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Cinema é Cachoeira - Os filmes de Ary Rosa e Glenda Nicácio

IMS Paulista: 25 a 31 de julho de 2024

Ao estrear Café com canela, seu primeiro longa-metragem, os diretores Glenda Nicácio e Ary Rosa inscreveram seu nome no cinema brasileiro com uma obra extremamente original e particular que, filme a filme, se aprofunda e reinventa. Ambos mineiros radicados na cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, Ary e Glenda tomaram a cidade em que vivem não apenas como locação, mas como uma espécie de inspiração e destino para os seus filmes. São produções feitas, muitas vezes, com as mesmas equipes e elenco, que articulam as relações entre cinema e educação, popular e experimental, trauma e poesia (como propõe a crítica e pesquisadora Kênia Freitas no ensaio feito especialmente para a mostra). Em julho, por ocasião da estreia nos cinemas de Ilha e Mugunzá, a produção em longa-metragem da dupla poderá ser revista na íntegra


Filmes


Café com canela

Ary Rosa e Glenda Nicácio | Brasil | 2017, 100’, DCP (Elo Studios) | Classificação indicativa: 14 anos

No Recôncavo Baiano, em São Félix, Margarida é uma professora aposentada que vive sozinha e evita sair de casa desde a morte de seu filho. Sua ex-aluna Violeta mora do outro lado do rio, em Cachoeira. O reencontro entre as duas desperta um processo de transformação, marcado por visitas, faxinas, cafés com canela, novos amigos e velhos amores.

Natural de Poços de Caldas, a diretora Glenda Nicácio conta ao site da Mostra de São Paulo: “Filmamos em Cachoeira, a cidade aonde chegavam as mercadorias nos tempos coloniais. Entre essas mercadorias, estavam os corpos negros. Então todo o contexto é muito forte. A história que contamos é uma história universal, é um retrato do cotidiano de duas mulheres diferentes que se encontram em determinado momento da vida. Essa história poderia se passar em qualquer lugar, mas, quando escolhemos filmar essa história em Cachoeira, ela ganhou outras dimensões, que vão além da narrativa e se entrecruzam com questões contemporâneas do fazer cinema. Uma espectadora, em Minas Gerais, me disse que, ao assistir a Café com canela, viu a família dela na tela: 'Eu vi minha família, minha mãe, meu pai; eu vi até o meu cachorro. Aquela é minha laje'. Algumas pessoas quase nunca se viram na tela, e estão podendo se reconhecer nos personagens e na história de Café com canela”.

Entrevista da diretora Glenda Nicácio ao site da Mostra de São Paulo (na íntegra).

 

Programação

IMS Paulista
26/7, sexta, 20h


Ilha

Ary Rosa e Glenda Nicácio | Brasil | 2018, 98’, DCP (Elo Studios) | Classificação indicativa: 16 anos

Emerson, um jovem da periferia, quer fazer um filme sobre a sua história na Ilha, lugar de onde os nativos nunca conseguem sair. Para isso, ele sequestra Henrique, um premiado cineasta. Juntos, os dois reencenam a própria vida, com algumas licenças poéticas.

Se, em seu primeiro longa-metragem, Rosa e Nicácio se concentram em experiências majoritariamente femininas de trauma e dos seus esforços de superação a partir do encontro e do coletivo, no filme seguinte, Ilha, esse processo será vivido sobretudo pelos personagens masculinos. Ao decidir filmar a própria vida, Emerson precisa reviver e repensar uma série de imagens de violência. Em entrevista à revista Cinética, que dedicou um dossiê à obra da produtora Rosza Filmes, Glenda Nicácio fala sobre essa articulação da violência no filme: “A bruteza existe, sem dúvidas, ela é o chão do filme. E quando digo isso, vale ressaltar que, ainda assim, Ilha é um filme que também tem céu, que articula sutilezas e cuidado, coexistindo numa mesma mise en scène. É assim que enredamos a bruteza que o filme traz, porque ela, por si só, ela só por doer, não nos interessa. Nesse sentido, não é nem de brutalidade que eu tô falando, é de bruteza – porque é isso que eu enxergo nos planos e no regime que fomos criando –, e a vejo presente principalmente na forma. Acho que a violência está no modo que escolhemos filmar; no grão da imagem, no movimento abrupto, no desconforto do imprevisível. De todo modo, sim, existem cenas em que a encenação fica ali no jogo com a bruteza, e acho que é um limite bem fino, é um risco mesmo entre a bruteza e a brutalidade, mas é uma carga que é dividida entre a criação de linguagem e a encenação. E tudo muito conversado, com processos muito compartilhados, para a construção dos personagens e para a construção da imagem e do som. Essas questões nos são muito caras, e nos (per)seguem até a sala da montagem. Temos grande preocupação com as imagens que evocam a violência. A tentativa é não ignorar, posto que ela também é linha da trama da ficção e do real, e ela nos afeta cotidianamente. É dela que queremos, ou precisamos, também, falar. Todos os nossos filmes passam por esse lugar, de alguma forma. E o limite só encontramos olhando para cada filme. São jogos e construções muito específicas, e a nossa dosagem depende do limite de cada filme, o que cada personagem aguenta”.

Entrevista dos diretores Ary Rosa e Glenda Nicácio à revista Cinética (na íntegra).

 

Programação

IMS Paulista
25/7, quinta, 19h*
Exibição seguida de debate com Ary Rosa, Glenda Nicácio e mediação de Marcia Vaz.

*Sessão gratuita. Com distribuição de senhas 60 minutos antes da sessão. Limite de uma senha por pessoa.


Mugunzá

Ary Rosa e Glenda Nicácio | Brasil | 2022, 99’, DCP (Elo Studios) | Classificação indicativa: 14 anos

Arlete acorda e está tudo fora do lugar. Ela perdeu um amor, um filho, a casa, e agora quer justiça.

Em Mugunzá, Ary e Glenda apresentam uma anti-heroína contemporânea que desafia o poder coronelista. Os cineastas retomam a estrutura do filme de locação única, poucos personagens e equipe reduzida, mas se aprofundam em novas direções: Mugunzá é um musical que se passa inteiramente em um teatro. Arlete Dias, veterana nos filmes da Rosza Filmes, interpreta uma personagem homônima e contracena com Fabricio Boliveira, que faz os cinco diferentes personagens masculinos da história.

“A Arlete é uma atriz que participou de todos os nossos filmes, desde Café com canela até agora”, conta Ary Rosa em entrevista a Vânia Dias para o festival Panorama Coisa de Cinema de 2022. “E é uma atriz que a gente se identificou muito com ela, ela muito com a gente, e a gente acabou se transformando numa família. Mugunzá nasce da vontade de escrever mesmo uma história pra ela, podendo usar de toda a potencialidade que essa atriz tem, que é uma grande atriz, mas também uma grande cantora, tem um domínio de corpo muito bonito. E é um filme em que ela brilha, é um filme para ela mesma”.

“A Arlete da ficção é um pouco de nós, mulheres, que estamos atravessando esse tempo não só de hoje, mas tentando sobreviver dentro da sua própria comunidade”, complementa Glenda Nicácio. “Não só sobreviver, mas podendo viver com liberdade de escolha, de amor, política. Com tudo que cabe um corpo”.

Depoimentos extraído da entrevista de Ary Rosa e Glenda Nicácio a Vânia Dias para o festival Panorama Coisa de Cinema de 2022.

 

Programação

IMS Paulista
27/7, sábado, 20h


Até o fim

Ary Rosa e Glenda Nicácio | Brasil | 2020, 93’, DCP (Elo Studios) | Classificação indicativa: 14 anos

Geralda está trabalhando em seu quiosque à beira de uma praia no Recôncavo da Bahia quando recebe um telefonema do hospital dizendo que seu pai pode morrer a qualquer momento. Ela avisa suas irmãs Rose, Bel e Vilmar. O encontro promovido pela espera da morte se torna um momento de desabafo e reconhecimento das quatro irmãs, que não se reúnem desde a morte da mãe, há 15 anos.

Até o fim assume uma estratégia de produção que os diretores retomam em trabalhos seguintes, como em Voltei!: um filme que se passa inteiramente em uma locação e dura o tempo de uma noite. Ary Rosa comenta essa opção em entrevista a Lorenna Rocha para o portal Camara Escura: “Uma coisa que aprendi, depois do Café com canela, é que a produção executiva começa no roteiro. ‘Quanto tenho para fazer esse filme?’ Sei que vou fazê-lo levando em consideração o orçamento disponível. Até o fim e Voltei!, especificamente, foram filmes que fizemos por conta própria, na camaradagem, porque eu estava com muita vontade de fazer. Nesse sentido, lançamos mão de estratégias que deixassem o filme do tamanho necessário para contar essa história. Mas como é que podemos contá-la com 20 ou 40 mil reais? Uma locação, um elenco pequeno, uma equipe reduzida. Ambos os filmes se passam numa noite. Em vez de gravarmos três ou quatro dias, nós contamos a história de uma noite. À noite é muito mais fácil de gravar por conta [da ausência] do sol, da pouca mudança de luz. As personagens estão sempre dentro de casa, de um bar. São escolhas e estratégias que se dão antes de escrever o roteiro. Eu sei qual história quero contar, quais atrizes serão chamadas, sei que dá para fazer uma equipe de oito pessoas naquele bar lá de Ilha Grande que conhecemos. Pronto, podemos começar a escrever o roteiro. E aí, obviamente, é tudo muito limitado imageticamente. Só há um espaço e aquele elenco. Então, a palavra vem disso, mas também da busca por uma tradição de Cachoeira, das narrativas pretas, dos griôs. Contar histórias é algo muito importante para a tradição, e nós partimos desse princípio”.

“Esse é um artifício muito malvisto no audiovisual, principalmente no Brasil. Olham como se a verborragia fosse algo pejorativo. Como se a fala não fosse bem-vinda para o cinema e como a última alternativa quando a imagem não desse mais conta. Acho isso um erro. Primeiro que, aqui, temos uma tradição televisa muito mais que cinematográfica. Isso faz parte da América Latina, não só do Brasil. A palavra é o centro das relações. Como vou contar a história de quatro irmãs que se encontram para esperar o pai morrer e ser aquele silêncio maldito? Nós estamos cansados de ver filme que é aquele silêncio… Tá, pode ser que em São Paulo o silêncio seja mais importante. Em Cachoeira, tenho certeza que não. A palavra é imperativa em Cachoeira. As pessoas falam, gritam, choram. É som que sai da boca o tempo inteiro. Essas construções também são uma forma de dialogarmos com o nosso lugar e com nossos espectadores. O nosso espectador brasileiro tem o costume de ouvir diálogos e histórias. Violeta está falando meia hora de cinema, e todo mundo fica super emocionado, acha um barato. Pessoas as mais diferentes possíveis, que estão sendo atravessadas ou não pela experiência da Violeta contando aquelas histórias. Mas que se emocionam e têm paciência de ouvir”.

Entrevista dos diretores Ary Rosa e Glenda Nicácio a Lorenna Rocha para o portal Camara Escura (na íntegra).

 

Programação

IMS Paulista
28/7, domingo, 20h


Voltei!

Ary Rosa e Glenda Nicácio | Brasil | 2021, 74’, DCP (Elo Studios) | Classificação indicativa: 14 anos

Brasil, 2030. As irmãs Alayr e Sabrina estão ouvindo no radinho de pilha o julgamento que pode mudar os rumos de um país “sem energia”. Elas são surpreendidas por Fátima, a irmã que volta dos mortos para confraternizar nessa noite histórica.

“Glenda e eu não temos qualquer receio em apostar em estruturas dramáticas que flertam com o melodrama, ou uma comédia rasgada, ou mesmo usar da música ou da performance para expressar o sentimento de um personagem (se a narrativa pede, por que não?)”, comenta Ary Rosa em entrevista à revista Cinética. “Na contramão de muitos manuais de roteiro, acreditamos no diálogo, na fala como forma de expressão genuína do povo do Recôncavo; a contação de história é parte da tradição das personagens que escolhemos trazer para o cinema. O uso do diálogo, principalmente em Até o fim e Voltei!, é uma escolha econômica também; se eu tenho limitações financeiras de contar uma história com muitos espaços e tempos, pela fala buscamos trazer a imaginação do espectador, através da palavra o espectador poderá construir espaços e tempos (que nunca serão definitivos como uma imagem projetada). A imaginação e criação do espectador é o que complementa as lacunas estéticas de filmes que se passam em uma mesa de bar ou de casa. A contação de história, a oralidade, a criação de imagens através da palavra não são escolhas aleatórias, elas fazem parte das tradições e do modo de estar no mundo da gente do Recôncavo. Se a falta de dinheiro trava a produção, a palavra, enquanto linguagem, é uma possibilitadora de recursos e múltiplas criações. Não por acaso, trabalhamos com elencos que, antes de tudo, são exímios contadores de histórias”.

Entrevista dos diretores Ary Rosa e Glenda Nicácio à revista Cinética (na íntegra).

 

Programação

IMS Paulista
30/7, terça, 20h


Na rédea curta

Ary Rosa e Glenda Nicácio | Brasil | 2021, 95’, DCP (Elo Studios) | Classificação indicativa: 12 anos

Júnior tem 20 anos e mora com a mãe na periferia de Salvador quando descobre que vai ser pai. Para lidar com essa nova etapa, o jovem decide que precisa ir atrás do próprio pai, que nunca teve a oportunidade de conhecer. Mainha, uma mãe superprotetora, embarca junto com o filho em uma viagem divertida e atrapalhada à cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, para promover esse encontro.

Na rédea curta é a adaptação cinematográfica para a websérie de comédia de mesmo nome, de Thiago Almasy e Sulivã Bispo. Sucesso na internet, a série chega aos cinemas sob a direção de Glenda Nicácio e Ary Rosa, da Rosza Filmes, responsáveis por produções como Café com canela (2017) e Ilha (2018), e conta com a participação especial da atriz Zezé Motta.

Na rédea curta é um filme para levar a família para o cinema, é para assistir com a sua Mainha, com a Voinha, com o seu Júnior. É uma comédia que emociona, porque também somos nós lá do outro lado da tela. Estamos falando com as nossas famílias, com as nossas comunidades, ouvindo as frases que toda mãe já disse ou que todo filho já ouviu, em situações absurdamente hilárias, numa viagem pela Bahia”, comentam os diretores. “Sendo uma produção realizada fora do eixo, apresentamos uma Bahia que é formada por Salvador mas também pela cultura reconvexa do interior; pela tradição e suas crenças mas também pela modernidade da juventude”.

 

Programação

IMS Paulista
31/7, quarta, 20h


Programação

IMS PAULISTA

25/7/2024, quinta
19h - Ilha*
Exibição seguida de debate com Ary Rosa, Glenda Nicácio e mediação de Marcia Vaz.

*Sessão gratuita. Com distribuição de senhas 60 minutos antes da sessão. Limite de uma senha por pessoa.

26/7/2024, sexta
20h - Café com canela

27/7/2024, sábado
20h - Mugunzá

28/7/2024, domingo
20h - Até o fim

30/7/2024, terça
20h - Voltei!

31/7/2024, quarta
20h - Na rédea curta


Ingressos

Vendas
Os ingressos do cinema podem ser adquiridos online ou na bilheteria do centro cultural, mais informações abaixo.

Meia-entrada
Com apresentação de documentos comprobatórios para professores da rede pública, estudantes, crianças de 3 a 12 anos, pessoas com deficiência, portadores de Identidade Jovem e maiores de 60 anos.

Cliente Itaú
Desconto de 50% para o titular ao comprar o ingresso com o cartão Itaú (crédito ou débito). Ingressos e senhas sujeitos à lotação da sala.

Devolução de ingressos
Em casos de cancelamento de sessões por problemas técnicos e por falta de energia elétrica, os ingressos serão devolvidos. A devolução de entradas adquiridas pelo ingresso.com será feita pelo site.


IMS Paulista

Sessões com debate
Entrada gratuita. Sujeita à lotação da sala.
Distribuição de senhas 60 minutos antes de cada sessão. Limite de uma senha por pessoa.

Demais sessões
Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).
Bilheteria: de terça a domingo, das 12h até o início da última sessão de cinema do dia, na Praça, no 5º andar.

A bilheteria vende ingressos apenas para as sessões do dia. No ingresso.com, a venda é semanal: toda quarta-feira, às 18h, são liberados ingressos para as sessões que acontecem até a quarta-feira seguinte.

Não é permitido o consumo de bebidas e alimentos na sala de cinema.