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A vida imóvel

14 de dezembro de 2017

A série Primeira Vista traz textos de ficção inéditos, escritos a partir de fotografias selecionadas no acervo do Instituto Moreira Salles. O autor escreve sem ter informação nenhuma sobre a imagem, contando apenas com o estímulo visual. Em dezembro, Cristovão Tezza foi convidado a escrever sobre uma foto de Claudia Andujar, realizada para a reportagem “É o trem do diabo”, publicada na revista Realidade em maio de 1969. Conhecido e premiado por seus romances, Tezza, que acaba de lançar seu primeiro livro de poemas, também decidiu fazer versos a partir da foto.

Trem baiano. Fotografia de Claudia Andujar realizada para a reportagem "É o trem do diabo", revista Realidade, maio de 1969. / Acervo IMS

Os olhos veem e revelam,
revelam mais do que veem.

Não há o que ver adiante:
o passado é o bastante.

Poucos gestos incompletos
são a moldura do meu dia:

mais ripas, janela, braços
o branco em falsa geometria

o claro escuro da alma
que a curva da mão empalma

me envolvem, desenlaçados.
O barco segue; não eu.

Não há o que ver no cinza
da manhã — sentir, talvez

o repetido futuro ontem
que se reflete outra vez

– e a luz desvela, sombria
o meu idêntico dia.

Cristovão Tezza é romancista, autor de O professor, Um erro emocional, A suavidade do vento, Breve espaço, Uma noite em Curitiba, Trapo, O fantasma da infância, A tradutora O filho eterno, entre outros. Está estreando como poeta com o livro Eu, prosador, me confesso (Editora Quelônio, 2017). (Foto: Guilherme Pupo)

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