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Sob a pele de Joaquim Leonel

14 de agosto de 2019

Ali pelo ano de 1951, Otto Lara Resende se escondeu sob o pseudônimo de Joaquim Leonel para responder a pretendentes a poetas e escritores na coluna “Correio Literário”, do Jornal de Letras, periódico que circulou no Rio de Janeiro de 1949 a 1988, e de que há alguns exemplares conservados por Otto em seu arquivo, sob a guarda do Instituto Moreira Salles desde 1996.

A função nessa espécie de Consultório Literário – a expressão é dele – caía-lhe bem. Cuidadoso e implacável com seus próprios textos – é conhecida a tenacidade com que escrevia e reescrevia contos e romances –, Otto, ou melhor, Joaquim Leonel, nome com que homenageava um tio-avô e médico dos pobres, não seria menos rigoroso com os textos alheios, fossem de poesia ou prosa.

Não se trata de transcrever aqui, integralmente, seus comentários, por mais interessantes que sejam, mas é certo que transparecem o conhecimento de Otto Lara Resende, não só no campo da prosa, onde se destacou como o extraordinário contista de Boca do inferno, o romancista de O braço direito, ou ainda o saboroso cronista de Bom dia para nascer. Revelam também o homem de muita leitura de poesia – como se vê em sua biblioteca de 4 mil volumes abrigada no IMS.

Foi com dedicação que Otto exerceu a atividade de consultor literário no Jornal de Letras. Aos poetas vintanistas tinha o cuidado de afirmar que ainda era tempo de desenvolver o talento; de modo geral, dava-lhes esperança. Lembrava que a precocidade de Rimbaud, gênio inquestionável aos 17 anos, não acontecia a toda hora. Alertava para o caso do brasileiro Cassiano Ricardo que, já maduro, abandonou a vertente verde-amarela do modernismo por “uma substância poética da melhor qualidade”. Ao final, aconselhava a Mauro Barcelos, de Porto Alegre, que lesse Mallarmé, pois era do convívio com os grandes poetas – garantia – que o gaúcho “tiraria forças para encontrar a sua verdadeira expressão”.

Reprodução da coluna "Correio Literário" no <em>Jornal das Letras</em> (página 19, 1951)
Reprodução da coluna “Correio Literário” no Jornal de Letras (1951)

Esse é um exemplo, vamos dizer, ameno, da prática de Joaquim Leonel. Não era sempre que deixava esperanças no remetente. Bem ao contrário, preferia o rigor, como fez com Genaro Rangel, do Rio de Janeiro, que lhe enviou poemas sob o imperativo: “Utiliza-os ou me abomina por havê-los feito”. Para começo de conversa, Joaquim Leonel, nosso J.L., não entendeu exatamente o sentido do “utiliza-os”, e tratou de perguntar logo se podia traduzi-lo por “publica-os”. Se fosse, nada feito: os poemas eram definitivamente de “mau gosto, tresandando a um Augusto dos Anjos mal assimilado” – respondeu, sem pejo. Foi também sem dó nem piedade que ele disparou sobre os versos de Patrícia Brasil: “Os [versos] que você me manda estão de pés quebrados e as rimas são de uma pobreza eu diria franciscana, se não fosse com isto ofender a São Francisco, que foi grande poeta”.

Mais sorte teve o candidato a contista Armando Carvalho, a quem J.L. promete abrir espaço no Jornal de Letras para publicar o conto “A fonte das pedras pretas”, sem esquecer de lhe recomendar, ao final, fugir do inexpressivo ou do lugar-comum como “‘precioso líquido’, forma odiosa de dizer ‘água’”. Pelos termos incluídos no comentário, pode-se deduzir que o consultor pode ter sido até generoso.

A essa altura devo dizer que, em pesquisa rápida feita no Google, não encontrei nenhum dos nomes citados exercendo as pretendidas carreiras literárias. Nada achei sobre qualquer um deles, e peço perdão antecipadamente por eventual falha na busca.

Há os casos em que a graça está no próprio remetente, como o cauteloso paulista KWY, que, por trás da trinca de letras, mandou um conto com a seguinte explicação: “Uso pseudônimo com receio da resposta ser daquelas de deixar a gente com vergonha dos amigos pro resto da vida”. A prudência fez-lhe bem. Recebeu orientação, muitos conselhos, mas nada de publicação de seu conto intitulado “Primeiro ao quinto” no Jornal de Letras.

É curioso observar a perseverança com que esses candidatos frequentavam o “Correio Literário”. Acolhiam as observações do consultor, por mais severas que fossem, tentavam melhorar, reenviavam textos depois de meses, mas, da amostra dessa seção do jornal que me chega às mãos, não consta que nenhum deles tenha conseguido sucesso em suas carreiras literárias, o que me deixa a impressão de que a dureza das palavras do “Correio” corresponde a um faro competentíssimo de seu analista, capaz de enxergar, nos pretendentes, possibilidades reais desde o começo.

Dos remetentes ao “Correio Literário”, poucos tiveram a alegria do potiguar Leon Kallinikow, que, depois de receber advertências para evitar clichês, e do alerta contra os adjetivos, “sempre inimigos do escritor”, terá lido um final estimulante: “No seu conto estou farejando a existência de um escritor verdadeiro” – afirmou J.L..

Ainda assim, foi Geraldo Rocha, do Rio, autor do conto “Fronteira vedada”, quem mereceu mais. Pareceu a Joaquim Leonel um autor pronto: “Obrigado pelo oásis que pôs no meio de minha caminhada; sombra e água fresca”. Ainda que não encontre seu nome no Google, desconfio que esse foi adiante.

Quanto a essa atividade de Otto, deixou-a registrada no artigo “Meios pobres: livros e letras”, publicado em O Globo de 14 de outubro de 1979. Daí entende-se a relação entre o pseudônimo e o espírito da coluna.

Jane Leite, nossa bibliotecária, descobre que, antes de se chamar “Correio Literário”, a coluna se intitulava “Cartas à Redação”, e tinha como consultor Homero Senna, que assinava H.S. Aqui uma nota de afeto pessoal: na década de 1990, conheci Sir Homero Senna, que se tornou amigo querido. Deixou-nos em 2004. Guardo alguns livros de sua autoria, entre os quais o pequeno e precioso O mês modernista, além de uma notável coletânea de entrevistas, A república das letras. Não podia imaginar que ele tinha sido o antecessor de Joaquim Leonel.

Rosto de Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, visto de perfil

Elvia Bezerra é coordenadora de Literatura do Instituto Moreira Salles

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