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Só faltou um romance

13 de novembro de 2018

Rubem Fonseca – ele mesmo, o santo padroeiro de nove entre dez autores contemporâneos – foi um dos primeiros a dizer ao jornalista Sergio Augusto que o também jornalista Ivan Lessa (1935-2012) era o maior escritor brasileiro que nunca escrevera um livro. Para Fonseca e tantos outros que repetiram a frase, a genialidade do autor podia ser aferida no trato afiado que ele dava às palavras em suas crônicas e textos publicados em veículos como a revista Senhor, os jornais O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, o site da BBC (British Broadcasting Corporation) Brasil, entre outros. E além, claro, no humor ao mesmo tempo escrachado e refinadíssimo exercitado com a genial turma do jornal O Pasquim, da qual Sergio Augusto também fez parte. Viraram grandes amigos e, não por acaso, o jornalista tornou-se consultor do arquivo de Lessa, que começou a chegar ao Instituto Moreira Salles em março de 2017.

Verdade que, em 1987, foi publicado o elogiado Garotos da fuzarca (Companhia das Letras), livro devidamente registrado como coletânea de contos. Na opinião de Sergio, porém, os textos ali reunidos do filho único de dois igualmente grandes prosadores – o escritor Orígenes Lessa e a cronista Elsie Lessa – são mais crônicas do que contos, “rótulo esse que Ivan recusaria”, aliás. Talvez exemplos daquela zona cinzenta que se abre entre ficção e autoficção. Ainda assim, “do meu ponto de vista, são alta ficção”, emenda o jornalista. Em 2013, ao comentar o livro no blog da Companhia das Letras, o escritor e editor Leandro Sarmatz também não cravou o gênero dos textos – “contos (?) e crônicas cruéis (?), escreveu ele” –, mas foi taxativo ao destacar sua relevância e seu sabor de promessa. “É um desses tesouros da literatura brasileira e – tamborilando nas teclas pretas da melancolia – um anúncio frustrado do que a obra monumental de Ivan Lessa poderia ter sido”.

Por isso, ao encontrar no arquivo de Lessa – que teve publicados pela mesma editora O luar e a rainha, coletânea de suas crônicas para a BBC Brasil, e Eles foram para Petrópolis, sua correspondência virtual com o jornalista Mario Sergio Conti – , uma pasta com o título “Work in progress”, Sergio encheu-se de esperança. Estaria ali, afinal, o rascunho do famoso romance que selaria de vez a afirmação de Fonseca? Se até agora as buscas não revelaram nenhum texto encaminhado para virar obra pronta, das caixas com pilhas de papéis manuscritos, recortes de jornal, fotografias, cartas e caderninhos saltaram citações reconhecíveis, além de frases e palavras soltas ora espirituosas e inteligíveis, ora sem sentido aparente, reiterando o que Lessa sempre dizia ao amigo: o mais importante não era escrever, era tomar nota.

“E como o Ivan adorava anotar tudo. Ouvia uma frase na rua, anotava. Lia um poema, tomava nota. Dizia que para escrever o fundamental é usar o ouvido, e anotar. Ficava horas mudando preposição, ou uma outra coisa qualquer na frase, até achar o melhor som”, lembra Sergio, que trabalhou lado a lado com o amigo na redação do Pasquim entre 1972 e 1978, data em que Ivan deixaria definitivamente o Brasil para morar em Londres, cidade na qual já vivera entre 1968 e 1972, e onde morreu. Foi em 1968, aliás, que Sergio Augusto conheceu Lessa, por quem já nutria uma grande admiração, como ele lembra no vídeo de Laura Liuzzi:

Conforme o garimpo ia acontecendo, Sergio ia “quebrando a cara”, como diz, diminuindo a expectativa de encontrar o tal projeto de romance. Por outro lado, revelou-se o imenso material e método de trabalho de Lessa ao longo de sua trajetória. Há ideias de artigos que ele poderia escrever para a Senhor, nos anos 1950, por exemplo, até frases soltas típicas de uma fotonovela que ele fazia para o Pasquim, no final dos anos 1970. Há enunciados como “Um cheiro que mulher tem pouco antes de ir embora”, ou “Morrer para não ficar triste”, e no meio deles um estribilho de uma conhecida música de carnaval. O arquivo contém ainda os caderninhos de suas temporadas passadas em Portugal (a mãe morava em Cascais), nas quais ele anotava o que comia, bebia, quanto pagou. “Ele fazia anotações até para supostos salmos bíblicos!”, diverte-se Sergio. Isso tudo entremeado a referências de cinema, música popular e literatura (como citações breves de Virginia Woolf ou Sartre), presenças fortes na vida de Lessa. “São anotações inteiramente loucas, que ele podia usar numa crônica, ou no ‘Gip Gip Nheco Nheco’”, observa Sergio, lembrando a mitológica seção de aforismos que Lessa criou no Pasquim, acompanhados por ilustrações, principalmente do cartunista Redi. “O Ivan seria um craque no Twitter hoje”.

Apesar de ter encontrado mais frases soltas do que um projeto alinhavado, Sergio acredita que o work in progress guarde tentativas de contar histórias, esboços de contos. De qualquer modo, ele lembra, rindo, que Lessa “falava muito mal” de escrever romance, a despeito de ser um ávido leitor do gênero. “Ele sempre achava que ia cair no ridículo se escrevesse, dizia ser uma coisa idiota. Acho que ele tinha aquela coisa muito comum nas pessoas que são muito exigentes. Não queria escrever porque não queria que alguém dissesse ‘puxa, aquele segundo capítulo não ficou tão bom’. Existia uma resistência”.

As anotações foram o primeiro ponto de atração para Sergio, mas o arquivo guarda outro conjunto bastante relevante: as cartas de amigos e companheiros de redação do Pasquim, entre eles Millôr Fernandes, cujo acervo também está sob a guarda do IMS. Através das cartas é possível conhecer não apenas a história do irreverente semanário que desafiou a censura e os maus bofes da ditadura militar, e chegou a ter toda sua diretoria presa – o único a escapar foi Millôr, que ficou comandando a redação, como ele conta na carta publicada no Correio IMS –, como também do próprio país.

“É uma parte muito preciosa desse arquivo”, afirma Elvia Bezerra, coordenadora de literatura do IMS. “Como Ivan Lessa estava fora, e não havia a facilidade do telefone, as notícias da época ficam registradas ali por esse grupo que teve uma atuação tão importante. Este é um acervo que chega num terreno muito fértil, e vai alimentar com algumas vitaminas tanto o Correio IMS como o Portal da Crônica Brasileira um pouco mais adiante”.

Ivan Lessa e a mãe, Elsie Lessa. Arquivo Ivan Lessa / Acervo IMS

Uma terceira parte do arquivo do jornalista chegará em breve ao IMS, também trazida por Graça Fish, amiga que conviveu com Ivan Lessa e a mulher dele, Elizabeth Fiuza, desde os primeiros tempos em Londres. Graça, como Elizabeth, trabalhou na Embaixada do Brasil na Inglaterra, e depois da morte de Lessa tomou para si a tarefa de ajudar a preservar o que ela sabia ser um arquivo importante. “Ele guardava praticamente todas as cartas que recebia, tinha um talento e uma capacidade incrível de armazenar tudo”, conta Graça, que divide seu tempo entre Londres e Salvador. Na capital da Bahia ela recebe a ajuda da pesquisadora, escritora e socióloga Edinha Diniz (cuja extensa pesquisa sobre Chiquinha Gonzaga está depositada no acervo de música do IMS) para organizar o material. “Ainda está tudo misturado, mas fica evidente que é um arquivo de uma riqueza impressionante. A parte do Pasquim é grande. A correspondência maior é com Paulo Francis, além de Jaguar e do próprio Millôr”.

O novo conjunto a ser incorporado ao arquivo é composto basicamente por cartas de Elsie Lessa para o filho. São mais de 200, enviadas com grande regularidade e de qualquer lugar em que a escritora estivesse, mostrando, como adianta Graça, a grande cumplicidade entre os dois. “Ela é uma autora importante, e as cartas para ele são praticamente crônicas, de uma riqueza literária muito grande. É um conjunto muito especial. Em cada carta da Elsie você vê a presença do Ivan, é um diálogo entre os dois”.

Na grande correspondência com Francis, sem dúvida o principal interlocutor de Lessa, Sergio lamenta não ser possível ter também o outro lado da história. “Essa correspondência daria um livro, porque são cartas muito engraçadas, curiosíssimas, uma conversa meio cifrada entre amigos. Só que o Francis mandou destruir toda sua correspondência”, conta ele. No arquivo há duas ou três cartas que Lessa teria mandado ao amigo com cópia, ou simplesmente não teve coragem de mandar. “São muito belicosas. Os dois se amavam, mas brigavam o tempo todo, o que é um sinal de paixão, né? Comigo o Ivan só brigou duas vezes, mas ele dava presente depois”, brinca.

Além de cartas do ator José Lewgoy, do jornalista Alberto Dines e dos escritor Dalton Trevisan, entre muitos outros, Sergio descobriu também sua correspondência com o amigo, que trouxe de volta um episódio do qual não tinha mais a menor lembrança. “Tirei um ano sabático em 1974 e fiz uma viagem longa. Deixei o apartamento alugado para um casal japonês, com o meu carro na garagem. Numa dessas cartas o Ivan fala para mandar um dinheiro porque pegaram meu carro, fizeram alguma coisa com ele, não entendi nada. Eu não me lembro dessa história! Então minha vida está sendo um pouco reconstituída nessas cartas”.

Entre os itens do arquivo também há muitas fotos, que acompanham bem a trajetória do menino nascido em São Paulo e criado no Rio de Janeiro. Estão lá as imagens do bebê rechonchudo de olhos azuis; as viagens com os pais; as poses descontraídas na redação do Pasquim; as fotos carinhosas com a mulher e a única filha, Juliana; e as fotos de cena do filme Caminhos do sul (1949, dirigido por Fernando de Barros), nas quais o garoto de 14 anos aparece ao lado da beldade Tônia Carrero. Sim, antes de tudo Ivan Lessa foi ator de cinema. Em seu segundo filme, Maior que o ódio (1951, dirigido por José Carlos Burle), contracenou com o igualmente garoto Agnaldo Rayol, formando uma dupla que, ao crescer, era interpretada por Jorge Doria e Anselmo Duarte. “Você vê lá o Ivan adolescente, fumando cigarro, levando o personagem do Agnaldo para a delinquência”, diverte-se Sergio. “A ligação dele com o cinema sempre foi muito forte”.

A sintonia e amizade entre Lessa e Sergio Augusto fez com que o cartunista Jaguar os apelidasse de Batman e Robin. “Ivan, para mim, foi o esteio do Pasquim. Ele brincava com todo mundo, debochava das pessoas que ele adorava. Foi uma convivência maravilhosa”, diz o jornalista. “Depois da página montada pegávamos a peninha de desenhar e ficávamos escrevendo as coisas mais absurdas! Tipo ‘o zeppelin vai pousar na Praça 15, mas só entre duas e quatro’, algo assim. Umas barbaridades. E enlouquecíamos o Paulo Francis, que acho que era nosso projeto de vida. No meio do texto dele já impresso botávamos assim ‘mentira, Francis! para de mentir, não foi nada disso!’”, relembra Sergio, às gargalhadas. No vídeo ele conta outros episódios nos quais Lessa exercitava seu humor.

Trabalhar sobre o arquivo vai despertando no jornalista uma saudade profunda e visível do amigo que partiu do Brasil definitivamente em 1978, e não voltou de Londres sequer na ocasião da morte do pai, em 1986. Sua única visita depois do auto-exílio aconteceu em 2006, a convite da revista piauí. E só. “Ele tinha uma paixão enorme pelo país, mas era uma relação conflituosa. Não queria ficar aqui, mas só pensava no Brasil, era uma ideia fixa, sabia de tudo o que acontecia aqui”.

O último encontro ao vivo dos dois foi justamente em 2006, porém mesmo de longe eles permaneceram unidos, encurtando a distância em cartas, e-mails e telefonemas esporádicos. Emocionado, Sergio relembra aquela que foi provavelmente a última mensagem trocada com Lessa, que, sem perder o estilo, fez troça dos efeitos do enfisema pulmonar que acabou provocando sua morte.

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