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Originais de livro de Erico Verissimo chegam ao IMS

27 de novembro de 2019

“Sábio é o turista que viaja com bagagem pequena e alma grande”, observa Erico Verissimo no primeiro capítulo de Israel em abril, último de seus quatro livros de viagens, publicado em 1969. O olhar atento, curioso e generoso do autor gaúcho sobre os países que visitava também está presente neste relato em forma de diário, que virou livro muito provavelmente pela amizade profunda que ele mantinha com amigos de origem judaica como Maurício Rosenblatt, Maurício Seligman e a médica Stella Budiansky, a quem o livro é dedicado. Isso é o que lembra o também escritor Luis Fernando Verissimo, que no dia 22 de novembro de 2019 esteve no IMS Rio para entregar, junto com a mulher, Lucia, os originais do livro do pai. O IMS abriga o arquivo de Erico Verissimo (1905-1975), assim como o de Rosenblatt.

Luis Fernando Verissimo conta que quando o pai visitou o país, em 1966, a situação na região já era complicada. Erico percorreu diversas cidades de Israel encontrando amigos e conhecidos (incluindo a mãe de Rosenblatt, que não via o filho há muito tempo), autoridades (como Golda Meir, futura primeira-ministra do país, que deixara pouco antes o cargo de ministra das Relações Exteriores), visitando universidades, museus e kibutzim ao lado de M. – Mafalda, sua mulher, inseparável companheira de vida e aventuras. Ele transforma os encontros e descobertas numa obra de frases saborosas que equilibram bom humor e informações detalhadas sobre a cultura, os costumes e a política do país, fazendo conjecturas sobre o futuro da região. O livro, porém, só tomou forma três anos depois da viagem, a partir das anotações feitas por ele na época. O arquivo de Erico Verissimo no IMS já continha, entre manuscritos e datiloscritos de romances como Clarissa e Incidente em Antares, dois dos cadernos embrionários que viriam a constituir Israel em abril.

“O pai tinha essa simpatia, essa afeição por Israel através dessas pessoas, então acho que ele fez esse livro pensando principalmente em Rosenblatt, grande amigo de infância e juventude, e na doutora Stella”, acredita Verissimo, que contou um pouco dessa história durante a entrega dos originais a Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, no encontro registrado em vídeo por Laura Liuzzi (abaixo).

O datiloscrito, recheado de numerosas correções e observações do escritor, que também desenhou no alto de todas as páginas uma pequena estrela de Davi –  símbolo de grande significado para o povo judeu, presente na bandeira de Israel –, estava na Sociedade Israelita Riograndense Lar dos Velhos. Rosenblatt e Seligman estão entre os fundadores do abrigo, inaugurado em 1966, e que hoje leva o nome de Lar Maurício Seligman. No final do ano passado os originais foram oferecidos aos Verissimo, que os compraram, embora ainda não tenham mapeado totalmente os caminhos que o datiloscrito percorreu até chegar lá.

“O pai costumava doar originais de seus livros para os amigos, e esse pode ter ido para lá através do Rosenblatt”, sugere Verissimo. Outra hipótese é que tenha chegado por meio do próprio Seligman, casado com Eugênia, irmã de Stella, que foi uma das primeiras mulheres a exercer a medicina em Porto Alegre. Na folha de rosto com o título caprichosamente desenhado em grandes letras pelo próprio Erico – que, aliás, também tem uma rica faceta como ilustrador e espalhava desenhos por seus manuscritos, cartas e postais –, lê-se “abril-novembro de 1969”. Na página seguinte, ele escreve “Dedique (ou dediquei) esse livro à memória de minha amiga Sra. Stella Budiansky”. A médica morrera em maio daquele ano.

Rosenblatt foi editor da Livraria do Globo, em Porto Alegre, levado justamente pelo amigo Erico. Na livraria e editora, ambos, ao lado de Henrique Bertaso, publicaram e fizeram circular nacionalmente, na primeira metade do século XX, a obra de grandes nomes da literatura brasileira e estrangeira. “Henrique, Maurício e eu, em sinistro conluio, decidimos atirar-nos nessa aventura editorial que foi a versão para a língua de Machado e Eça da grande obra de Marcel Proust”, contou Erico em suas memórias.

Páginas dos originais de "Israel em abril", de Erico Verissimo. Fotos de Raul Krebs

Páginas dos originais de "Israel em abril", de Erico Verissimo. Fotos de Raul Krebs
Páginas dos originais de "Israel em abril", de Erico Verissimo. Fotos de Raul Krebs

Cada livro pode ter várias versões consideradas “originais”, porque as folhas datilografadas vão ganhando anotações e correções até chegar ao resultado final. “Cada revisão é um original, de certa forma”, argumenta Verissimo. Este, porém, é considerado “O” original pelo próprio autor, como se vê na página de rosto desenhada por ele.

Quem recebeu o presente se deu ao trabalho de encadernar cuidadosamente as centenas de páginas, deixando o datiloscrito bem preservado. “O pai não encadernava nada, deixava as folhas soltas, numa pasta”, conta Verissimo.

Com a chegada dos originais ao IMS, os pesquisadores terão acesso a mais um rico material para trabalhar a obra de Erico Verissimo, que já publicara, antes de Israel em abril, Gato preto em campo de neve (1941) e A volta do gato preto (1946), ambos sobre suas passagens como professor e conferencista nos Estados Unidos, além de México (1957) – toda a obra do autor é editada pela Companhia das Letras. Serão mais olhares investigando o trabalho de um grande escritor que, em seus relatos de viagem, mantém a capacidade de se livrar da “perigosa dormência ou agitação turística que nos embota os sentidos”, como ele escreve em Israel em abril, cultivando a curiosidade de um viajante maravilhado com o que se está por descobrir.

“Nos próximos dezenove dias viajaremos praticamente por todo o país, desde a alta Galileia até o deserto de Neguev. Visitaremos aldeias, vilas, cidades, kibbutzim e mochavim. Veremos pessoas, coisas e instituições. M. está um pouco assustada ante este itinerário geográfico-social. Teremos quase todos os dias ocupados da manhã à noite. Folheando o gordo programa, escrito em português e hebraico, ficamos a nos perguntar se tal ou qual coisa “vale a pena”. Deitamo-nos. Abro o volume das poesias completas de Fernando Pessoa, o único livro que trouxe comigo. O poeta responde à nossa pergunta:

Tudo vale a pena, Se a alma não é pequena.

Apago a luz, fecho o livro e os olhos, e concluo que sábio é o turista que viaja com bagagem pequena e alma grande”.

Trecho de 'Israel em abril', de Erico Verissimo

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