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O Tom de Stupakoff

12 de agosto de 2016

O sorriso discreto, meio tímido, o olhar direto para a câmera, a Praia de Ipanema como cenário. O retrato em branco e preto de Tom Jobim por Otto Stupakoff, uma das mais belas e conhecidas imagens do músico, foi visto por aproximadamente três bilhões de pessoas em todo o planeta no dia 5 de agosto, durante a cerimônia de abertura das Olimpíadas no Maracanã. Projetada no imenso cenário no qual Daniel Jobim, neto de Tom, tocava o clássico “Garota de Ipanema” para a modelo Gisele Bündchen deslizar na passarela, a foto integra o acervo de 16 mil negativos de Stupakoff adquirido pelo Instituto Moreira Salles em 2008. A imagem foi selecionada pela produção do evento e tratada em altíssima qualidade pelo IMS durante algumas semanas sob sigilo absoluto, garantido por uma cláusula de confidencialidade. Tom no telão, ao som de Tom e Vinicius de Moraes, tinha que ser até o momento de sua exibição um segredo muito bem guardado.

 

Tom Jobim por Otto Stupakoff: à esquerda a imagem exibida no telão do Maracanã / AFP. À direita, a foto original do acervo IMS

 

Já o processo de tratamento da foto não é segredo. “Para que a imagem pudesse ser projetada naquele tamanho fizemos uma primeira ampliação com grande qualidade, num papel especial. Depois essa foto ainda foi digitalizada em 36 partes distintas, que foram reunidas e formaram um arquivo de alta resolução”, explica Sergio Burgi, coordenador de fotografia do IMS.

Naquela sequência de fotos feitas em 1964, o dia nublado impôs a Tom um adereço pouco comum em praias cariocas: o suéter. A praia não apareceu na foto exibida no Maracanã. A imagem do músico foi recortada contra um fundo mais urbano, composto por fachadas de prédios, na edição feita pela diretora Dora Jobim, também neta de Tom, responsável pelo painel. A pedido do IMS, a foto original foi publicada no material de divulgação distribuído pela organização do evento. Burgi lembra que todo recorte de alguma imagem depende do contexto, e ali, durante a homenagem, acredita que a relação do músico com a cidade acabou mantida pela “Garota de Ipanema”. “Substituiu-se o entorno da praia pelo contexto da música”.

Paulo Jobim, filho de Tom e pai de Daniel e Dora, lembra que ao rever as imagens de Stupakoff naquela Ipanema cinzenta, o que ainda chamava sua atenção era o visual “todo arrumadinho” para a ocasião. Também músico, ele estava lá com o pai e chegou a ser fotografado ao lado dele, embora não se lembre de nada daquele dia. “Não sei para qual lugar ou ocasião foram feitas aquelas fotos, só me lembro que estávamos na praia de suéter. O que era algo muito diferente, interessante”, recorda ele, que tinha 14 anos na época.

 

Tom Jobim e seu filho Paulo na praia de Ipanema, Rio de Janeiro, por volta de 1964. Fotografias de Otto Stupakoff /acervo IMS

 

Essas e outras fotografias poderão ser vistas pelo público a partir de dezembro, quando o IMS-RJ inaugura uma grande retrospectiva de Stupakoff, sob a curadoria de Burgi e do fotógrafo Bob Wolfenson. “Temos um material muito grande. Queremos mostrar um pouco o cruzamento do olhar mais profissional com o mais pessoal”, diz Burgi. “Nos editoriais de moda que ele fazia, por exemplo, vemos modelos que não são fotografadas apenas como araras de roupa”.

 

Contato da série de imagens de Tom Jobim e seu filho Paulo na Praia de Ipanema, Rio de Janeiro, por volta de 1964. Fotografias de Otto Stupakoff /acervo IMS

 

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