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A Vestida

27 de agosto de 2019

A série Primeira Vista traz textos de ficção inéditos, elaborados a partir de fotografias selecionadas no acervo do Instituto Moreira Salles. O autor escreve sem ter informação nenhuma sobre a imagem, contando apenas com o estímulo visual. Em agosto de 2019, a escritora e jornalista Eliana Alves Cruz teve como inspiração uma foto de Dulce Soares para escrever o conto “A Vestida”. A fotografia integra a série Vestidos de Noiva, ensaio sobre o comércio tradicional de vestidos de casamento da rua São Caetano, em São Paulo, realizado por Dulce em 1978. O IMS guarda um conjunto de 1.108 negativos da fotógrafa - além do trabalho sobre as noivas, também faz parte do acervo o registro da arquitetura do antigo bairro fabril de Barra Funda, realizado por Dulce em 1977, e uma série feita em Poços de Caldas, em 1974.

Rua São Caetano, a rua das noivas. São Paulo, SP, 1978. Foto de Dulce Soares / Acervo IMS
Rua São Caetano, a rua das noivas. São Paulo, SP, 1978. Foto de Dulce Soares / Acervo IMS

 

Quando cheguei estavam todos lá, perfilados e aguardando o chamado. Eram seis homens conscientes das missões importantes que desempenharam ao longo de suas carreiras e do muito que ainda teriam por fazer adiante. Eram sempre convocados para defender as famílias, os lares nacionais. Entendiam serem eles os guardiões dos sonhos de felicidade de uma nação.

Uma luz fraca não nos deixava ver direito a aparência um dos outros. O primeiro foi logo se apresentando e me contando sua história, como se fossemos muito íntimos, amigos de infância. Disse-me que foi acarinhado pelas mãos de uma avó amorosa durante anos e que não entendia o porquê de estar ali, naquele exército impessoal e frio. Não queria e não sentia que fosse esta a sua vocação. Ele falava com uma voz saudosa como se enxergasse algum lugar muito distante no passado, mas foi interrompido bruscamente pelo segundo.

– Ora, ora, ora! Deixe de frescuras! O que importa o passado? Olhe para mim. Saí de uma das casas mais importantes do país, mas é o futuro que interessa. Estamos aqui para começar o futuro!

O terceiro soltou uma gargalhada e, sarcástico, debochou.

– Futuro... O futuro é voltar para o ponto de partida. Nunca sairemos desta roda até envelhecermos. Cumprir nossa missão, voltar para o ponto de partida, embarcar em nova tarefa... Qual o sentido de viver este ciclo de guerras? Não acredito em nada disso. Aliás, não sou eu quem não acredita. São eles, os pelos quais lutamos, que no fundo não crêem. Vivem pelas tradições e querem um cotidiano de paz, mas não ardem na chama real dos próprios desejos e jogam tudo por terra. Obrigando-nos sempre a recomeçar esta luta insana.

Eu estava ali como estátua e sem saber o que dizer diante do debate acalorado que minha chegada provocou. O quarto soldado –  mais velho que os demais – entendeu que devia intervir.

– Já estive em seis missões. Cada uma foi diferente da outra. Algumas realmente são frustrantes, mas em outras pude ver ao final muita alegria e esperança nos olhos das pessoas, mas teria valido à pena guerrear mesmo que fosse para sentir tanta emoção uma única vez.

Um silêncio se instalou depois do relato do mais velho.

– Estou ansioso para viver isto, velho, nem cheguei a embarcar da primeira vez que fui convocado. Abortaram a missão sem que eu nem tivesse o gosto de entrar em ação.

O sexto apenas se orgulhava de suas medalhas.

– Pois eu não me recordo de derrotas. Sei que todas as missões em que me engajei foram de absoluto sucesso. Desta forma, não conheço estes receios que a maioria de vocês relata. E você, novato, como veio parar aqui?

– Sim – disse o velho – o que espera desta luta?

Olhei para os outros seis vestidos pendurados naquele brechó. Eles se levavam tão a sério, tão cônscios de sua importância nos álbuns amarelados do futuro. Eu era o sétimo a ser pendurado naqueles cabides. O sétimo aguardando por alguma cerimônia pomposa, esperando cobrir de branco e seda alguma alma feminina esperançosa... ou não. Mais um traje para inaugurar uma família em formação.

Meus companheiros encaravam a tarefa como uma batalha na guerra da vida e miravam-se no espelho como uniformes. Soldados cheios de brocados, rendas delicadas, finos véus e cetins... pois eu nem mesmo me via como homem. Por qual motivo usam um substantivo masculino para nos designar?

– Não sou farda ou fardo. Sou mulher. Podem me chamar de “a vestida”.

Queria dizer a eles que meu peito já fora salpicado com o sangue que brota da brutalidade do sentimento de posse que alguns humanos nutrem por outro antes mesmo de ser despido na lua de mel; que minha barra já fora costurada com muitos nomes de moças ansiosas por um dia também entrarem em algum modelo como o meu; que já tive uma parte remendada depois que mãos raivosas de ciúme me atacaram na véspera do casamento.

No entanto, sobretudo queria dizer-lhes que adorei minha última viagem, pois tinha sido a mais feliz de toda a minha existência.

– O que desejo? Quero mesmo é continuar sendo alugada como da última vez, para girar pelos bailes, arrastando confetes, brilhando purpurinas e enroscando serpentinas nos corpos de quem me desejar desfilar pelas passarelas de muitos e muitos carnavais.

Eliana Alves Cruz, escritora e jornalista.

Eliana Alves Cruz é carioca, jornalista e escritora. É autora dos romances Água de barrela (menção honrosa do prêmio Thomas Skidmore 2018) e O crime do cais do Valongo (semifinalista do Prêmio Oceanos 2019).

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