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A primeira pessoa

20 de agosto de 2020

A série Primeira Vista traz textos de ficção inéditos, elaborados a partir de fotografias selecionadas no acervo do Instituto Moreira Salles. O autor escreve sem ter informação nenhuma sobre a imagem, contando apenas com o estímulo visual. Nesta edição, o escritor e jornalista Arnaldo Bloch se inspirou em uma imagem da polonesa Stefania Bril (1922-1992), radicada no Brasil nos anos 1950. Além de fotógrafa, em cuja produção sobressaem o olhar crítico e o senso de humor, Stefania teve atuação importante como  curadora e pensadora, contribuindo para a difusão da prática fotográfica no Brasil e difusão da fotografia brasileira no exterior. 

Fotografia de homem deitado na calçada. A parte de cima do corpo está apoiada num carrinho de compras de supermercado.
Descanso em branco e preto, da Série Descanso. São Paulo, 1973. Foto de Stefania Bril/ Acervo IMS

Juro que lutei com todas as minhas forças para não escrever em primeira pessoa.
Ou pior: sobre mim mesmo.
Sempre fui um escriba atado ao umbigo, não ao da mãe, mas ao próprio.
Humúnculo paradoxal, gerado de próprio útero, na falta de outro.
E lá estava, o umbigo, acenando, dizendo:
– A regra é clara: "primeira vista".
Fui obrigado a concordar. Ao receber a foto-objeto do texto, voltei, súbito, a uma situação vivida dias antes, em primeira pessoa, à saída de um supermercado.
Para carregar os doze sacos de plástico até a mala do carro plantado a uma esquina, precisava do carrinho. Pedi à gerente que me livrasse da obrigação de deixar a identidade como caução.
O velho Honda de minha mãe, emprestado durante a pandemia, estava lá, a menos de cem metros, em plena luz do dia.
A gerente hesitou, mas o desempregado, surgido de algum enclave temporal, apareceu em meu auxílio. Parecia gozar da confiança da funcionária, que liberou a viagem sem exigir garantia.
Aceitei a ajuda, mas o dispensei de empurrar o carrinho: sua presença, por si só, era um salvo-conduto.
Um portal peripatético.
– Quem cobiça um carrinho de supermercado?, cogitei.
– Muita gente.
– Levam para casa?
– O carrinho é a casa.
– Num desses cabe no máximo uma criança.
– Uma criança já é alguma coisa.
– Tem criança morando em carrinho?
– Morar, não sei. Dormir, talvez sonhar.
– Agora que você falou, pensei nesses andarilhos.
– Cabe coisa aí. Cabe toda a vida de uma pessoa.
– Os sacos. As tralhas. As latas amassadas. A roupa. Cobertas.
– Um filho.
– Um cão.
– As coisas que vendem. Ou trocam. Inutilidades, que estimam como joias.
– Sem falar nos burros sem rabo. Esses monumentos que, na penumbra, passam pelos olhos da gente como alegorias.
– A vida não é nenhum carnaval.
– Meu carro é aquele.
– Coitado. Implorando por um sabão e uma escova.
– Emprestado da mãe, que está de quarentena. Uso pouco. Não exibo.
– A velha dirige?
– Ela gosta. Cansou.
– Guerreira.
– Chegamos.
Eu não precisava de ajuda para guardar os sacos na mala. Mas, à maneira dos pedreiros, passei-lhe cada saco como se fosse um tijolo, emulando a essência do trabalho solidário. Um a um, o homem os acondicionou geometricamente.
Em algum lugar do abismo social, ele era o irmão mais velho que não tive.
O homem se despediu sem demandas, e quase não tive tempo de entregar-lhe a nota de dez reais que, na trilha das transações virtuais, dormia, só, na carteira.
– Não precisava.
– É pouco, considerando o que você fez por mim.
– Umas sacolas?
– Uma consciência.

Arnaldo Bloch é jornalista, escritor, tradutor e roteirista. Autor de Os irmãos Karamabloch (Companhia das Letras, 2008), entre outros, ganhou em 2014 o prêmio principal do GDA (Grupo Diários de America) por reportagem sobre os Yanomamis em dupla com Sebastião Salgado publicada no jornal O Globo.

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