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Caderno de erudito: Paulo Mendes Campos

31 de maio de 2021

Não é só pelo fato de Paulo Mendes Campos ter um caderno de estudo do idioma russo que nos permitimos chamá-lo erudito. Em outros itens semelhantes de seu acervo já impressiona a disciplina com que ele estudava poesia, história, obras, personagens da literatura universal, ou simplesmente palavras: curiosas, incomuns, sonoras – palavras. Fez listas e listas de naturezas diversas, em ordem alfabética, resultado de estudo e pesquisa. Lexicógrafo nato, anotou, do alfabeto, verbos ou substantivos menos comuns como: algarismeira – fofoqueira; alentecer – tornar-se lento; agostar-se (de agosto) murchar, estiolar-se. Além disso, fazia grande quantidade de notas sobre os mais diversos assuntos.

 

E apesar do estudo sistemático, registrou em um de seus 58 cadernos: “Sou um erudito sem erudição.... Tenho todos os instrumentos da erudição, mas a boemia não deixou”, sem convencer aqueles que conhecem os caderninhos ou os que, por meio dos seus ensaios literários e de suas crônicas, entreveem o conhecimento aí veiculado de maneira atraente e despretensiosa. Foi um erudito desengomado.

As colunas bem ordenadas de palavras nas 33 letras do alfabeto cirílico, ocupando as linhas espaçosas do caderno 039090, indicam que o cronista e poeta dedicou-se com seriedade a aprender a língua de Tolstói antes de empreender viagem à então União Soviética, Polônia e China em 1956. Não só superiormente inteligente, era um viajante cônscio de sua responsabilidade. Como integrante da comissão de 21 profissionais de áreas e países diversos, que viajavam por dois meses a convite do governo russo, preparava-se da melhor maneira possível para absorver a cultura eslava.

Não fez por menos. Meses antes de partir, contratou aulas com um excelente  professor russo, cujos nome e telefone anotou na contracapa do caderno: Oleg Ouchkoff. Tel: 58 6636. Ouchkoff, naturalizado brasileiro, na década de 1960 faria parte da seleta equipe de professores que preparava futuros diplomatas, candidatos ao Instituto Rio Branco. Deixara Paulo Mendes Campos apto a se comunicar minimamente durante sua estadia na Rússia. Prova disso é o que o cronista de O cego de Ipanema escreve em um outro caderno, espécie de diário de viajante:  “Aproveito os minutos que tenho para estudar um pouco de russo; não é nada, mas é um incomparável desafogo poder soletrar as tabuletas e entender, aqui e ali, uma ou outra palavra”.

Enquanto as delegações recém-chegadas se instalavam no Hotel Astoria, na então Leningrado, as cortinas de veludo verde do quarto de Paulo Mendes Campos o devolviam à sua “furiosa adolescência”, em Belo Horizonte – registra ele no caderno de viagem.  O quarto de hotel o transportou a 1918, e ele se sentiu não em Leningrado, mas em São Petersburgo, nome da cidade até aquela data, recuperado depois, em 1991.

 

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Do quarto do hotel saía para as reuniões do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), durante as quais o secretário-geral Nikita Kruchev denunciava os crimes cometidos por Stálin. A nação estava perplexa, e o Comitê da Paz de Leningrado, que contava com a intérprete de português Clara Vladov, queria mostrar aos visitantes um país em busca de uma nova ética. Visitas a fábricas, hospitais, escolas fizeram Paulo Mendes Campos anotar, com detalhes, as reformas implementadas por Kruchev desde 1953, quando passou a liderar o PCUS depois da morte de Stálin: “O XX Congresso começa o degelo pela decoração de gabinetes e saguões: muitas vezes a gente olha para a parede em busca de Stálin e só vê uma vaga mancha retangular em torno de um prego”, escreveria ele na crônica “Diário de Moscou”, inédita em livro até hoje.

Em 15 de abril de 1956 (saíra do Brasil no dia 7), deixava a antiga Leningrado e, no caderno de bordo, fazia um registro sobre a insuficiência dos dicionários. Observação própria de um lexicógrafo de coração:

Despeço-me de meu quarto c/ o que não se poderia chamar saudade mas c/ a palavra aproximada que não existe. Há menos palavras do que as infinitas gradações do sentimento e da emoção; os oradores dizem isto mas talvez não o realizem (todos) o que significa para o espírito minucioso um dicionário de variedades vocabulares de natureza puramente técnica. Os homens não procuraram definir a gama de suas emoções. O léxico é mais objetivo do que subjetivo; quero crer que os homens tenham tido razão. Definir emoções é, na escala da luta pela vida, uma categoria inferior à definição de objetos.

Nem por isso deixou de se expressar no convívio com os companheiro. Verdade que com ajuda da bebida nacional russa: "A vodca é essencialmente oratória. O hábito dessa bebida criou uma segunda natureza na alma russa: o amor aos brindes. Eu, que me pelo de falar em público, a golpes de vodca surpreendi-me pedindo a palavra".

Boa parte das experiências dessa viagem está em crônicas como “Três escritores soviéticos”, “Caderno de viagem (1)” e “Caderno de viagem (2)”, incluídas em De um caderno cinzento: crônicas, aforismos e outras epifanias. Foi depois de um voo entre as capitais de Rússia e Polônia que ele compôs o poema “Moscou-Varsóvia”, que consta de O domingo azul do mar, de 1958. Não saiu de Estocolmo, onde fez escala, sem ter ido a um bom restaurante e, depois do jantar e de conferir os valores, anotar: “Honestidade, teu nome é sueco”.

Certamente o caderno de estudos com o professor Ouchkoff lhe terá sido útil durante a missão. Tudo, quem diria, com a cumplicidade do Regente Feijó, cuja foto ilustra a capa, com biografia na quarta capa. Diogo Antônio Feijó, o padre nascido em São Paulo em 1784, que lutou pela extinção do celibato clerical e foi Regente do Império, durante a menoridade de d. Pedro II patrocinou também as aulas do professor russo.

Rosto de Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, visto de perfil

Elvia Bezerra é pesquisadora de literatura brasileira e colaboradora no IMS.

Os mais de cem cadernos de escritores guardados no acervo de Literatura do Instituto Moreira Salles mostram o quanto esses itens, cada vez mais raros nos nossos dias, serviram no passado de laboratório de criação literária. Esta série em construção revela a singularidade desses documentos e a natureza de seus autores. Confira a coleção de posts elaborados a partir deste material cuidado e catalogado pelo IMS.

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