A lama: de Mariana ao Mar

Exposição

Entrada gratuita.
De 10 de junho de 2017 a 18 de fevereiro de 2018.

IMS Poços de Caldas

Rua Teresópolis, 90
Poços de Caldas/MG

Horário

De terça a domingo e feriados (exceto segunda), das 13h às 19h. 

Contato

Tel.: (35) 3722-2776

Apresentação

Curadoria

 Sergio Burgi

Na Internet

#ALamaDeMarianaAoMar

Imprensa IMS

(11) 3371-4455 comunicacao@ims.com.br

No dia 5 de novembro de 2015, às 15h30, uma gigantesca barragem de rejeitos de minério de ferro, conhecida como Fundão, pertencente à empresa Samarco, controlada por duas das maiores mineradoras do mundo – a brasileira Vale e a anglo-australiana bhp Billiton – rompeu inteira sobre o povoado de Bento Rodrigues, distrito de Mariana, Minas Gerais. O rompimento da barragem se converteu na maior tragédia ambiental brasileira e no mais grave acidente – e único dessa natureza – da história da mineração mundial. Dezenove pessoas morreram na primeira meia hora. Mas, nos dias que se seguiram, a vida de outras centenas de milhares seria afetada para sempre.

Um pouco antes das quatro da tarde do dia 5, Bento Rodrigues deixou de existir. Foi engolido pela lama que, sem qualquer bloqueio que a contivesse, seguiu sua rota de destruição, alcançando rapidamente o rio Gualaxo do Norte, fazendo estragos nos povoados à sua volta. Na manhã de sexta-feira, dia 6, a onda chegou ao rio Doce. Ali, se espalhou e transbordou, soterrando toda a vida existente ao longo dos 650 quilômetros de extensão do rio até o mar.

Ao contaminar o rio, a lama afetou toda a bacia do Doce, uma região do tamanho da Áustria. No total, 228 municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo foram impactados. Naqueles primeiros dias, cinco seriam dramaticamente atingidos: Governador Valadares, Resplendor, Colatina, Linhares e Regência. Décadas serão necessárias para recuperar a biodiversidade alterada pelos resíduos metálicos. No entanto, passado um ano e meio da tragédia, pouco se fez para minorar o seu efeito. O Brasil e o mundo parecem não ter se dado conta da magnitude desse desastre, cujas consequências para a vida dos 3,5 milhões de habitantes da região, dos peixes, das plantas e das demais espécies, ainda são impossíveis de se prever.

Consuelo Dieguez

 

A fotografia, desde seu início, demonstrou uma afinidade imediata para o registro da paisagem, urbana e natural. Ao mesmo tempo em que documentou o crescimento e adensamento das grandes cidades e centros urbanos no Brasil ao longo dos séculos XIX e XX, registrou também a ocupação e exploração de vastos territórios e áreas do país. Marc Ferrez (1843-1923), o principal nome da fotografia brasileira do século XIX, além de fotografar intensamente o Rio de Janeiro, então capital do Império e da República, registrou a construção e modernização das ferrovias por todo o país e foi também fotógrafo da Comissão Geológica do Império, primeiro esforço voltado para o levantamento sistemático do território e de seus recursos naturais, entre estes os recursos minerais. Acompanhou o engenheiro francês Paul Ferrand, professor de geologia da Escola de Minas de Ouro Preto, em uma extensa viagem em meados da década de 1880 que percorreu diversas cidades e regiões de Minas Gerais, entre elas a cidade de Mariana.

Cento e trinta anos depois, Cristiano Mascaro, o grande fotógrafo e intérprete  das metrópoles brasileiras que talvez melhor tenha compreendido e formulado visualmente o espírito de crescimento e verticalização destes centros urbanos no período posterior à segunda guerra, - marcado pela intensa industrialização do país, processo simbolizado pela inauguração da Companhia Siderúrgica Nacional em 1941, ferramenta indispensável para a civilização de aço, concreto armado e automóveis que se pretendeu construir no Brasil nestes últimos setenta anos -, fotografa o distrito de Mariana para documentar a maior tragédia ambiental do planeta relacionada à mineração intensiva de jazidas de ferro e à utilização de barragens de rejeitos, processo de extração mineral intensivo que transformou toda aquela região de Minas Gerais em uma área de alto risco ambiental.

Acompanhado de Pedro Mascaro, responsável pelas imagens aéreas capturadas por drones que permitem uma visão e compreensão ampla da tragédia, a exposição A Lama. De Mariana ao mar é um esforço de documentação foto-jornalística capitaneado por Cristiano Mascaro que se relaciona com seus primeiros trabalhos profissionais como repórter fotográfico na década de 1970. Imagens das casas, interiores e objetos, destruídos e transmutados pela lama que tudo recobre e transfigura fazem pensar em um desastre natural, onde na verdade existe apenas a força avassaladora de nossos próprios erros como sociedade que tarda a construir sua própria cidadania. A solicitação da revista Piauí para que Cristiano e Pedro registrassem em imagens todo o percurso da lama, da barragem de rejeitos de Mariana ao mar, num trajeto de mais de 650 quilômetros de destruição, evidencia, sete meses após a tragédia, que o dano ambiental é permanente e que a fotografia documental, associada ao compromisso jornalístico de produção continuada e recorrente de informações detalhadas sobre eventos deste porte que permitam ao público o acompanhamento dos fatos, são os instrumentos necessários para a participação da sociedade na reflexão sobre sua própria história, seja ela recente como o rompimento trágico e avassalador da barragem do Fundão em Mariana em novembro do ano passado, ou expandida, como nos mostram os documentos e imagens do passado sobre a história de Mariana e Minas Gerais como centros históricos de extração mineral no país, que hoje precisam estar necessariamente, - como evidencia a tragédia de Mariana -, no centro de nossas preocupações ambientais, o que inclui também o próprio modelo urbano de nossas grandes metrópoles, tão bem representado na obra fotográfica de Cristiano Mascaro construída ao longo de sua carreira.

Sergio Burgi

 

A exposiçãocom curadoria Sergio Burgi, coordenador de fotografia do IMSé o resultado de uma parceria entre a revista piauí e o Instituto Moreira Salles.

Bento Rodrigues, Minas Gerais, 2016. Pedro Mascaro

Imagens


Sobre os fotógrafos

Cristiano Mascaro
Iniciou seu trabalho como repórter fotográfico na década de 1970, e desde então se destacou como o intérprete das metrópoles brasileiras que talvez melhor tenha compreendido e formulado visualmente o espírito de crescimento dos centros urbanos na segunda metade do século XX. Mestre e doutor em comunicação visual pela USP, seu trabalho pode ser visto em acervos de diversos museus e centros culturais, no Brasil e no exterior.

Pedro Mascaro
Filho de Cristiano Mascaro, formou-se em engenharia pela Universidade Mackenzie e trabalhou na área por oito anos. Atualmente, é fotografo dedicado a imagens aéreas.


Vídeo

Montagem da exposição A lama: de Mariana ao Mar no Paço Imperial. O mesmo modelo foi seguido no IMS Poços.


Textos da exposição

Bento Rodrigues

O povoado de Bento Rodrigues, distrito de Mariana, Minas Gerais, foi o primeiro a ser atingido pelo rompimento da barragem de Fundão, às 15h30, do dia 5 de novembro de 2015. Quando a gigantesca estrutura se desmanchou, Paula Geralda Alves, moradora do lugar, preparava mudas de reflorestamento para a Samarco, numa fazenda vizinha. Ao ver a lava de minério descer acelerada em direção à vila, ela disse para seus colegas: “Não sei vocês, mas eu vou avisar o meu povo.” Com a mão enterrada na buzina de sua moto, Alves percorreu algumas ruas de Bento Rodrigues, berrando: “Foge todo mundo, a barragem rompeu.” Apavorados, os moradores saíram de suas casas deixando tudo para trás. Pouco antes das quatro da tarde, o lugarejo do século XVII, onde viviam 600 almas, deixou de existir. A gigantesca onda de rejeitos invadiu a vila, destruindo tudo. Restaram algumas poucas casas, construções que mal se mantinham de pé, cujos telhados, janelas e portas foram levados pela avalanche. Misturados ao barro, jaziam colchões e outros apetrechos comuns à rotina doméstica. Em seu relato para a revista piauí, Cristiano Mascaro registrou: “Do alto de uma elevação, pudemos avistar o que sobrou do pequeno vilarejo. As fotografias de Canudos e a descrição de Euclides da Cunha logo me vieram à mente.”

Vista do alto, Bento Rodrigues é apenas um monte de entulho. Conforme a câmera se aproxima, brota, aos poucos, o interior das casas, com os objetos que compuseram as histórias de vida desbaratadas pela lama da Samarco: um sofá, uma antena de tevê, um filtro, uma caixa d’água. Os restos dos telhados pendentes indicam a força com que a onda de rejeitos entrou na vila. Do que foi uma janela, espiam-se os escombros da sala. A existência tão familiar desapareceu para sempre. Em uma parede enlameada, um morador deixou um registro dolorido: Bento Rodrigues, saudades.

 

Região de Paracatu de Baixo

Após arrasar Bento Rodrigues, a onda continuou seu rastro de destruição rasgando as margens do rio Gualaxo, fazendo estragos nos povoados por onde passava. A árvore, fincada no caminho, inexplicavelmente resistiu à força da enxurrada e manteve-se firme, altivaesolitária. Nunca mais passarinhos farão seus ninhos ali, nem crianças brincarão nos seus galhos. A lama que tingiu o seu tronco tornou-se um perigo para a vida de pessoas e animais. A árvore, agora, é apenas um triste marco da altura que a avalanche alcançou.

O rio Gualaxo tornou-se vítima e algoz desta história. Atingido pela lama da barragem de Fundão, o rio, antes de envenenar o Doce, fez estragos em mais seis povoados às suas margens. Ao longo do caminho, seguindo o leito fluvial que percorre a bela paisagem montanhosa, percebe-se a magnitude da catástrofe. No fundo do vale, barro, galhos de árvores, pedras, restos de construções, um entulho monstruoso que dificilmente poderá ser removido.

 

Paracatu de Baixo

Um pouco depois das seis da tarde do dia 5 de novembro, cerca de duas horas e meia após o rompimento de Fundão, um helicóptero dos bombeiros pousou no campo de futebol do povoado de Paracatu de Baixo, a 70 quilômetros de Bento Rodrigues, a jusante do rio. Um oficial desembarcou e avisou que os moradores tinham dez minutos para correr para a parte mais alta do lugar. Logo ouviram um barulho ensurdecedor e avistaram a onda levando as casas na entrada da vila. A lama da Samarco tingiu de vermelho as paredes verdes do Bar do Jairo, quase alcançado o topo do telhado e deixando sua marca em linha reta, como se tivesse sido traçada por um rigoroso pintor. Depois de derrubar paredes, toneladas de terra se acumularam dentro das casas, chegando até a fechadura das portas.

 

Gesteira

No povoado de Gesteira, um pouco além de Paracatu de Baixo, as lentes da câmera perscrutaram o interior das casas – ventres abertos. Suas entranhas revelam intimidades: um pequeno porta-retratos escapando de uma bolsa; um livro rasgado, deixado para trás pelo seu leitor; um boné e um garfo misturados ao barro, vestígios de uma refeição abandonada às pressas; restos de roupas transmutadas em trapos; um velho computador com seus segredos; um colchão retorcido; cadeiras enterradas no chão.

 

Governador Valadares

Às cinco da tarde do dia 9, quatro dias após o rompimento de Fundão, a lama entrou em Governador Valadares, a 300 quilômetros de Bento Rodrigues. Quando a onda de rejeitos se aproximou da cidade, as pessoas já se aglomeravam em pontos estratégicos, para assistir ao espetáculo. A onda desceu pelo rio caudaloso, tingindo-o imediatamente de vermelho. Logo os peixes começaram a subir até a lâmina d’água, em busca de oxigênio. Em pouco tempo, estavam todos mortos. Toda a vida do Doce em Valadares foi dizimada por sufocamento.

Seguindo pelo rio Doce em direção à foz, no litoral capixaba, num trecho de mais de 300 quilômetros, os estragos, sete meses depois do rompimento da barragem, continuavam visíveis. As águas mantinham a coloração assustadoramente vermelha, revelando que, até aquele momento, pouca coisa havia sido feita para minorar os efeitos do rompimento da barragem. As dúvidas dos moradores também não foram respondidas: Em quanto tempo a água do rio voltará à normalidade? Está envenenada ou pode ser bebida? Faz mal comer os peixes? Banhar-se no rio provoca coceira?

 

Regência

Um pouco antes das 15 horas do dia 21 de novembro de 2015, a onda de rejeitos chegou à foz do rio Doce. Em instantes, a vida no mangue foi sufocada. Exatamente às 15 horas, dezesseis dias após o rompimento da barragem, a lama desembocou no mar, arrasando a biodiversidade numa área de 40 quilômetros. Análises da Universidade Federal do Espírito Santo revelam que a lava de minério alterou toda a biodiversidade fluvial e marinha. Além da fauna, ela destruiu as algas e os micro-organismos (a cadeia alimentar dos peixes), e por isso é impossível prever as consequências para a vida do rio e do mar. Regência, o balneário frequentado por surfistas, onde o Doce desemboca, anda vazio. Pescadores se viram como podem, em outras atividades. A velha canoa de pesca, ferramenta de um trabalho extinto, está à venda. Não há quem a queira. Cristiano Mascaro registrou em seus escritos para a piauí: “Ao longo do trajeto entre Mariana e Regência, não há quem diga o que, de fato, está sendo feito e quanto tempo levará para que voltem ao normal a natureza e a vida das pessoas que perderam o passado, o presente e o futuro.”


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