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Piazzas, de Roberto Piva: sob o signo de Maldoror

27 de agosto de 2014

Em abril de 1964, o Brasil mergulhou num momento de sua história que acarretou o cerceamento das liberdades do indivíduo. As pessoas perderam o direito de ir e vir livremente. No entanto, Roberto Piva (1937-2010), cujo acervo está sob a guarda do IMS, não se calou ante o terror da repressão. Valeu-se do papel subversivo que os poetas sabem desempenhar e levantou sua voz na luta pela “Liberdade Sexual Absoluta em suas mais extremadas variações”, escreveu ele no posfácio de Piazzas, lançado em outubro de 1964, seis meses após a deflagração do Golpe Militar.

 

Roberto Piva em foto de Linda Conde. S.d. Acervo Roberto Piva/IMS

 

Desde Paranoia (1963), primeiro livro individual, Roberto Piva adotou postura agressiva e atacou as hipocrisias da sociedade. Era a época dos extremismos moralista e religioso, que tolhiam ao indivíduo a liberdade de explorar plenamente sua condição humana. O poeta se insurge contra isso no poema “A piedade”:

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria aos
               sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me
               fariam perguntas por que navio boia? Por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as estátuas de
fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou
barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam que tenho
               todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos pavimentos
Os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos

 

Leitura do poema “A piedade” por Antônio Abujamra

No ano seguinte, Roberto Piva voltaria com nova carga, evocando o marquês de Sade nas páginas iniciais de Piazzas, como padroeiro da causa encetada em Paranoia:

O Marquês de Sade vai serpenteando menstruado por
               máquinas & outras vísceras
imperador sobre-humano pedalando a Ursa Maior no
               tórax do Oceano
onde o crocodilo vira o pescoço & acorda a flor louca
               cruzando a mente num suspiro
é aéreo o intestino acústico onde ele deita com o vasto
peixe da tristeza violentando os muros de sacarina
ele se ajoelha na laje cor do Tempo com o grito das
               Minervas em seus olhos
o grande cu de fogo de artifício incha este espelho de
               adolescentes com uma duna em cada mão
as feridas vegetais libertam os rochedos de carne
               empilhadas na Catástrofe
um menino que passava comprimiu o dorso descabelado
               da mãe uivando na janela
a fragata engraxada nos caminhos da sobrancelha
               calcina o chicote de ar do Marquês de Sade no
               queixo das chaminés
falta ao mundo uma partitura ardente como um hímen
               dos pesadelos
os edifícios crescem para que eu possa praticar amor
               nos pavimentos
o Marquês de Sade pôs fogo nos ossos dos pianistas que
               rachavam como batatas
ele avança com tesouras afiadas tomando as nuvens de
               assalto
ele sopra um planador na direção de um corvo agonizante
ele me dilacera & me protege contra o surdo século de
               quedas abstratas.

Trata-se de poesia de guerrilha, quase panfletária, que peleja às avessas, não para afirmar a coletividade, mas o indivíduo. Para Roberto Piva, a poesia servia, sobretudo, de espaço ao livre exercício, depuração estética da experiência pessoal a ser praticada intensamente, livre dos grilhões do corpo e da alma impostos pela sociedade ou por regimes de governo.

Desse modo, em Piazzas, ocorre sensível alargamento de alvo. Se antes as inventivas se dirigiam à sociedade tanto abstrata quanto concretamente, na forma da cidade – estilhaçada e refundida à sensorialidade do poeta –, no livro de 1964, Roberto Piva buscou também solapar a base de poéticas alheias ao elemento pessoal na poesia, antialiadas, portanto, em sua causa de celebrar o indivíduo. Bombardeia a poesia concreta, que, em seu plano piloto, instaurava o poema “objeto em e por si mesmo, não um intérprete de objetos exteriores e∕ou sensações mais ou menos subjetivas”.

Roberto Piva costumava se referir a esses poetas, que haviam expulsado do território da poesia o elemento demasiadamente humano, como “representantes da poesia oficial”, artífices de uma arte asséptica, insensível, alienada e alienizante. No posfácio de Piazzas, afirmou que “o que eu & meus amigos pretendemos é o divórcio absoluto da nova geração dos valores destes neomedievalistas. É a libertação de si mesmos do Super-Ego da Sociedade. Isto é o que nos separa das filosofias autoritárias tais como elas aparecem nas têmperas conservadoras & militaristas”.

 

Entrevista de Roberto Piva para a rádio Jovem Pan em 1981

A leitura atenta dos poemas de Piazzas que trazem certa semelhança visual com poemas concretos revela divergência conceitual do Concretismo. A exploração do aspecto gráfico da página não está a serviço da palavra impessoal, mas, muito pelo contrário, da expressão da sensorialidade, das impressões∕reminiscências orgânicas, fragmentadas e instáveis do indivíduo, na contramão do logocentrismo concretista:

Paraíso

Beijos através do vidro
               seus brancos
                                              fantasmas
na Quinta-feira das flores
                               a lua chegando na minha carne
               ritmos portáteis
                               como agora
                                              esta espécie de música
               nascendo ao mesmo tempo
                                              em máquinas
                                                                              & ilusões
               nenhum cálice
               nenhum amor
                               o timbre
                                                              um encanto do Leão
                                                                              arrastado
                               além da rua
                                                              algabal = amuleto
                                              ramos esquerdos da macieira
                                                                              no Paraíso
                                                              das velhas tardes

As condições materiais para a veiculação da poesia de Roberto Piva já vinham sendo urdidas pelo filho de imigrantes japoneses Massao Ohno. Na década de 1960, Massao fundou em São Paulo a Massao Ohno Editora, uma das mais importantes casas editoriais brasileiras do século XX dedicadas à poesia e à publicação independente.

 

Pequeno documentário sobre Massao Ohno

Estava criado, assim, o espaço para que poetas estreantes divulgassem seu trabalho. No início de 1961, Massao Ohno conclamou os novos poetas a enviarem seus poemas à recém-fundada editora. Em agosto do mesmo ano, saía a Antologia dos novíssimos, que marcou a estreia em livro coletivo de Roberto Piva. O lançamento da Antologia foi acompanhado de grande estardalhaço, como conta Massao:

Os Novíssimos ganharam uma notoriedade quando houve uma inauguração no Teatro Municipal e eles todos se apresentaram recitando seus poemas no palco e um desafortunado ali fez o que na minha opinião não deveria ter feito que foi… mijou no palco. Isso foi considerado um escândalo nacional porque foi um desrespeito muito grande ao teatro, à cultura brasileira. E muita gente acha que eu instiguei o rapaz a fazer isso para ganhar uma certa notoriedade. Porque isso serviu de pretexto até para a Veja dar a capa de um dos números.

Depois da experiência com a Antologia, Massao Ohno partiu dois anos depois para a edição individual de poetas, a começar com Paranoia, de Roberto Piva, livro ilustrado com fotografias de Wesley Duke Lee. No ano seguinte, Massao lançou Anotações para um apocalipse, de Claúdio Willer, e Piazzas, os primeiro e segundo títulos da coleção Maldoror. Para o projeto gráfico, o editor se inspirou no minimalismo das edições da City Lights Books, editora que pertenceu a Lawrence Ferllinghetti, poeta norte-americano da Geração Beat. Entretanto, a coleção ficaria limitada somente às obras de Willer e de Piva, pela Massao Ohno Editora. Um terceiro e último livro, No temporal, de Décio Bar, integrou a coleção, mas já pela Civilização Brasileira, em que Massao posteriormente trabalhou a convite de Ênio Silveira, diretor da editora por muitos anos.

 

Capa da primeira edição de Piazzas (São Paulo: Massao Ohno, 1964). Acervo particular Antonio Carlos Secchin

 

A coleção Maldoror é uma pequena amostra de como Massao Ohno buscava adequar, zelosamente, a materialidade do livro a seu conteúdo. Tanto por meio da proposta gráfica, quanto do nome da coleção, o editor aludia a duas influências fundamentais da poética de Roberto Piva: o movimento Beat, que se difundiu nos Estados Unidos durante as décadas de 1950 e 1960, com tendências hedonista, mística e anarquista, e a obra Os cantos de Maldoror, do conde de Lautréamont, codinome do poeta francês nascido no Uruguai Isidore Lucien Ducasse (1846-1870).

Mais do que referências, os poetas beats e Lautréamont eram, como testemunha Cláudio Willer, “dois ângulos ou duas perspectivas para apreender o que vem a ser liberdade de expressão e criação”. Aqui no Brasil, a tradução da obra de Lautréamont ficou a cargo do próprio Willer. O poeta francês exerceu, antes, grande fascínio nos escritores do Surrealismo, desde André Breton, que experimentou forte impacto com a leitura de Os cantos de Maldoror. A literatura surrealista, por sua vez, foi outra fonte de inspiração buscada por Roberto Piva. Não causa espanto que, na edição de novembro de 1965 de La Bréche: Action Surréaliste, periódico francês dirigido por Breton, Paranoia seja mencionado como o “primeiro livro de poesia delirante publicado no Brasil”.

 

Nota sobre Paranoia publicada em La Bréche: Action Surréaliste. Acervo Roberto Piva/IMS

 

Na verdade, antes de se tornar nome de coleção, Maldoror já havia figurado em Paranoia:

Eu era um pouco da tua voz violenta, Maldoror
               quando os cílios do anjo verde enrugavam as
               chaminés da rua onde eu caminhava
E via tuas meninas destruídas como rãs por
               uma centena de pássaros fortemente de passagem
Ninguém chorava no teu reino, Maldoror, onde o
               infinito pousava na palma da minha mão vazia
E meninos prodígios eram seviciados pela Alma
               ausente do Criador
Havia um revólver imparcialíssimo vigiado pelas
               Amebas no telhado roído pela urina de tuas borboletas
Um jardim azul sempre grande deitava nódoas nos
               meus olhos injetados
Eu caminhava pelas aleias olhando com alucinada ternura
               as meninas na grande farra dos canteiros de
               inseto baratinados
Teu canto insatisfeito semeava o antigo clamor dos
               piratas trucidados
Enquanto o mundo de formas enigmáticas se desnudava
               para mim, em leves mazurcas

Poema em prosa dividido em seis cantos, Os cantos de Maldoror apresenta episódios de zoofilia, pedofilia, homossexualismo e sadomasoquismo. A obra foi publicada em 1869, mas circulou quase clandestinamente, pois seu editor temia as reações da sociedade ao texto. Na abertura de Os cantos de Maldoror, Lautréamont convida o leitor ao “caminho abrupto e selvagem, através dos pântanos desolados destas páginas sombrias e cheias de veneno”. Assim, Piazzas, que, nas palavras de Piva, veio ao mundo para a “Libertação Total dos Seres Humanos”, surgia sob o signo de Maldoror.

 

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