestria de escritor de Graciliano Ramos, para dar o caráter e até o físico real do personagem que tinha convivido com ele dois ou três dias naquele tempo de cadeia. Mas, no filme, eu não tenho a mesma vivência que Graciliano teve, e se eu quisesse recuperar tudo, seria um trabalho interminável: no livro, são citados cerca de 300 personagens.

8. O cárcere em meu filme é uma metáfora da sociedade brasileira. No espaço exíguo da prisão, a dinâmica de cada um é mais clara: a classe média militar, o jovem, a mulher, o negro, o nordestino, o sulista. O encontro com o prisioneiro comum, o ladrão, o assaltante, o homossexual. Graciliano retratou tudo isso, lutando contra os próprios preconceitos, e conseguiu nos deixar um testemunho generoso, aberto. Gostaria de transmitir, como era desejo de Graciliano, a sensação de liberdade. Sair da cadeia para sempre, para nunca mais voltar. A cadeia no sentido mais amplo, a cadeia das relações sociais e políticas que aprisionam o povo brasileiro.

Texto disponível no livreto que acompanha o DVD de Memórias do cárcere, parte da Coleção DVD IMS.

Confira a programação de Memórias do cárcere no IMS Rio.

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