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Ecos de um jantar célebre

22 de outubro de 2017

Para que se entendam pelo menos duas dedicatórias em livros da biblioteca de Drummond, no IMS, é preciso que se volte a 1926, ano do seu primeiro encontro com Manuel Bandeira. A história desse tête-à-tête não é desconhecida. Foi publicada num livrinho saboroso intitulado Tempo, vida, poesia: confissões no rádio, que reúne entrevistas do poeta de “Sentimento do mundo” à jornalista e sua amiga, Lya Cavalcanti, para uma série de oito programas dominicais da PRA-2, Rádio Ministério da Educação e Cultura.

Drummond conta que, no verão de 1926, quando estava na cidade de Passa Quatro, no sul de Minas, foi convidado por Ribeiro Couto, com quem se correspondia, para jantar na casa dele, na vizinha Pouso Alto, onde Couto, o futuro romancista de Cabocla e àquela altura já autor do livro de poemas Um homem na multidão, era promotor de justiça.

O que Drummond não podia imaginar era que lá encontraria ninguém menos que Manuel Bandeira, amigo-irmão do poeta-promotor, em cuja casa passava aquele janeiro.  Conta-se que o jantar foi longo e os três permaneceram noite adentro em torno de  uma galinha ensopada e vinho tinto.

Drummond, rapazinho de 24 anos que ainda não publicara livro (o primeiro, Alguma poesia, só sairia em 1930), sequer tinha divulgado o “No meio do caminho”, poema que o consagraria como “o Poeta da Pedra”, reproduzido pela primeira vez na Revista de Antropofagia, em 1928. Sem bagagem editorial, portanto, pretendeu se impor com uma gravata nova em folha, mas não houve jeito: encabuladíssimo, não sorriu nenhuma vez durante a refeição. Intimidou-se. Por mais que seus pares se esforçassem para deixá-lo à vontade, ele se inibiu: “Era um poeta municipal diante de dois federais”, justificaria ele a Lya, anos depois, quando ela o entrevistou.

Não se pense que o acanhamento do convidado comoveu Ribeiro Couto, conversador admirável e homem de aguçado senso de humor, que não perdeu a chance de fazer um poemeto, não incluído em suas Poesias reunidas, denunciando a timidez do poeta de Itabira.

[...]
Carlos Drummond não sorriu nenhuma vez.
Deixou no copo três dedos de vinho
que Manuel Bandeira namorou.
Mas no trolley pelo caminho de volta
ao ritmo do cavalo chapinhando no barro vermelho
diante da tarde azul maravilhosa,
Carlos Drummond sorriu pela primeira vez,
não por causa da tarde azul maravilhosa
mas porque, para vingar-se dele nunca sorrir agradecido à vida,
Deus mandou o cavalo atirar uma placa de barro molhado na sua gravata nova
e Carlos Drummond sorriu pra malícia de Deus.

Amizade em poesia

Ruy Ribeiro Couto, “grande farejador de novidades” – dizia Bandeira –, descobrira Drummond em Belo Horizonte e tomara a iniciativa de lhe escrever. Começaram então a se corresponder e, claro, discutir sobre poesia. Nem sempre concordavam. Conta ainda Drummond na entrevista que uma vez teimou tanto, que Couto, sempre arrebatado, perdeu a paciência: “Intimo você a ficar de novo inteligente, a não negar que poesia é uma coisa só, indefinível e infinita. Se afirmar de novo que há uma poesia grande e uma poesia pequena, fico de mal”.

Não só não ficaram, como no dia do jantar em Pouso Alto selaram uma amizade que duraria toda a vida e seria imortalizada na poesia de cada um.

Da lavra de Drummond saíram oito magníficos poemas em homenagem a Bandeira. Não há uma vez em que eu deixe de me emocionar ao ler a “Ode ao cinquentenário do poeta brasileiro”, de que destaco estes versos:

[...]
Tua violenta ternura,
tua infinita polícia,
tua trágica existência
no entanto sem nenhum sulco
exterior – salvo tuas rugas,
tua gravidade simples,
a acidez e o carinho simples
que desbordam em teus retratos,
que capturo em teus poemas,
são razões por que te amamos
e por que nos fazes sofrer...
[...]
és tu mesmo, é tua poesia,
tua pungente, inefável poesia,
ferindo as almas, sob a aparência balsâmica,
queimando as almas, fogo celeste, ao visitá-las;
é o fenômeno poético, de que te constituíste o misterioso portador
[...]

Disse-me mais de uma vez Lya, de quem tive o privilégio de ser amiga, que Drummond com frequência se irritava quando alguém afirmava que era maior que o poeta de Pasárgada. Quando, em 1968, um repórter da Folha de S. Paulo lhe perguntou como via a sua poesia ao lado da de Bandeira, a resposta foi: “Eu jamais me compararia a alguém que considero meu mestre”.

Bandeira, em sua obra bem menos volumosa, não escondeu a devoção à poesia drummondiana. Expressou-a num “Louvado”, e, depois em versos de circunstâncias incluídos em Mafuá do malungo.

O sentimento do mundo
É amargo, ó meu poeta irmão!
Se eu me chamasse Raimundo!...
Não, não era solução.
Para dizer a verdade
O nome que invejo a fundo
É Carlos Drummond de Andrade.

A admiração entre esses dois gigantes, portanto, era verdadeira, e só se tornava possível porque ambos tinham, além de inteligência superior, grandeza suficiente para reconhecer os respectivos talentos.

Drummond não restringiu as homenagens de membro da trindade de Pouso Alto exclusivamente a Bandeira. A Ribeiro Couto ele dedicou o poema “Sweet home”, clara evocação daquela “atitude reticente, vaga, imprecisa, nevoenta, no jeito de escrever versos”, que ficou conhecida como Penumbrismo, da qual Couto foi representante. A evocação, em “Sweet home”, ficou assim: “Quebra-luz, aconchego./ Teu braço morno me envolvendo./ A fumaça de meu cachimbo subindo./ Como estou bem nesta poltrona de humorista inglês”.

De volta a Belo Horizonte, depois do jantar de Pouso Alto, Drummond mandou aos amigos três poemas. Bandeira, presto, respondeu imediatamente, em carta de 3 de fevereiro, ainda da cidade sul-mineira:

“Ouro Preto”, “Cantiga do viúvo” e “Infância” são os poemas mais gostosos que já li de você. [...] A “Cantiga do viúvo” é absolutamente perfeita: dá dor de corno. Também absolutamente perfeita ficará para o meu gosto a “Infância” se você tirar o verso “comprida história que não acaba mais”. É um verso morto que destoa no poema onde cada palavra parece afundar no passado. DRUMMOND VOCÊ É DE FATO.

Drummond fez ouvidos moucos à opinião do remetente. Quatro anos depois, o poema aparece em Alguma poesia com o verso condenado por Bandeira, igualzinho à versão original:

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

Enquanto isso, a notícia do jantar reverberava na carta que Bandeira, não sem alguma mordacidade, escreveu a Mário de Andrade, em 7 de fevereiro:

O Drummond jantou aqui conosco. Feinho pra burro. Implicantinho. A gente não faz fé. Couto deu uma esfrega de verve nele. Afinal já no trole a caminho da estação ele riu. Uma semana depois ele escreveu de Belo Horizonte se rindo muito e mandando quatro poemetos, três dos quais deliciosos, perfeitos, definitivos: “Ouro Preto”, “Cantiga de viúvo” e “Infância”. Ele é feinho mas é de fato.

Novos ecos

As ressonâncias do jantar não pararam aí. Ecoariam muito tempo depois nas dedicatórias de livros que Ruy Ribeiro Couto ofereceria a Drummond. Quem não sabe do lendário jantar, não entenderá por quê, sendo Couto paulista, de Santos, escreveu na dedicatória de Dia longo, de 1945: “Ao Carlos Drummond de Andrade, com um afetuoso abraço do seu admirador e velho amigo sul-mineiro”.

E certamente se intrigará com a dedicatória no Cancioneiro de Dom Afonso, de 1940: “A Carlotinho Drummond de Andrade, que um dia eu vi de gravata nova, em Pouso Alto. O menino invejeiro, Ruy”.

Dedicatórias de Ruy Ribeiro Couto para Carlos Drummond de Andrade, que integram a biblioteca de Drummond / Acervo IMS

Os livros integram a biblioteca de cerca de 4 mil itens de Drummond, hoje sob a guarda do IMS e disponível para consulta.

Elvia Bezerra é coordenadora de Literatura do Instituto Moreira Salles

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